Política

    Zoneamento e práticas agrícolas aumentam resiliência a El Niño

    Fenômeno climático pode atrasar chuvas e reduzir produtividade no Cerrado, mas manejo do solo e planejamento da semeadura ajudam a mitigar perdas

    Poder360
    13 de setembro de 2026 às 09:00
    Zoneamento e práticas agrícolas aumentam resiliência a El Niño
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    Fenômeno climático pode atrasar chuvas e reduzir produtividade no Cerrado, mas manejo do solo e planejamento da semeadura ajudam a mitigar perdas

    No bioma Cerrado, onde a produtividade das lavouras de grãos está diretamente relacionada ao regime de chuvas, a ocorrência de um El Niño de alta intensidade pode alterar o balanço hídrico e trazer desafios aos produtores rurais. Nesse sentido, o Zarc (Zoneamento Agrícola de Risco Climático) e o manejo do solo e da lavoura, com práticas conservacionistas e de gestão, podem aumentar a resiliência dos sistemas produtivos e mitigar os efeitos do fenômeno climático.

    Enos (El Niño-Oscilação Sul) é um fenômeno natural periódico, com intervalos de dois a sete anos, que acopla o oceano e a atmosfera no Pacífico Equatorial, alternando-se entre fases quentes (El Niño), frias (La Niña) e períodos de neutralidade, que afetam as temperaturas e o regime de chuvas em todo o planeta. As fases do El Niño são identificadas quando a média móvel da temperatura na superfície do mar permanece igual ou superior a +0,5 °C em relação à média histórica por, no mínimo, 5 meses consecutivos, enquanto eventos do La Niña são caracterizados por anomalias iguais ou inferiores a -0,5 °C em relação à média histórica pelo mesmo intervalo de tempo. Nos anos considerados neutros, as médias móveis de temperatura ficam entre esses limites.

    Sistema Plantio Direto em lavouras de grãos no Cerrado
    Sistema Plantio Direto em lavouras de grãos no Cerrado — Foto: Poder360 · Fonte: Poder360

    De acordo com o pesquisador Fernando Macena , da Embrapa Cerrados (DF), os dados oceanográficos e atmosféricos mais recentes mostram que o Oceano Pacífico equatorial atravessa um aquecimento expressivo. O ION (Índice Oceânico Niño), que registra desde 1950 a anomalia da temperatura da superfície do mar na porção central do Pacífico equatorial, uma das áreas de referência para medir a intensidade do fenômeno, atingiu o patamar de +1,4°C em junho de 2026, 2º mês consecutivo acima de +0,5ºC, mantendo a tendência consistente de elevação das temperaturas iniciada no começo deste ano.

    “ A alteração nos padrões de ventos e na radiação de onda longa (radiação térmica eletromagnética emitida pela superfície da Terra, pelas nuvens e pela atmosfera) consolida a transição para a fase quente do ENOS. Múltiplas projeções individuais sugerem, até mesmo, a possibilidade de anomalias térmicas superiores a +2,5°C no Pacífico tropical, o que configuraria um evento de magnitude histórica ”, diz Macena. O aquecimento oceânico se soma a um contexto global já aquecido: o ano de 2026 registrou o 2º mês de maio mais quente da história, com ondas de calor precoces na Europa e eventos extremos recorrentes em diversos continentes.

    No Cerrado, que se estende pelas regiões Central, Norte e Nordeste do País, o Enos pode provocar 3 grandes problemas para a agricultura: a irregularidade no início da estação chuvosa, que compromete a janela ideal de semeadura da cultura principal de verão; a ocorrência de veranicos prolongados, em que a estiagem intermitente durante o desenvolvimento vegetativo das plantas e o enchimento de grãos elevam o estresse hídrico nas lavouras; e efeitos na segunda safra ou safrinha, uma vez que atrasos na semeadura da primeira cultura estreitam a janela de semeadura para o milho, o sorgo ou o algodão safrinha. A segunda cultura é exposta ao risco de seca antes de completar seu ciclo, ao avançar da safra no período outono inverno. “ Esses riscos climáticos se traduzem em dados concretos de perda de produtividade e do capital investido pelo produtor ”, afirma o pesquisador.

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    Macena diz que mais importante que seguir os alarmes e tentar prever eventos globais com precisão absoluta é oferecer ferramentas práticas para que produtores e gestores rurais convivam com as condições ambientais reais. “ A sustentabilidade e a rentabilidade dependem da capacidade de resposta técnica e planejada. Assim, diante da volatilidade climática global e da confirmação de um fenômeno de grande intensidade, o Zarc pode mitigar incertezas na principal fronteira agrícola do País ”, afirma.

    Desenvolvido pela Embrapa e instituições parceiras sob a coordenação do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), o Zarc, além de ser uma ferramenta regulatória para acesso ao crédito agrícola e ao seguro rural, atua como indutor de tecnologias no manejo produtivo das culturas agrícolas.

    O Zarc integra dados meteorológicos históricos, modelos de balanço hídrico do solo e parâmetros ecofisiológicos de 44 culturas, delimitando os níveis de risco de 20%, 30% e 40% de perdas em cada município brasileiro. “Ao traduzir dados climáticos complexos em orientações operacionais claras sobre datas de semeadura, tipos de solos e cultivares, a ferramenta é um grande aliado do produtor para transformar incertezas incontroláveis em riscos gerenciáveis.

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    Quando alimentado com os indicativos antecedentes de eventos macroclimáticos como o Enos, o Zarc, associado à estabilização da estação chuvosa na região, permite intervenções preventivas para mitigar as quebras de rendimento identificadas em pesquisas recentes ”, explica o pesquisador da Embrapa Cerrados.

    Um estudo recente em fase de publicação simulou, com o uso do modelo Stics (Simulateur mulTIdisciplinaire de Culture Standard), a produtividade da cultivar de soja BRS 8383IPRO em 4 localidades –Cuiabá (MT), Rio Verde (GO), Planaltina (DF) e Barreiras (BA)– que representam diferentes ambientes do Cerrado, a partir de séries históricas de dados diários de clima de 1975 a 2024, segundo a data de semeadura.

    Nesse intervalo de 50 anos, foi registrada a ocorrência das fases de El Niño, La Niña e Neutra de dados sobre clima, solo e sistema de manejo do solo. O Stics gerou estimativas para a condição de semeadura sob sistemas de manejo convencional e plantio direto. Foi identificada uma expressiva quebra nos rendimentos em anos de El Niño, sendo mais severa quando a soja foi semeada no início da janela de cultivo, nos meses de setembro e outubro, que apresentam menos chuvas ou regime pluvial instável.

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    A pesquisa revelou, ainda, que essa vulnerabilidade é intensificada quando é usado o plantio convencional, que consiste no revolvimento da terra com aração e gradagem para o preparo do solo. Por outro lado, a adoção de práticas conservacionistas como o SPD (Sistema Plantio Direto), que evita o uso de arados e grades, mantém a cobertura do solo e promove a diversificação de culturas agrícolas, conferiu produtividades superiores em todas as situações analisadas, demonstrando ser uma forma eficiente para conter as perdas de rendimento e diminuir os riscos sobre o capital investido pelo produtor.

    Dessa forma, para enfrentar a safra sob a influência de um El Niño forte como o que está previsto para este ano e proteger o potencial produtivo contra as quebras de safra, Macena recomenda que gestores e produtores rurais estruturem um plano de ação ancorado em quatro pilares práticos.

    O primeiro pilar é a transição para o SPD (com a adoção de sistemas de Integração Lavoura-Pecuária e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) e sua consolidação. Enquanto o manejo no sistema convencional potencializa as perdas na safra, no SPD, a cobertura permanente do solo por plantas vivas ou pela manutenção de palhada na superfície protege a camada superficial contra o impacto direto das chuvas, amplia a infiltração de água no solo, reduz a evaporação e regula a temperatura do solo. “ Essa adaptabilidade pode tornar o sistema de produção significativamente mais resiliente às adversidades climáticas, além de salvaguardar a produtividade e o capital investido pelo produtor ”, comenta o pesquisador.

    O escalonamento da semeadura e a combinação de ciclos das culturas é o segundo pilar prático. A recomendação é evitar a concentração da semeadura em uma única data. A combinação estratégica de cultivares de ciclos precoce, médio e tardio, aliada ao escalonamento, seguindo a janela recomendada pelo Zarc, dilui o risco de estresse hídrico generalizado, seja por falta ou por excesso de chuvas.

    O 3º pilar trata do monitoramento integrado de pragas e doenças. Pesquisadores da área de Entomologia observam que temperaturas mais elevadas e períodos secos favorecem o aumento da população de insetos-pragas no Cerrado. O planejamento operacional deve, portanto, prever vistorias frequentes nas lavouras para intervenções rápidas e preventivas.

    Por fim, o 4º pilar prático consiste na gestão financeira e proteção de mercado. “ Frente a oscilações de preços e riscos produtivos, o gestor deve associar o cumprimento do Zarc às ferramentas de proteção de preços e à contratação adequada do seguro agrícola ”, recomenda Macena.

    Ele reforça que as adversidades que poderão ser impostas pelo El Niño este ano e a constatação de atraso na estabilização da estação chuvosa e das quebras recorrentes de rendimento, acentuadas pelo manejo convencional do solo, demonstram que a agricultura moderna não pode se pautar pela intuição. “ A convergência entre a ciência do clima, as práticas conservacionistas como o SPD e a tecnologia de gestão agrícola é a única via para garantir a estabilidade do agronegócio no Cerrado ”, afirma.

    O pesquisador pondera que embora o Zarc estabeleça o período com menor risco climático para a semeadura das culturas agrícolas com base em séries históricas de dados, em anos de El Niño a decisão da época de semeadura exige maior cautela: “ É indispensável aguardar a efetiva estabilização da estação chuvosa, monitorando os boletins meteorológicos regionais até que haja umidade suficiente para a germinação das sementes, e checar a temperatura do solo antes do início das operações no campo ”, observa.

    Este texto foi publicado originalmente pela Agência Empraba, em 8 de setembro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360 .

    Publicado originalmente por Poder360. Leia a matéria completa em https://www.poder360.com.br/poder-brasil/zoneamento-e-praticas-agricolas-aumentam-resiliencia-a-el-nino/.

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