Zeros gerais
A França tem um importante prêmio literário, o Prix Goncourt, uma espécie de Nobel doméstico, quase tão cobiçado quanto. Existe desde 1903, nunca perdeu um ano e premia um romance específico, não o conjunto de obra. Entre os laureados, Marcel Proust (1919), André Malraux (1933), Elsa Triolet (1944), Simone de Beauvoir (1954), Romain Gary (1956 e 1975), Roger Vailland (1957), Marguerite Duras (1984). Foi criado por Edmond de Goncourt (1822-96), escritor mais conhecido hoje pelo prêmio do que por seus livros. Leia mais (10/08/2026 - 08h00)

Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras
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A França tem um importante prêmio literário, o Prix Goncourt, uma espécie de Nobel doméstico, quase tão cobiçado quanto. Existe desde 1903, nunca perdeu um ano e premia um romance específico, não o conjunto de obra. Entre os laureados, Marcel Proust (1919), André Malraux (1933), Elsa Triolet (1944), Simone de Beauvoir (1954), Romain Gary (1956 e 1975), Roger Vailland (1957), Marguerite Duras (1984). Foi criado por Edmond de Goncourt (1822-96), escritor mais conhecido hoje pelo prêmio do que por seus livros.
Goncourt era monarquista, antissemita e protofascista. Apesar disso, o prêmio já foi dado a escritores de esquerda, entre os quais de Beauvoir, Duras e Triolet, esta em plena Ocupação nazista (1940-44), e judeus, como Gary, aliás o único premiado duas vezes –19 anos depois de ganhar o primeiro com o pré-ecológico "Raízes do Céu", concorreu sob pseudônimo e, contra as regras do prêmio, venceu de novo, com "A Vida pela Frente", assinado por "Émile Ajar". Mas "Ajar" nunca se apresentou para recebê-lo e só se soube que se tratava de Gary quando ele se matou em 1981 e deixou um livro contando tudo.
O Goncourt já se deixou enganar por um pseudônimo, mas está de olho agora numa fraude real: o uso da IA para escrever. Um romance entre os mais vendidos hoje na França, "C’Était ça ou Mourir" ("Era Isso ou Morrer", ainda inédito no Brasil), de Thélyson Orélien, foi retirado da lista de candidatos deste ano por fortes suspeitas de, segundo os pesquisadores e críticos que o analisaram, ser quase de ponta a ponta um produto da inteligência artificial. Orélien pode ser até repetente nessa falsificação.

A malandragem já chegou também por aqui. Sou convidado com frequência a julgar contos e crônicas de estudantes em concursos promovidos por instituições sérias. Há tempos percebo nos textos semelhanças na maneira de narrar, na escolha de ângulos e até no uso de palavras. Óbvio uso da IA por jovens que pensam conseguir tapear os julgadores.
Comigo, não. Disparo zeros gerais e sigo em frente.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2026/10/zeros-gerais.shtml.

O escritor haitiano-canadense Thelyson Orelien - Joel Saget/AFP · Joel Saget/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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