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    Zélia Amador de Deus, de Ananse, de Nanã e do Pará

    Há muito o que ver em Belém , capital paraense que amo visitar. É daqui que escrevo este texto, com vista para a baía do Guajará, tomada por um sentimento de gratidão após o encontro com um patrimônio do Pará: a professora doutora Zélia Amador de Deus. Leia mais (08/27/2026 - 16h49)

    Folha de S.Paulo
    27 de agosto de 2026 às 19:49
    Zélia Amador de Deus, de Ananse, de Nanã e do Pará
    Sobre um fundo rosa, surgem folhas e caules com diferentes tons de verdes e sobre eles, duas flores roxas, com detalhes em tons de lilás e roxos mais claros — Foto: Folha de S.Paulo

    Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais

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    Aline Bispo/Folhapress · Aline Bispo/Folhapress
    Aline Bispo/Folhapress · Aline Bispo/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há muito o que ver em Belém , capital paraense que amo visitar. É daqui que escrevo este texto, com vista para a baía do Guajará, tomada por um sentimento de gratidão após o encontro com um patrimônio do Pará: a professora doutora Zélia Amador de Deus.

    Para quem ainda não a conhece, é preciso dizer que a professora Zélia é uma lenda viva brasileira.

    Nascida na Ilha de Marajó, é cofundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará , o Cedenpa, uma das mais antigas e importantes organizações do movimento negro na região Norte e no Brasil.

    A região do mercado Ver-o-Peso, em Belém - Anderson Coelho - 14.nov.25/Reuters · Anderson Coelho - 14.nov.25/Reuters
    A região do mercado Ver-o-Peso, em Belém - Anderson Coelho - 14.nov.25/Reuters · Anderson Coelho - 14.nov.25/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Zélia deixou sua marca em todos os lugares por onde passou e teve papel decisivo na criação de políticas de ação afirmativa no estado.

    É doutora e professora emérita de sua alma mater, a Universidade Federal do Pará, e doutora honoris causa pela Universidade do Estado do Pará. Durante décadas de docência, orientou incontáveis trabalhos acadêmicos. Ao longo de sua trajetória, destacou-se também como atriz —participando de inúmeras peças no Theatro da Paz—, escritora e ativista.

    A professora Zélia é uma herdeira de Ananse, como escrevi nesta Folha em 2019. Representado como uma aranha, Ananse pertence à tradição dos povos fante-ashanti da África Ocidental. Em uma de suas narrativas, todas as histórias pertenciam a Nyame, o deus do céu. Com inteligência e astúcia, Ananse realiza tarefas consideradas impossíveis, conquista o direito de também possuir essas histórias e passa a distribuí-las pelo mundo.

    Minha visita a Zélia Amador de Deus e seu companheiro, Anselmo - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal
    Minha visita a Zélia Amador de Deus e seu companheiro, Anselmo - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Para Zélia, sua teia representa os vínculos que acompanharam a população negra na diáspora: fios de memória e resistência por meio dos quais os povos negros sobreviveram, preservaram seus saberes e criaram condições para contar a própria história.

    Daí a honra de ser recebida em sua casa, no tranquilo bairro da Cidade Velha. Ali, Belém preserva parte importante de seu patrimônio: as casas e os prédios permanecem baixos, em uma região com atmosfera de cidade do interior.

    No apartamento, subi de elevador e encontrei à porta seu companheiro, o médico pneumologista aposentado Anselmo. Juntos há mais de quatro décadas, eles formaram uma linda família, cuja história se espalha pelas fotografias dispostas por toda a casa. São lembranças de viagens, bailes e momentos de muita felicidade. Para mim, cujo sonho é envelhecer bem, ver uma senhora negra triunfante, cercada de amor, conforto e cuidado depois de tantos serviços prestados a este país, é algo que me sensibiliza profundamente.

    Veja detalhes da restauração do cinema histórico em Belém
    Veja detalhes da restauração do cinema histórico em Belém — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Seguindo a sugestão da professora Isabel Cabral, sua fiel escudeira, levei-lhe a flor mais lilás que encontrei, em homenagem à cor de Nanã, a orixá anciã do panteão, soberana dos pântanos, senhora da sabedoria e da memória.

    Certa vez, vi um vídeo do babalorixá Sidnei Nogueira no qual ele explicava que Nanã é a sabedoria porque ela também é a memória. Uma acompanha a outra —e ambas vivem em Zélia Amador de Deus, filha de Nanã e devota de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Pará.

    A planta era grande e o vaso escolhido no mercado Ver-o-Peso trazia desenhos de símbolos de Exu, o orixá da comunicação. A escolha também homenageava um encontro nosso em 2019, do qual nunca me esqueci, quando a professora foi me visitar na Feira Pan-Amazônica do Livro.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Eu atravessava um período em que estava ferida pelas perseguições nas redes sociais. Naquele momento, a ascensão de uma mulher negra como intelectual despertava incômodos e os ataques se sucediam, vindos das mais diversas correntes ideológicas. Minha couraça ainda estava se formando. Talvez tenha sido isso que a professora percebeu quando fez questão de ir me ver.

    Sentada comigo em um camarim, Zélia segurou minha mão e me disse: "Djamila, Exu é o senhor dos caminhos. Com sua agressividade, abriu trilhas pela diáspora. Precisamos continuar sendo corpos insurgentes, corpos que incomodam e abrem espaços. Não podemos abaixar a cabeça. Seja agressiva como Exu e abra seus caminhos".

    Como uma boa filha de Nanã e dona de uma excelente memória, ela se lembrou daquela conversa assim que viu o vaso. Juntas, reconstituímos os fios daquele encontro e os entrelaçamos às histórias compartilhadas naquela manhã, ao redor de uma mesa farta de café da manhã, com taperebá, cupuaçu e outros sabores do Norte.

    Djamila Ribeiro com Zélia Amador de Deus e o dela companheiro, Anselmo
    Djamila Ribeiro com Zélia Amador de Deus e o dela companheiro, Anselmo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Olho para a imensidão da baía com o coração aquecido pela honra de ter estado com ela. Entre as teias de Ananse e a sabedoria de Nanã, reencontrei a mais velha, que guarda o passado, abençoa o presente e aponta o futuro.

    Que seu legado, como a flor mais lilás que encontrei, siga florescendo na memória de todas e de todos nós.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/djamila-ribeiro/2026/08/zelia-amador-de-deus-de-ananse-de-nana-e-do-para.shtml.

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