Xico Sá lembra a busca por PC Farias em novo livro; leia trecho inédito
[RESUMO] Neste fragmento de " O Tesoureiro ", que será publicado pela Todavia, Xico Sá rememora a atmosfera que o cercava em meados de 1993, quando todos se perguntavam onde estava PC Farias. O tesoureiro de Collor desapareceu depois da decretação da sua prisão, e o então repórter da Folha obteve a informação que ele estava em Londres. PC Farias foi preso na Tailândia meses depois e condenado pelo STF no ano seguinte. Em 1996, foi encontrado morto ao lado da sua namorada, Suzana Marcolino, um crime até hoje não esclarecido . Leia mais (09/05/2026 - 15h00)

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Jornalista e escritor. Autor, entre outros livros, de "Big Jato", "A Falta" e "O Tesoureiro"

[RESUMO] Neste fragmento de " O Tesoureiro ", que será publicado pela Todavia, Xico Sá rememora a atmosfera que o cercava em meados de 1993, quando todos se perguntavam onde estava PC Farias. O tesoureiro de Collor desapareceu depois da decretação da sua prisão, e o então repórter da Folha obteve a informação que ele estava em Londres. PC Farias foi preso na Tailândia meses depois e condenado pelo STF no ano seguinte. Em 1996, foi encontrado morto ao lado da sua namorada, Suzana Marcolino, um crime até hoje não esclarecido .
O caso PC era acompanhado como uma novela de sucesso. O assunto dava mais audiência do que o coronel José Inocêncio, personagem de "Renascer", teledrama em cartaz na TV Globo naquele momento.
Acossado, sentia-me como um Sherlock Holmes de araque. Ria, de nervoso, ao saber que a cobrança, mesmo feita às vezes em tom de humor ou blague, me perseguiria como uma sombra em forma de interrogação gigante pelo asfalto selvagem de São Paulo.

Onde está Wally? O cartunista Angeli retratou como ninguém o desaparecimento do vilão, em charges que misturavam a política brasileira com o desenho infantil, que eram um fenômeno editorial na época. O Wally das Alagoas era bem mais enigmático do que o personagem esperto do autor e ilustrador britânico Martin Handford.
Muitas noites acordei com este pesadelo: onde está PC Farias?
Meu gato Bulgakov tentava confortar este atordoado jornalista. A massagem de patas felinas sobre a barriga não era suficiente, porém, para trazer a calmaria. Ligava, em plena madrugada, para Brigitte Montfort, nome fantasia usado por uma das minhas fontes mais fiéis durante a cobertura do escândalo que abalava o Brasil.

"Calma, meu bem, nada de novo no front da República de Alagoas", dizia ela, direto do balcão da boate Coquetel Drink's, em Maceió , onde eu a conhecera. "Dorme em paz, anjo da notícia."
A sábia e irônica Brigitte copiou seu codinome da espiã dos livrinhos de bolso ZZ7, coleção pulp fiction da Editora Monterrey, publicada entre 1965 e 1992, que fez muito sucesso no Brasil. A personagem foi criada pelo jornalista carioca José Alberto Gueiros —os primeiros livrinhos saíram assinados com o seu pseudônimo J. F. Krakberg. O espanhol Lou Carrigan (pseudônimo de Antonio Vera Ramírez) escreveu o restante da obra. A imagem que ilustrava a capa era sempre do gaúcho Benício.
Nem a voz erótica de veludo-agreste da fonte conseguia me acalentar nessa hora.

Até aquele instante, junho de 1993, eu havia sido o cão Rabugento nos calcanhares de dom Pablo —como Paulo César Farias era tratado na intimidade pelos "bons companheiros" do Morcego Negro, lendário jatinho particular que o conduzia nas rotas tropicais da coleta de recursos e dos paraísos fiscais do Caribe.
Dom Pablo era o homem responsável pela ascensão e queda de Fernando Collor de Mello , o primeiro presidente eleito por voto popular depois da ditadura no Brasil. O pioneiro também em perder o mandato, após sofrer um processo de impeachment.
Caixa da campanha eleitoral do amigo Fernando, Paulinho Gasolina —como era conhecido em Maceió— havia desviado US$ 1 bilhão da máquina pública em repetidos episódios mafiosos em sociedade com o presidente alagoano, um playboy oligarca nascido no Rio de Janeiro.

"Pelo menos US$ 1 bilhão", informou a Polícia Federal.
PC desdenhava: "Chute faraônico da porra".
Cadê PC Farias? Indagava minha própria mãe, dona Maria do Socorro, ao telefone, por DDD, discagem direta à distância, de Juazeiro do Norte para o meu ramal na bancada de repórteres de política da Folha de S.Paulo. Ela sabia que o seu primogênito estava no encalço do homem mais procurado do Brasil.

Não botava lá tanta fé, me conhecia por tentativas no folheto de cordel e por "conselheiro sentimental" do programa Temas de Amor, na rádio Vale do Cariri, onde iniciei as atividades profissionais na companhia do locutor Jevan Siqueira.
Sim, ela lembrava do diploma de "detetive particular" (curso por correspondência do Instituto Universal Brasileiro) pendurado no reboco de casa, porém nunca imaginou que o certificado rendesse algo.
Ela sabia que o filho estava no lucro —foi o primeiro de toda a família até aquele momento a escapar da lida na roça das terras brocadas do semiárido.

Mestre Libânio, também conhecido como Charles Bronson, dono da boate Farewell, na região da rua Augusta, em São Paulo, reunia as moças mais graciosas do estabelecimento para que eu contasse as histórias sobre dom Pablo. O pianista da casa tocava uma trilha de suspense para acompanhar a viagem ao fim da noite. O músico era a cara do Sam, quase sósia mesmo, do personagem que toca e canta "As Time Goes By" no filme Casablanca (1942).
Haja glamour e decadência na fase pós-Boca do Lixo paulistana.
Tempos de jornais de papel. A poderosa imprensa brasileira dos anos 1990. O jornal onde trabalhei por mais de uma década, a Folha , chegou a vender mais de 1 milhão de exemplares aos domingos, recorde sob o comando do editor Matinas Suzuki Jr., o samurai que imperava nas bancas.
Naquela hora ainda estávamos dois anos distante de uma invenção que mudaria o jornalismo —a internet comercial chegaria ao país apenas em 1995. Um repórter era outro tipo de animal farejador àquela altura, esquentava menos a bunda nas cadeiras das Redações, tinha que sair às ruas ou ir aos gabinetes em busca da notícia.
O ideal era ter sempre um bom par de sapatos e um bloco de anotações, dizíamos.
"A verdade está lá fora." Valia, mais do que tudo, a máxima do seriado "Arquivo X".
Não desejo com essa ladainha, porém, chupar o derretido Chicabon da nostalgia. Quero apenas registrar que em 2026, momento em que escrevo este livro, é tudo mais suave. Todo repórter de hoje parte para uma investigação munido de informações que podem ser obtidas a um simples clique no Google, no ChatGPT ou nos acervos online de tribunais de todas as instâncias. Todos esses dados, na cobertura dos escândalos pré-internet, tinham que ser cavados na unha, no suor, em pacientes conversas com as fontes ou com a ajuda de um generoso funcionário público que nos descolava uma xerox de um documento secreto.
Não havia, ainda nem em sonho, a mínima ideia do que se tornariam os importantíssimos e obrigatórios "portais da transparência" dos poderes públicos.
É desse tempo que vem a minha busca por PC Farias. Da era da notícia a lenha. Uma busca não apenas de um desaparecido famoso, mas para entender uma figura que marcou a política brasileira no primeiro momento depois da ditadura —verdes anos da redemocratização do país.
Aqui entra em ação a figura do caixa de campanha eleitoral, o tesoureiro que passou o chapéu e recolheu milhões dos principais representantes do PIB. O medo da possível eleição de Leonel Brizola ou Lula da Silva, em 1989, fez os empresários despejarem sacas de dólares no comitê collorido do Partido da Reconstrução Nacional (PRN). Sob uma inflação superior a 1000% ao ano, os doadores optavam pela moeda americana em vez do cruzeiro novo.
Sacas. Isso mesmo. Não é hipérbole, é fato. Daquelas sacas-padrão em que cabem 60 quilos de cereais.
"A cada pânico diante de Lula, a montanha de grana ia às alturas", contava PC. "Se tem uma coisa que dá dinheiro no Brasil é o fantasma do comunismo."
Nada explica mais o país do que o poder dos caixas de campanhas. Antes e depois das eleições. A mesma "elite" que fez a montanha de dólares ir até a tesouraria de Collor, tentou pegar tudo de volta —com juros e correções monetárias— durante a sua breve gestão. Nesse momento, dom Pablo aproveitou para abocanhar fartas comissões que serviriam para garantir a boa vida do presidente e engordar o cofre da sociedade entre os dois.
Embora uma simples Fiat Elba tenha ficado no folclore político como a prova fatal da corrupção de Collor/PC, a dupla perdeu a noção do dinheiro que amealhou. A grana, para ser preservada, foi distribuída em contas de bancos no exterior, paraísos fiscais e operadores estrangeiros —em algumas ocasiões, até foi utilizado o mesmo caminho de mafiosos italianos, como relata o documentário Morcego Negro, dirigido por Chaim Litewski e Cleisson Vidal, baseado em livro do jornalista Lucas Figueiredo, filme do qual participo como "testemunha ocular da história".
A modesta perua Fiat Elba, comprada com dinheiro de contas de PC Farias para o staff de Collor, foi apenas o símbolo da primeira prova documentada do dinheiro sujo do Collorgate.
Dias antes da CPI do Congresso revelar o "presente" do carro, recebi, no endereço da Folha , uma carta anônima de um homem que se dizia "mestre de obras" relatando que PC Farias estava bancando a reforma de um apartamento de Collor, no bairro do Farol, na capital alagoana.
"Rosane diz como quer que fique o serviço, tim-tim por tim-tim, mas quem paga é dr. Paulo", escreveu. Ao final da cartinha, deu o nome de um escritório chique de decoração no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, que faria o acabamento da construção. Percorri o roteiro traçado pela fonte e confirmei, em reportagem, o duto que ligava o homem-caixa ao luxo da "madame", como a primeira-dama do Brasil era conhecida entre os conterrâneos, amigos ou inimigos de Collor.
Nossa aventura está apenas começando. "There's a breakdown on the runway/ And the timeless flights are gone", canta Elton John no rádio do carro conduzido pelo taxista Delmiro. O Morcego Negro, lendário avião de PC Farias, deu a partida.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2026/09/xico-sa-lembra-a-busca-por-pc-farias-em-novo-livro-leia-trecho-inedito.shtml.

O corpo de PC Farias visto por uma fresta do IML de Maceió - Juca Varella - 24.jul.96/Folhapress · Juca Varella - 24.jul.96/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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