Xi não atravessou o oceano Pacífico atrás de acordos com Donald Trump
Donald Trump foi esperar Xi Jinping ao pé da escada do avião na base de Andrews, na quarta-feira (23), e preparou para o líder chinês guarda de honra, sobrevoo de bombardeiro e um jantar de gala. Leia mais (09/25/2026 - 17h25)

Jornalista, mestre em Estudos da China pela Academia Yenching (Universidade de Pequim) e em Assuntos Globais pela Universidade Tsinghua
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Donald Trump foi esperar Xi Jinping ao pé da escada do avião na base de Andrews, na quarta-feira (23), e preparou para o líder chinês guarda de honra, sobrevoo de bombardeiro e um jantar de gala.
Tanta pompa contrasta com o pouco que se produziu —a saber, a extensão por só dois meses da trégua comercial fechada em Busan em 2025 e a ausência de uma comitiva relevante de empresários chineses que traria promessas de investimento
Esse descompasso deixa de ser estranho quando se entende que Xi não atravessou o Pacífico atrás de acordos. Segundo fontes na China com quem tenho conversado, o objetivo da visita é menos chegar a anúncios grandiosos e mais verificar o quão firme está a relação com os EUA para suportar uma decisão ainda em aberto. Isso porque, a despeito das expectativas, Xi pode não querer disputar um quarto mandato no 21º Congresso do Partido Comunista no ano que vem.

O plano em discussão seria uma transição guiada, na qual Xi entregaria a secretaria-geral do partido a um sucessor (possivelmente o premiê Li Qiang ) e depois a Presidência, cargo em grande parte cerimonial, ficando só com a chefia da Comissão Militar Central, o órgão que comanda as Forças Armadas.
Sair dos cargos formais sem abrir mão do poder tem longa tradição no partido, a começar por Mao Tsé-tung , que entregou a chefia de Estado a Liu Shaoqi em 1959, depois do desastre do Grande Salto Adiante. Mao manteve a liderança do partido e o comando militar, recuou para o que chamava de "segunda linha" da direção e, de lá, lançou a Revolução Cultural anos depois.
Deng Xiaoping foi além, porque nunca ocupou a secretaria-geral, e o único cargo de topo que teve foi justamente o comando militar, repassado a Jiang Zemin em 1989. Jiang repetiu a fórmula ao entregar o partido a Hu Jintao em 2002 e segurar a comissão militar por mais dois anos.

É também o comando militar que explica por que Xi se sentiria seguro para dar esse passo agora. Os expurgos dos últimos três anos deixaram a comissão escolhida em 2022 com apenas dois de seus sete integrantes: o próprio Xi e Zhang Shengmin, responsável pela disciplina nas Forças Armadas.
O caso mais simbólico foi o de Zhang Youxia, general de família ligada à de Xi desde a revolução, destituído formalmente em agosto. Quem reconstrói essa comissão do zero pode entregar o partido a outro sem temer que os quartéis mudem de lado.
Resta o flanco externo, e é nele que a viagem a Washington ganha sentido porque nenhum sucessor quer herdar uma guerra tarifária ou uma crise no estreito de Taiwan . Por isso Pequim insiste desde a visita de Trump em maio na fórmula de uma "relação construtiva de estabilidade estratégica", repetida no comunicado chinês desta quinta.
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Mais do que compras de soja, Xi quer saber se o presidente americano mantém congelado o pacote de US$ 14 bilhões em armas para Taiwan que o americano trata como "moeda de troca" e se aparece em Shenzhen para a cúpula da Apec, em novembro.
O maior obstáculo à tese é a idade de Li Qiang, que completa 68 anos em julho de 2027, limite que a regra informal do partido usa para aposentar dirigentes. Xi, porém, rompeu essa mesma regra em 2022, e um herdeiro que deve o posto a uma exceção aberta pelo antecessor costuma ser mais dócil. Talvez exatamente o perfil que ele procura.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/igor-patrick/2026/09/xi-nao-atravessou-o-oceano-pacifico-atras-de-acordos-com-donald-trump.shtml.

O presidente dos EUA, Donald Trump cumprimenta o líder da China, Xi Jinping, durante encontro em Washington - Win McNamee - 25.set.26/Getty Images via AFP · Win McNamee - 25.set.26/Getty Images via AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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