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    Voto em Flávio Bolsonaro expressa ideia perdida de nação

    A resenha de uma biografia de Hannah Arendt recentemente publicada nos Estados Unidos me remeteu à incrível entrevista que ela deu a Günter Gaus, na televisão alemã, em 1964, e que eu nunca tinha visto, embora esteja há anos disponível no YouTube. Leia mais (09/03/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    3 de setembro de 2026 às 13:00
    Voto em Flávio Bolsonaro expressa ideia perdida de nação
    Foto: Folha de S.Paulo

    Romancista, autor de 'Nove Noites' e 'Os Substitutos'

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    Veja imagens da filósofa Hannah Arendt
    Veja imagens da filósofa Hannah Arendt — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A resenha de uma biografia de Hannah Arendt recentemente publicada nos Estados Unidos me remeteu à incrível entrevista que ela deu a Günter Gaus, na televisão alemã, em 1964, e que eu nunca tinha visto, embora esteja há anos disponível no YouTube.

    Arendt escapou da Alemanha em 1933, aos 26 anos, quando, em suas próprias palavras, só um idiota seria incapaz de perceber que os nazistas (e muitos alemães que os apoiavam direta ou indiretamente) eram inimigos dos judeus. E isso bem antes da instalação do terror, precedida por um período de abandono e vazio.

    O problema na verdade não eram só os inimigos, mas os "amigos", gente que acabaria caindo na própria armadilha, no que ela chama de "coordenação", ou deslealdade, dos intelectuais. "Eu não tinha a menor vontade de ficar perambulando pela Alemanha como cidadã de segunda classe."

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Arendt é categórica ao declarar que, "se você é atacado como judeu, deve se defender como judeu, não como alemão ou cidadão do mundo ou defensor dos direitos humanos, ou o que quer que seja".

    Nesse momento, o entrevistador pede que ela então explique o que queria dizer quando declarou: "Nunca amei nenhum povo ou grupo coletivo, nem alemães, nem franceses, nem americanos, nem a classe operária nem nada desse gênero. Só posso amar meus amigos. O amor pelos judeus seria suspeito, porque sou judia".

    E ela esclarece: "Pertencer a um grupo por nascimento é da condição humana. Agora, pertencer a um grupo organizado politicamente é uma coisa completamente diversa. As pessoas se organizam politicamente por interesses comuns em relação ao mundo. O que chamamos de amor, e que pode existir no amor propriamente dito e também na amizade, é uma relação pessoal direta, que não está baseada em interesses comuns em relação ao mundo. [...] O amor é apolítico e desinteressado".

    Arendt associa esse amor à condição judaica, à humanidade própria dos párias, que se perdeu com a criação do Estado de Israel . E lamenta: "A liberdade cobra um preço alto".

    O amor desinteressado aparece na literatura, segundo ela, quando Homero decide cantar não apenas o vencedor, mas os vencidos; quando Heródoto conta os feitos dos gregos e também dos bárbaros. "Toda ciência nasce desse espírito. Se você é incapaz de imparcialidade, porque pretende amar seu próprio povo a ponto de comprometer a verdade, então não há o que fazer."

    O interesse comum é da ordem política. É a condição das nações. O resultado das pesquisas, mostrando Flávio Bolsonaro encostado em Lula no segundo turno das eleições presidenciais em outubro, com tudo o que seu nome, seu pai e sua família representam contra os brasileiros, acrescido do passivo de subserviência a uma potência estrangeira com interesses contrários aos do país, faz pensar que estejamos cercados não só pelo cinismo de inimigos declarados, mas pelos que Arendt considerava "amigos desleais" que, em nome de interesses aparentemente comuns, nacionais, e muitas vezes sem se dar conta da extensão suicida de suas ações, preparam uma armadilha que, essa sim, será comum e fatal.

    Não seria de todo descabido ver na política internacional aparentemente errática de Donald Trump , para além da ganância pessoal, um desmonte deliberado das nações, com a cumplicidade de grupos oportunistas internos compartilhando interesses em redes supranacionais de desregulação e corrupção.

    Por mais contraintuitivo que pareça à primeira vista, a autocracia é a condição do esfacelamento nacional. A aliança do governo americano com a extrema direita na América Latina faz parte de uma política de espoliação, fundamental no seu confronto com a China , única potência capaz de lhe fazer frente.

    Que significa quase metade dos eleitores declarar o voto em Flávio Bolsonaro senão uma ideia perdida de nação? O eco insistente de um governo funesto cujo lema —"Deus acima de todos..."— trazia embutida uma conclusão tácita e interessada: "...e cada um por si".

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardo-carvalho/2026/09/voto-em-flavio-bolsonaro-expressa-ideia-perdida-de-nacao.shtml.

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