“Você vai superar?” O que Freud quis dizer com “trabalho de luto” e por que uma perda não precisa ser esquecida
Embora a dor possa mudar de intensidade com o tempo, a elaboração de uma perda não significa esquecer quem morreu ou encontrar alguém para ocupar o mesmo lugar

“Você vai superar” costuma ser uma tentativa de consolar quem perdeu alguém. A frase, porém, pode dar a impressão de que existe um momento em que a pessoa simplesmente deixa a perda para trás. Para Sigmund Freud , a questão era mais complexa. Ao estudar o luto, o psicanalista descreveu um processo doloroso de adaptação à ausência, no qual os vínculos construídos com quem morreu não desaparecem de uma hora para outra
A própria história de Freud ajuda a entender essa discussão. Em 1920, ele perdeu a filha Sophie , aos 26 anos, durante a pandemia de gripe. Nove anos depois, escreveu ao psiquiatra Ludwig Binswanger, que havia perdido um filho. Na carta, Freud reconheceu que a fase mais aguda do luto diminuiria, mas também afirmou que a perda não encontraria um substituto.
Quando alguém perde uma pessoa importante, a ausência não desaparece simplesmente porque a vida precisa continuar. Uma leitura possível para esse processo está no chamado “trabalho de luto” descrito por Freud, conceito que a psicanalista, Jessica Oliveira, aborda ao explicar por que seguir em frente não significa necessariamente esquecer quem morreu.

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O conceito aparece em “Luto e Melancolia”, texto publicado por Freud em 1917. Nele, o psicanalista descreve o luto como uma reação diante da perda de alguém querido ou de algo que ocupava um lugar significativo na vida.
A realidade da perda precisa ser reconhecida gradualmente, enquanto lembranças, expectativas e outros vínculos relacionados àquilo que foi perdido continuam presentes. É nesse processo que Freud utiliza a noção de “trabalho de luto” , entendido como um processo psíquico que envolve tempo e elaboração.

O chamado trabalho de luto diz respeito à maneira como a pessoa passa a lidar psiquicamente com aquilo que perdeu. Freud também diferenciou o luto da melancolia , que, em sua formulação, apresenta características próprias, entre elas uma forte redução da autoestima e autorrecriminações. No luto, a reação está diretamente relacionada à perda reconhecida.
A ideia aparece em uma carta enviada por Freud a Binswanger em 12 de abril de 1929 , após a morte do filho do psiquiatra. Freud escreveu que a dor mais intensa diminuiria, mas que não haveria um substituto para a pessoa perdida. Um novo vínculo seria, simplesmente, outra coisa.
A reflexão ajuda a diferenciar elaborar uma perda de apagar alguém da própria história . Para Freud, seguir a vida não significava necessariamente deixar de sentir a falta ou encontrar outra pessoa para ocupar o mesmo lugar.

Não necessariamente. O chamado trabalho de luto está relacionado à transformação da maneira como a perda é vivida, e não ao desaparecimento da lembrança.
Assim, quando alguém diz “você vai superar” , isso pode significar que a dor vai mudar com o tempo, e não que a pessoa será esquecida. A vida pode continuar sem que a importância de quem morreu deixe de existir.




Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/curiosidades/voce-vai-superar-o-que-freud-quis-dizer-com-trabalho-de-luto-e-por-que-uma-perda-nao-precisa-ser-esquecida/.

"Você vai superar": Freud • undefined · • undefined — Foto: CNN Brasil
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