Brasil

    Você odeia metade dos brasileiros e eles odeiam você?

    Comecei a minha carreira profissional na ONU diagnosticando conflitos internacionais e desenhando planos de paz . Em países marcados por guerras, crises políticas e feridas sociais antigas aprendi a reconhecer sintomas que, muitas vezes, passam despercebidos até ser tarde demais. Não porque os compreenda melhor do que os outros, mas porque já os vi surgir em lugares muito diferentes. Leia mais (10/08/2026 - 07h00)

    Folha de S.Paulo
    8 de outubro de 2026 às 10:00
    Você odeia metade dos brasileiros e eles odeiam você?
    Sobre um fundo cor de laranja claro, ilustração de Martin Kovensky publicada na Folha de S.Paulo em 3 de dezembro de 2023 , mostra dois homens andando em direções opostas. Ambos aparecem no centro da cena e andam para as laterais. Eles são — Foto: Folha de S.Paulo

    Professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal. Nomeado Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial, em 2017

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    Martin Kovensky/Folhapress · Martin Kovensky/Folhapress
    Martin Kovensky/Folhapress · Martin Kovensky/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Comecei a minha carreira profissional na ONU diagnosticando conflitos internacionais e desenhando planos de paz . Em países marcados por guerras, crises políticas e feridas sociais antigas aprendi a reconhecer sintomas que, muitas vezes, passam despercebidos até ser tarde demais. Não porque os compreenda melhor do que os outros, mas porque já os vi surgir em lugares muito diferentes.

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    Escrevi aqui na Folha que estas me parecem ser as primeiras eleições verdadeiramente identitárias no Brasil. O voto deixou de ser uma escolha individual e passou a funcionar como confirmação de uma identidade e de pertencimento a uma comunidade. Quando isso acontece, os fatos passam a valer menos, porque tudo o que entra no grupo é reinterpretado para não perturbar a sua coesão nem o vínculo de cada um com ele. Se o Watergate acontecesse hoje e no Brasil, haveria versões para todos os gostos, os apoiadores de Nixon sairiam do escândalo ainda mais nixonistas e o presidente talvez nem renunciasse.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em muitos conflitos, a identidade ganha força quando frustração, insegurança e abandono deixam de ser problemas isolados e passam a ser lidos como experiência de um grupo. A identidade organiza esse mal-estar e transforma ruído em coro. Na ex-Iugoslávia, nos anos 1990, dificuldades econômicas e disputas políticas acabaram absorvidas por narrativas nacionais que ajudaram a preparar o terreno para a guerra. O mesmo aconteceu com cingaleses e tâmiles no Sri Lanka, nos anos 1980 e 1990.

    Talvez me falte intimidade suficiente com a história brasileira para decretar que nunca foi assim. Mas, olhando para os últimos séculos, custa encontrar outro momento em que o país tenha parecido tão perfeitamente partido em duas maneiras de ser. A Guerra dos Farrapos, a Cabanagem, Canudos , sei lá, até a Guerra do Contestado, geraram violência interna em enorme escala, mas foram conflitos territorialmente circunscritos. Nunca tantos milhões de brasileiros pareceram nutrir tamanho ódio por outros tantos milhões.

    A palavra ideologia já não é suficiente para classificar o que divide o país no presente, até porque ideias discutem-se e abandonam-se, são uma construção da cabeça. As identidades, por outro lado, instalam-se dentro de nós e defendem-se a bem ou a mal. "Se o Lula ganhar, isso termina em guerra civil", me disse, na manhã seguinte ao primeiro turno, o CEO de uma grande empresa brasileira, uma pessoa até cordata. Suspeito que, numa conversa com um eleitor abrasado de Lula, ouviríamos o mesmo medo, apenas dirigido ao outro lado. Obviamente, não estamos em uma guerra civil e a expressão foi usada apenas como figura de linguagem. Mas, a partir de 26 de outubro, qualquer que seja o resultado, teremos de aprender a viver em dois países dentro do mesmo país.

    Em Berlim houve um muro. Em Beirute, a Linha Verde dividia a cidade. Em Gaza há cercas e arame farpado. A separação física tem uma perversidade quase confortável porque ela nos diz onde termina o nós e onde começa o eles. É como se organizasse o medo, tornando os movimentos previsíveis.

    No Brasil, os muros serão invisíveis, mas estarão em todo o lado. Um grupo de progressistas pensará duas vezes antes de falar audivelmente de política num restaurante. Antes de aceitar um convite para uma festa na sexta à noite, vamos querer saber quem estará lá. Numa reunião de trabalho, num táxi, numa academia ou numa repartição pública, procuraremos pequenos marcadores de identidade, de uma barba mais longa a um peito bombado. Nos anos 1990, na Irlanda do Norte, o time de futebol ou até a pronúncia podiam sugerir se alguém era católico ou protestante. Na Caxemira, práticas alimentares podem expor hindus e muçulmanos. Poderá ser assim no Brasil. Com algumas pessoas, sentiremos conforto, identificação e segurança. Com outras, o corpo se retrairá somaticamente antes que a razão intervenha, e desse primeiro desconforto nascerá uma aversão silenciosa, porque a diferença será sentida como ameaça.

    Uma sociedade dividida dessa forma se torna extremamente vulnerável, porque um conflito restrito pode transbordar rapidamente e ser absorvido pela lógica da violência, sobretudo quando há armas em abundância, além de milícias e organizações criminosas capazes de transformar a polarização em oportunidade de poder, controle territorial e lucro. E, para piorar, faltam no Brasil figuras conciliadoras capazes de pertencer a um campo sem deixar de ser escutadas pelo outro, como Desmond Tutu na África do Sul ou John Hume na Irlanda do Norte.

    O atual momento brasileiro é perigoso. Quando os chefes de duas comunidades se enfrentam diretamente para o governo da nação, é como passar uma lâmina sobre uma ferida mal fechada porque uma das comunidades será necessariamente subjugada. Uma vitória de Flávio me preocupa porque o vejo unicamente disposto a administrar a vitória dos seus e não a existência dos outros, mesmo que para isso tenha de usar contra a democracia as ferramentas que a democracia lhe colocou nas mãos .

    Não pretendo fazer profecias nem ser alarmista, até porque os países, como as pessoas, têm por vezes a prudência tardia de recuar quando já pareciam decididos a precipitar-se. Em outras ocasiões o Brasil já provou que consegue absorver choques e reencontrar uma forma de convivência que hoje parece improvável. Ainda assim, corremos o risco de descobrir que o país inteiro continua aqui, mas já não dentro de nós.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-tavares/2026/10/voce-odeia-metade-dos-brasileiros-e-eles-odeiam-voce.shtml.

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    Martin Kovensky/Folhapress · Martin Kovensky/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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