Vizinhos do Brasil se aproximam de Trump e desafiam plano regional de Lula
Movimento expõe o desafio do governo Lula para manter cooperação com países vizinhos em meio à crescente influência de Trump na região

A América do Sul atravessa um momento de mudança na distribuição de forças . De um lado, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta manter uma agenda de integração baseada em diálogo entre vizinhos , infraestrutura e cooperação, sem alinhamento automático a grandes potências.
De outro, governos da região aprofundam relações de segurança e comércio com os Estados Unidos de Donald Trump.
A divisão ficou mais evidente nesta semana, quando 14 países latinos que integram o chamado Escudo das Américas aderiram a uma declaração conjunta para combater 24 organizações classificadas pelos Estados Unidos como “narcoterroristas”.

A lista inclui o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), facções brasileiras designadas como organizações terroristas estrangeiras pelo governo norte-americano.
O movimento ocorre em paralelo a uma ampliação da presença de Washington na América do Sul, com novos recursos para parceiros regionais, maior cooperação militar e de inteligência e esforços para aproximar governos que compartilham a agenda de segurança defendida por Trump.
Para Brasília, o desafio é manter canais de diálogo com países que, mesmo sob governos ideologicamente diferentes do brasileiro, continuam sendo fundamentais para os interesses estratégicos de ambas as partes.

A Argentina de Javier Milei é um dos exemplos mais claros de aproximação política com o republicano.
O argentino mantém uma relação estreita com o republicano e defende maior abertura econômica e aproximação com os Estados Unidos . Buenos Aires também discute uma flexibilização das regras do Mercosul para permitir negociações comerciais individuais, posição que entra em tensão com a defesa brasileira da atuação conjunta do bloco.
A divergência não é apenas econômica. Milei e Lula protagonizaram episódios de forte atrito político desde o início do governo argentino, mas a relação entre os dois países não foi interrompida.

O Metrópoles apurou com fontes do Planalto que Brasília acompanha a aproximação dos governos vizinhos com Washington, mas não considera que a mudança de orientação política desses países determine automaticamente um afastamento do Brasil.
A avaliação é que Lula procura manter abertas as relações com governos de diferentes correntes ideológicas e concentrar a cooperação em temas concretos, como infraestrutura, segurança pública, energia e segurança de fronteiras.
A ideia, segundo essa avaliação, é não transformar a disputa de influência entre Brasil e Estados Unidos em uma disputa ideológica pela América do Sul.

A aproximação de governos vizinhos com os Estados Unidos avançou na área de segurança com o Escudo das Américas, liderado por Washington e integrado por 19 países. Brasil e México estão fora.
Após pedido de Trump, 14 integrantes anunciaram uma ação conjunta contra 24 organizações, incluindo PCC e CV. Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai e Peru estão entre os sul-americanos participantes.
Lula defende cooperação internacional contra o crime organizado, mas rejeita presença militar estrangeira no Brasil. A movimentação ocorre em meio à ampliação da atuação dos EUA na região, com US$ 52 milhões redirecionados para Colômbia, Equador, Peru e Panamá e previsão de envio de drones ao Comando Sul.

Para o professor Maurício Fronzaglia, da Universidade Mackenzie, o movimento também está ligado à disputa entre EUA e China. Segundo ele, Washington busca recuperar espaço na região, enquanto Pequim ampliou sua presença comercial.
Nas últimas décadas, a China se consolidou como um dos principais parceiros comerciais de países sul-americanos, incluindo Brasil e Argentina. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos procuram ampliar sua presença em setores considerados estratégicos no Hemisfério Ocidental.
Na avaliação palaciana ouvida pelo Metrópoles , o combate ao crime organizado é apenas uma das dimensões da estratégia americana para a região. A fonte também cita interesses relacionados à China, energia e minerais críticos.
Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/mundo/vizinhos-brasil-trump-plano-regional-lula.

Victor Santos/Arte Metrópoles — Foto: Metrópoles
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