Vitória de Lula está condicionada a tirar luta política da guerra cultural
Esta eleição foi movida pelo tipo de conflito definido pela bibliografia como "guerra cultural". Disputas estruturadas em torno de valores morais e identidades nichadas, nas quais a luta política é deslocada da esfera econômica para a esfera cultural e normativa. Leia mais (10/07/2026 - 13h00)

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Doutor em história social pela UFRJ, com pós-doutorado na Universidade Complutense de Madrid. Professor do departamento de história e do programa de pós-graduação em história da Universidade Federal da Bahia
Esta eleição foi movida pelo tipo de conflito definido pela bibliografia como "guerra cultural". Disputas estruturadas em torno de valores morais e identidades nichadas, nas quais a luta política é deslocada da esfera econômica para a esfera cultural e normativa.
Assim, temas como segurança pública, economia e relações internacionais perderam espaço para a identidade de gênero , as relações étnico-raciais, a religiosidade e a jornada moral pelo saneamento do sistema político.

É essa força que explica o retumbante sucesso de boa parte dos campeões de votos nas eleições legislativas, à direita e à esquerda. De Lucas Pavanato e Índia Armelau a Renata Souza e Dani Balbi, de Julia Zanatta e Pastor Sargento Isidório a Sâmia Bomfim , até os estelares Nikolas Ferreira e Erika Hilton: entre os mais votados nas assembleias e na Câmara, destacam-se os que mobilizam afetos identitários e prometem representação baseada no compartilhamento da mesma condição de existência. A política institucional vira um jogo de espelhos, no qual iguais votam em iguais e a alteridade é negada. Nada melhor para um identitário de direita do que um identitário de esquerda, e vice-versa. A dança é coreografada, na eleição e no mandato, como mostram Nikolas e Erika. Adversários complementares, feitos um para o outro.
A mesma dinâmica ajuda a entender a acachapante vitória do PL na disputa pelo Senado. O ex-presidente Jair Bolsonaro foi capaz de criar um movimento cujos adeptos não são movidos pela lógica do interesse —ou seja, não esperam ser compensados por serviços de bem-estar. A adesão é ideológica, e não pragmática. Estão convencidos de que fazem parte de uma jornada redentora contra a República de 1988, a qual entendem como um sistema político estruturalmente corrompido e corruptor.
Nessa jornada, o principal antagonista não é o PT , mas sim o STF (Supremo Tribunal Federal), justamente quem frustrou a revolução bolsonarista entre 2019 e 2022. Nesse sentido, as denúncias envolvendo Alexandre de Moraes serviram como evidência empírica da superioridade moral desse projeto de ruptura.

Essa arquitetura ideológica é suficiente para manter a lealdade de pelo menos 35% do eleitorado, a despeito de qualquer coisa. Flávio Bolsonaro pode trocar áudios carinhosos com Daniel Vorcaro; poderia até mesmo matar alguém com as próprias mãos na avenida Paulista, diante das câmeras. Não perderia sequer um voto.
Lula não conseguiu se descolar do STF, o que era, de fato, algo muito difícil de ser feito. Diante do desmonte da Presidência da República durante os últimos anos, restou ao governo a coalizão com o próprio STF, na tentativa de equilibrar a correlação de forças com um Congresso Nacional superempoderado. Na imaginação política bolsonarista, portanto, o PT e o STF são cúmplices na manutenção do sistema que precisa ser derrubado.
A insatisfação com a segurança pública, com o endividamento das famílias e a percepção da economia trouxeram o restante dos votos que quase decretaram a vitória de Flávio ainda no primeiro turno.

Cabe agora a Lula deslocar o eixo da disputa, da guerra cultural para o plano dos interesses práticos, onde o bolsonarismo tem pouco a dizer. Se há alguma chance de virada, está nesse movimento. Seria um milagre. Haja padroeira para abençoar. Aliás, Nossa Senhora Aparecida não ajudou no primeiro turno, exatamente porque a guerra cultural é território bolsonarista.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/vitoria-de-lula-esta-condicionada-a-tirar-luta-politica-da-guerra-cultural.shtml.

Lula durante reunião com parlamentares e dirigentes da coligação de sua campanha - Pedro Ladeira - 5.out.26/Folhapress · Pedro Ladeira - 5.out.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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