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    Vitória da extrema direita na Alemanha confronta a Europa com os seus fantasmas

    Às vezes custa a crer que as pessoas não votem por ideias, daí que procuremos sempre os atalhos das

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    9 de setembro de 2026 às 03:00
    Vitória da extrema direita na Alemanha confronta a Europa com os seus fantasmas
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    Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de 'Agora, Agora e Mais Agora'

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    Ulrich Siegmund, líder da AfD no estado de Saxônia-Anhalt, onde o partido foi o mais votado em eleição estadual - John MacDougall - 6.set.26/AFP · John MacDougall - 6.set.26/AFP
    Ulrich Siegmund, líder da AfD no estado de Saxônia-Anhalt, onde o partido foi o mais votado em eleição estadual - John MacDougall - 6.set.26/AFP · John MacDougall - 6.set.26/AFP — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Como habitual de cada vez que um partido de extrema direita tem uma vitória retumbante, como aconteceu agora no estado alemão da Saxônia-Anhalt , os comentadores dividem-se em dois campos: um que dá prioridade às questões socioeconômicas, como desemprego, inflação e desigualdade; e outro que tende a explicar os fatos por causas culturais, como a imigração e a xenofobia . Em ambos os casos, o foco está em acontecimentos relativamente recentes, da última década ou pouco mais, que deveriam ter capacidade explicativa para fenômenos também eles recentes.

    Vale a pena porém pensar no seguinte: neste mesmo estado alemão, há quase cem anos, o partido nazista teve resultados que são praticamente idênticos, com uma diferença mínima na casa dos décimos, aos que a AfD (Alternativa para a Alemanha , de extrema direita) teve nestas últimas eleições . A verdade é que historicamente a Saxônia-Anhalt foi sempre um estado muito à direita. Na era comunista isso ficou disfarçado, mas desde a reunificação alemã o partido mais à direita ganhou sempre as eleições. Só que em tempos esse partido mais à direita era a CDU (União Democrata-Cristã, de centro-direita conservador) e agora existe uma oferta mais à direita ainda.

    Nessa dimensão histórica, convém lembrar que não há necessariamente contradição entre o período nazista e o período comunista. A AfD tem muita gente oriunda de movimentos neo-nazistas, mas também tem eleitos oriundos das fileiras da Stasi, a polícia política da Alemanha Oriental. Um dos deputados eleitos agora foi mesmo oficial da Stasi durante doze anos do período comunista. O que esses elementos trazem consigo (além de um historial de contatos com Putin, que enquanto elemento do KGB esteve estacionado na Alemanha Oriental ) é uma capacidade de organização administrativa, de "governar", que vem de terem feito parte do aparato do partido único durante o período comunista.

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    Voltando atrás, o que fazer das causas socioeconômicas ou culturais como alternativas de explicação para o que se passou neste estado? Em meu entender, nem umas nem outras nos levam muito longe. A Saxônia-Anhalt é um dos estados alemães com menos imigrantes; os estados que têm mais imigrantes votam mais à esquerda. Isso não quer dizer que o tema não possa ter prevalência política, pelo contrário: é mais fácil demonizar quem não se vê. Mas significa que não é diminuir a imigração ali que fará dos eleitores menos tendentes a votar na extrema direita. Também as condições socioeconômicas são hoje bem melhores do que foram no passado; e na medida em que são difíceis para a juventude, bem mais difíceis são noutros estados em que o voto não é extremista.

    Às vezes custa a crer que as pessoas não votem por ideias, daí que procuremos sempre os atalhos das "causas". Mas a verdade é que o eleitor autoritário existe, e o eleitor ultraconservador também. A questão é se existe oferta eleitoral para ele. A questão é também, para os partidos progressistas, se é possível mudar de assunto e falar para os mesmos eleitores.

    À medida que se aproximam outras eleições decisivas na Europa , a começar pela França , é bom que os democratas descubram o caminho rápido .

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rui-tavares/2026/09/vitoria-da-extrema-direita-na-alemanha-confronta-a-europa-com-os-seus-fantasmas.shtml.

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    Ulrich Siegmund, líder da AfD no estado de Saxônia-Anhalt, onde o partido foi o mais votado em eleição estadual - John MacDougall - 6.set.26/AFP · John MacDougall - 6.set.26/AFP — Foto: UOL

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