Vietnã quer vender menos commodity e mais café processado
Segundo maior produtor mundial de café busca ampliar participação de solúveis e torrados nas exportações; país projeta receita próxima de US$ 9 bilhões em 2026

O Vietnã quer avançar para além da posição de grande fornecedor mundial de café robusta e aumentar a participação de produtos de maior valor agregado em suas exportações. A estratégia passa por investimentos em processamento, especialmente em café solúvel e torrado, enquanto o país busca aproveitar o crescimento do consumo na Ásia e ampliar sua competitividade no mercado europeu.
Em matéria publicada pelo Viet Nam News , a indústria cafeeira vietnamita aponta o processamento como uma das principais ferramentas para sustentar as receitas externas em um momento de recuperação da oferta mundial e pressão sobre as cotações do grão.
A expectativa é que as exportações de café do país alcancem cerca de US$ 9 bilhões em 2026 , próximas do recorde de US$ 8,92 bilhões registrado no ano passado.

A mudança de estratégia fica evidente na composição das vendas externas. Atualmente, 91,7% do volume exportado pelo Vietnã ainda é formado por café verde , enquanto solúveis e outros produtos processados representam apenas 8,3%.
Em receita, porém, a participação dos processados praticamente dobra: eles respondem por cerca de 17% do faturamento das exportações de café , segundo os dados apresentados pelo Viet Nam News.
O movimento mostra o potencial de agregação de valor para o segundo maior produtor mundial de café e maior fornecedor de robusta. A indústria local vem direcionando investimentos para produtos como café instantâneo, torrado e blends.

A China aparece como um dos mercados estratégicos para essa expansão. O avanço do consumo, principalmente entre os mais jovens, tem aumentado a procura por café torrado e solúvel. Segundo a publicação vietnamita, algumas empresas já têm pedidos de exportação para o mercado chinês contratados até dezembro, enquanto outras operam próximas do limite da capacidade produtiva.
O esforço para agregar valor ocorre em um momento de aumento da disponibilidade de café. A Associação de Café e Cacau do Vietnã, a Vicofa, estima que a produção vietnamita possa crescer entre 8% e 10% neste ano .
No primeiro semestre, o país exportou 1,05 milhão de toneladas de café , crescimento de 7,4% na comparação anual. A receita, entretanto, recuou 13,8%, para US$ 4,81 bilhões , em meio à queda dos preços internacionais.

A associação avalia que os preços elevados registrados nos últimos anos estimularam produtores de diferentes países a investir nas lavouras, favorecendo uma recuperação da oferta.
A estimativa apresentada pela entidade é de uma produção mundial de aproximadamente 189 milhões de sacas na temporada 2026/27 , diante de um consumo estimado em 179 milhões de sacas.
Esse cenário reforça justamente a estratégia vietnamita de reduzir a dependência da exportação do grão como commodity e capturar uma parcela maior do valor gerado nas etapas seguintes da cadeia.

Além do processamento, o Vietnã vê na adequação às novas exigências ambientais uma oportunidade para fortalecer sua posição no mercado europeu.
A Europa responde por cerca de 55% do volume das exportações vietnamitas de café , enquanto somente os 27 países da União Europeia representam mais de 45%.
O país foi classificado pela União Europeia como de baixo risco no âmbito do Regulamento Europeu contra o Desmatamento , o EUDR, o que pode simplificar procedimentos de diligência para importadores.

Segundo a Vicofa, compradores já estariam pagando um prêmio próximo de US$ 50 por tonelada pelo café vietnamita em conformidade com as exigências europeias em relação ao produto convencional.
O desafio ainda é ampliar a rastreabilidade. Atualmente, apenas 35% a 40% das áreas cafeeiras do país atenderiam integralmente às exigências de rastreamento previstas pelo regulamento , segundo a associação.
O clima, no entanto, permanece como uma variável capaz de alterar as perspectivas para a próxima temporada.

A Vicofa alerta para os possíveis efeitos do El Niño no fim de 2026 e em 2027 , especialmente sobre a florada e o desenvolvimento das lavouras. Além do próprio Vietnã, outros importantes produtores asiáticos, como Indonésia e Índia, e o Brasil podem ser afetados.
Com a perspectiva de maior produção, preços internacionais menos favoráveis e riscos climáticos no horizonte, a indústria vietnamita tenta, portanto, avançar em outra frente: transformar mais café dentro do próprio país antes de exportá-lo e depender menos da venda de robusta verde ao mercado internacional .
https://stories.cnnbrasil.com.br/?post_type=web-story&p=626307

Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/agro/vietna-quer-vender-menos-commodity-e-mais-cafe-processado/.

Expectativa é que as exportações de café do país alcancem cerca de US$ 9 bilhões em 2026 • Pexels · • Pexels — Foto: CNN Brasil
Compartilhe
Espalhe essa notícia

