Viatura virava escolta de muamba após “acerto” com policiais, diz Gaeco
Investigação aponta apreensões parciais, cobrança de propina e escolta da própria Polícia Civil para proteger mercadorias de descaminho

Primeiro, a viatura servia para parar o caminhão. Depois da negociação e do pagamento da propina, podia assumir função oposta, ou seja, proteger a carga de uma nova abordagem policial.
É assim que documentos do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado ( Gaeco ) descrevem o funcionamento de um esquema atribuído a policiais civis de São Paulo .
Segundo a investigação, cujos relatório foi obtido pela coluna, agentes interceptavam caminhões carregados com eletrônicos de descaminho, exigiam valores para liberar as mercadorias e, em um dos episódios, chegaram a escoltar a carga depois do chamado “acerto”. 12 imagens Fechar modal. 1 de 12 Viatura escolta carga em rodovia de SP

Carro a Polícia Civil durante escolta de carga de descaminho
Parte da propina era paga em dinheiro vivo
Prefeito exonerou então secretário-adjunto de Segurança Urbana

Em rede social, policial incluiu cargo assumido no litoral
Em mensagem, advogado fala sobre pagamento de "acerto" com policiais
Investigador José Adriano Pereira da Silva Nishi

Policial civil foi preso em ação conjunta do Gaeco e Corregedoria da instituição
O Gaeco identificou ao menos quatro ocorrências entre junho e dezembro de 2024. O padrão de cobrança seria de 70% do valor estimado da carga. Somadas, as vantagens indevidas investigadas chegam a R$ 2,35 milhões.
Segundo os promotores, os policiais tinham informações prévias sobre caminhões e realizavam campanas até interceptá-los. A investigação encontrou inclusive registros de viaturas em uso por agentes nos períodos em que ocorreram as negociações.

Depois vinha o “acerto”. Parte da mercadoria podia ser formalmente apreendida para dar aparência de legalidade à ocorrência, enquanto o restante era restituído.
Em junho de 2024, por exemplo, o Gaeco afirma que a carga devolvida era muito maior do que aquela registrada oficialmente pela Polícia Civil.
O episódio mais emblemático ocorreu após uma apreensão em Barueri, região metropolitana de São Paulo, em agosto de 2024.

A carga foi avaliada em cerca de US$ 191 mil (R$ 1,04 milhão na cotação da época) e o “acerto” teria sido fechado em R$ 700 mil. Parte foi transferida para contas bancárias e o restante pago em espécie.
Na manhã de 1º de setembro, o advogado Sidiclei da Costa Almeida, apontado como intermediário da negociação, avisou que faria o “resgate” da mercadoria. Já na Rodovia Castello Branco, ele relatou estar sob escolta da Polícia Civil e demonstrou preocupação com uma eventual abordagem da Polícia Rodoviária Federal ( PRF ).
Para o Gaeco, a propina não garantiu apenas a devolução da carga. Garantiu também que os eletrônicos seguissem viagem “sob escolta da própria Polícia Civil”, evitando uma nova fiscalização. A Justiça também registra que Sidiclei acompanhou a restituição da carga sob escolta de viatura.

A investigação resultou na operação deflagrada, sexta-feira (28/8), pelo Gaeco e com apoio da Corregedoria da Polícia Civil.
Foram presos os policiais civis Bruno Moreno dos Santos, José Adriano Pereira da Silva Nishi e Marcos Vinicius de Souza Melo, além do advogado Sidiclei da Costa Almeida e do empresário Jonathan Renan Vieira. A Justiça havia decretado a prisão preventiva dos investigados por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
O policial civil Vagner Ramalho e o empresário Thiago Marcel Magnabosco, também alvos da operação, seguiam foragidos até a publicação desta reportagem.

Segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), Thiago é apontado como líder do grupo responsável pela introdução clandestina de eletrônicos e pelo pagamento das vantagens indevidas aos agentes públicos. Vagner, por sua vez, aparece ligado a episódios de apreensão e liberação de cargas investigados pelo Gaeco.

Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/colunas/alfredo-henrique/viatura-virava-escolta-de-muamba-apos-acerto-com-policiais-diz-gaeco.

Reprodução/MPSP — Foto: Metrópoles
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