Viagens de casamento impulsionam turismo em destinos paradisíacos
Os pés na areia, um pôr do sol alaranjado e aquela sensação de que o tempo passa mais devagar. Nos últimos anos, um número crescente de casais brasileiros passou a transformar esse cenário de férias também em altar. Leia mais (08/12/2026 - 23h00)

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Casamento na capela dos Milagres, em São Miguel dos Milagres - Gabriel Ribeiro / Acervo pessoal

Os pés na areia, um pôr do sol alaranjado e aquela sensação de que o tempo passa mais devagar. Nos últimos anos, um número crescente de casais brasileiros passou a transformar esse cenário de férias também em altar.
Em lugares como São Miguel dos Milagres , em Alagoas , casamentos se tornaram um importante motor do turismo local, transformando um antigo vilarejo de pescadores em um dos principais destinos brasileiros para a realização das cerimônias. Estimativas de empreendedores locais dão conta de que a região recebe entre 60 e 70 cerimônias por ano atualmente.
Em muitos casos, os convidados chegam dois ou três dias antes e prolongam a estadia depois da festa. Hotéis menores operam lotados durante os eventos; restaurantes recebem grupos fechados; fornecedores de decoração, fotografia, música e gastronomia circulam com frequência cada vez maior pela chamada Rota Ecológica dos Milagres .

"Os convidados fazem passeios e ficam o fim de semana inteiro circulando", diz Mamá Omena, da Mamá Eventos, empresa especializada em cerimoniais com atuação na região. Segundo a organizadora, muitos visitantes acabam conhecendo São Miguel dos Milagres por causa dos eventos e então resolvem se casar por lá.
Foi o caso da arquiteta Maria Vitória Romeiro, 27, e do empresário Lucas Romeiro, 30, de Niterói. Eles se casaram em Milagres após uma viagem de Réveillon feita logo depois da pandemia. Segundo ela, a decisão fez sentido para familiares e amigos, que embarcaram na ideia de celebrar longe de casa. A experiência foi tão marcante que o casal já cogita voltar para comemorar as bodas no município.
"A cidade passou a fazer parte da nossa história. Voltaríamos sem pensar duas vezes", diz. Os casamentos em Milagres ganharam força sobretudo após a pandemia, que deu mais sentido à realização de cerimônias enxutas . Em vez de grandes centros urbanos ou de salões fechados, muitos casais passaram a buscar praias menos movimentadas, hospedagens menores e experiências um pouco mais íntimas. Parte do apelo de Milagres está justamente na ausência de grandes avenidas à beira-mar, hotéis gigantescos ou de vida noturna intensa.

Para Mariana Cerone, professora de consumo de luxo da Escola Superior de Propaganda e Marketing, isso ajuda a explicar por que lugares relativamente isolados ganharam tanta força entre consumidores de alta renda . Segundo ela, experiências passaram a funcionar como marcadores sociais. Em vez da ostentação explícita, ganha valor a sensação de exclusividade de praias vazias, poucos quartos, silêncio, privacidade e atendimento altamente personalizado.
"Ao se casar, você está dizendo quem você é, quais lugares frequenta e que tipo de vivência consegue proporcionar", diz.
A estética desses eventos acompanha essa mudança. Sai de cena parte da exuberância visual que durante anos dominou o mercado de festas de luxo e entram elementos ligados à ideia de naturalidade, simplicidade e integração com a paisagem. "Mas é uma simplicidade do jeito que o rico gosta", afirma Cerone. "É um simples altamente produzido."

Além de movimentar uma extensa cadeia de serviços locais, o turismo de casamentos impulsionou o mercado imobiliário , que tenta fisgar parte desse público que vai a uma cerimônia, se encanta pelo local e quer mais. Mais recentemente, pousadas menores, hotéis de charme e empreendimentos voltados a segundas residências se multiplicaram pela região.
"Quem decide casar em Milagres pode casar em qualquer lugar do mundo", diz Maurício Vasconcelos, sócio da incorporadora Taipa Inc., que está construindo o Bossa Eco Luxury Villas, pensado para o público interessado em permanecer períodos mais longos, em vez de apenas viagens de final de semana. A frase resume como o destino passou a disputar o público acostumado a viagens internacionais e a experiências personalizadas. Que o diga a presença frequente de celebridades, como Bruna Marquezine e Sasha Meneghel.
O fenômeno não se restringe ao litoral norte alagoano. Em Barra de São Miguel, no litoral sul do estado , o Kenoa Exclusive Beach Spa & Resort tem apenas 23 acomodações à beira-mar, o que acabou aproximando o hotel do mercado de casamentos mais intimistas, focado em celebrações de pequeno porte. Segundo Emanuel Pereira, coordenador comercial do Kenoa, ultimamente os casamentos passaram a ocupar espaço importante dentro do hotel.

"É um público que não quer apenas o luxo pelo luxo", afirma. "Existe uma busca forte por autenticidade, exclusividade e conexão com o lugar."
A uma hora e meia de Fortaleza, no Ceará , o Saline Boutique Hotel ainda atende a todos os públicos, mas também se especializou em receber pequenos casamentos. São pelo menos 12 cerimônias por ano, cerca de uma por mês, o que faz das celebrações um importante filão para o hotel —quem quiser o buyout, isto é, fechar o local para os seus convidados, deve fazê-lo com pelo menos oito meses de antecedência.
Já na Bahia, outro lugar que guarda uma igrejinha histórica com vista para o mar é o Cerimonial Loreto, na ilha dos Frades , a minutos de barco de Salvador . Apenas o aluguel do espaço varia de R$ 40 mil a R$ 95 mil, mas dependendo do número de convidados e dos serviços contratados (é possível incluir hospedagem em um casarão colonial anexo à capela, por exemplo), o orçamento final da festa pode chegar à casa dos milhões. Ainda assim, a fila de espera para se casar ali passa de um ano.

Embora a imagem vendida por destinos desse tipo esteja associada à simplicidade e ao contato com a natureza, o funcionamento desse mercado exige uma operação complexa. Casamentos em praias afastadas dependem de transporte de equipamentos, montagem de estruturas, logística de fornecedores e equipes numerosas trabalhando durante dias.
O crescimento acelerado também começa a levantar discussões sobre infraestrutura e preservação ambiental. Inserida na APA Costa dos Corais, a região de Milagres convive hoje com expansão imobiliária , aumento da circulação de veículos e pressão crescente sobre serviços urbanos .
Para Renato Lôbo, professor do Ifal (Instituto Federal de Alagoas), o avanço do turismo de alto padrão em regiões como Milagres provoca mudanças profundas na ocupação do litoral. Segundo o pesquisador, o fenômeno impulsiona disputas imobiliárias e pressiona territórios antes pouco explorados economicamente.

"O turismo chega trazendo uma promessa de desenvolvimento, mas também reorganiza o território e cria novas disputas pelo uso do espaço", diz. Além disso, o principal risco, ele afirma, é que o litoral norte alagoano repita problemas já observados em outros destinos brasileiros marcados pela expansão acelerada do turismo.
Segundo Lôbo, o setor pode gerar renda e dinamizar economias locais, mas precisa crescer acompanhado de infraestrutura, políticas públicas e ordenamento territorial.
"Quando você começa a pressionar demais a infraestrutura, aumentar muito a circulação e acelerar ocupações sem planejamento, isso pode descaracterizar aquela localidade", diz. "Se não houver planejamento, o destino corre o risco de perder justamente aquilo que hoje faz as pessoas quererem ir para lá ."

O jornalista viajou a convite da Taipa Inc. e do Kenoa
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/turismo/2026/08/viagens-de-casamento-impulsionam-turismo-em-destinos-paradisiacos.shtml.

Casamento na capela dos Milagres, em São Miguel dos Milagres - Gabriel Ribeiro / Acervo pessoal · Gabriel Ribeiro / — Foto: Folha de S.Paulo
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