Brasil

    Veto no Brasil distorce projeções eleitorais de Kalshi e Polymarket, dizem empresas

    As plataformas de mercado de previsão, como Kalshi e Polymarket, apesar de proibidas no Brasil, ainda oferecem projeções sobre as eleições brasileiras. Esses dados circulam na imprensa e entre analistas econômicos, embora as próprias empresas reconheçam que o bloqueio no país prejudica seus resultados. Leia mais (10/04/2026 - 08h00)

    Folha de S.Paulo
    4 de outubro de 2026 às 11:00
    Veto no Brasil distorce projeções eleitorais de Kalshi e Polymarket, dizem empresas
    Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    São Paulo As plataformas de mercado de previsão, como Kalshi e Polymarket, apesar de proibidas no Brasil, ainda oferecem projeções sobre as eleições brasileiras. Esses dados circulam na imprensa e entre analistas econômicos, embora as próprias empresas reconheçam que o bloqueio no país prejudica seus resultados.

    Montagem com logo da Polymarket e imagens da página inicial da plataforma em um celular e em um computador - Martin Lelievre/AFP · Martin Lelievre/AFP
    Montagem com logo da Polymarket e imagens da página inicial da plataforma em um celular e em um computador - Martin Lelievre/AFP · Martin Lelievre/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Esses sites oferecem apostas sobre eleições, eventos, jogos, reality shows e celebridades. O governo as proibiu em abril, ainda antes de derrubar o mercado regular de bets em setembro, por entender que elas ofereciam prognósticos esportivos sem respeitar as regras impostas às casas de apostas.

    Kalshi e Polymarket, no entanto, dizem que seu principal produto é a projeção estatística sobre o que vai aconter no futuro, e a piora das projeções brasileiras é um dos argumentos que as companhias usam para tentar voltar a atuar no país, segundo porta-vozes ouvidos pela reportagem.

    Diferentemente de um levantamento amostral, como uma pesquisa eleitoral tradicional, que faz as mesmas perguntas para um grupo com uma distribuição de pessoas similar à da população inteira, os mercados de previsão agrupam os palpites nos quais as pessoas apostam dinheiro.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A ideia é que a disposição para pagar valida o posicionamento, disse a brasileira Luana Lopes Lara, cofundadora da Kalshi, durante evento em Sunnyvale, na Califórnia , acompanhado pela reportagem em abril.

    Embora não dependam de uma amostragem, os mercados de previsão pressupõem alta liquidez —isto é, participantes suficientes para comprar e vender contratos sobre a vitória de cada candidato. A proibição no Brasil gera uma falha de mercado porque restringe a participação de pessoas interessadas.

    O volume apostado nas eleições brasileiras na Kalshi e na Polymarket representa apenas 4,5% do volume apostado na disputa entre Donald Trump e Kamala Harris nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2024, quando essas plataformas eram menos populares mundo afora.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No caso da Polymarket, onde cada movimentação fica gravada em um blockchain, como nas operações com bitcoins, a média de transações diárias sobre o futuro das eleições brasileiras caiu 89,6% após a proibição dos mercados de previsão no Brasil (considerando as 73.568 operações neste ano). A Kalshi não divulga os dados de quantas pessoas estão em cada seção.

    A maior aposta eleitoral ativa na Polymarket é a favor da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O usuário "unknwnfnd" colocou US$ 1,01 milhão (R$ 5,26 milhões) na vitória do petista, quando as chances de ele vencer estavam estimadas em 48%.

    Como as chances de vitória do incumbente para a Polymarket caíram para 41% neste sábado (3), essa pessoa perderia US$ 67 mil (R$ 349,1 mil) caso vendesse seus contratos. Flávio Bolsonaro (PL) aparece à frente, com 59% de chance de êxito.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Neste sábado, o presidenciável do Missão, Renan Santos , que aparece na última rodada do Datafolha com 3% de intenção de voto, tem 17 apostas de mais de US$ 100 mil, número superior ao de Lula (com 8) e ao de Flávio Bolsonaro (com 7).

    O número de grandes apostas, porém, não corresponde à probabilidade atribuída a cada candidato. Nos mercados de previsão, a chance é determinada pelo preço dos contratos, que varia conforme a oferta e a demanda.

    O método dos mercados de previsão no contexto eleitoral é alvo de críticas de cientistas políticos e estatísticos, devido à falta de material científico independente para validar essas projeções.

    Kalshi e Polymarket, por outro lado, afirmam que foram as plataformas que acertaram a vitória de Trump nas eleições de 2024.

    Apesar dos problemas de liquidez devido a restrições em 53 países, incluindo o Brasil, Luana, da Kalshi, disse em entrevista à Folha que os mercados preditivos são uma alternativa às pesquisas eleitorais. "Os dados são qualitativamente superiores", diz ela.

    "Os mercados eleitorais são os mais importantes dentro do segmento preditivo, pois é notoriamente difícil obter dados confiáveis sobre tendências de votação. As pesquisas de opinião convencionais enfrentam crises de amostragem, com baixas taxas de resposta, e muitas vezes carecem de transparência metodológica", afirma.

    O professor de métodos quantitativos do Departamento de Ciências Sociais da USP, Glauco Peres, avalia, por outro lado, que as plataformas não comprovaram em pesquisas independentes o seu poder de predição, a capacidade de prever com precisão resultados futuros a partir de dados e informações disponíveis.

    Se, por um lado, uma pesquisa publicada pelo NBER (National Bureau of Economic Research) mostrou que a ferramenta tem uma precisão similar à dos derivativos usados no mercado financeiro e pesquisas de opinião na previsão de juros, por outro, Robert Bartlett, da Universidade de Stanford, e Maureen O’Hara, da Universidade Cornell, mostram os efeitos da informação privilegiada em temas não relacionados diretamente à macroeconomia.

    Em uma análise dos eventos ligados a empresas ou pessoas específicas (como menções em teleconferências da Netflix ou presença de celebridades no Super Bowl), os pesquisadores perceberam que os formadores dos mercados tendem a lucrar mais do que o restante dos investidores, um indício de insider trading, e que há um viés na compra de contratos positivos —ou seja, nas apostas de que algo irá acontecer, em detrimento das negativas.

    No caso das pesquisas eleitorais, o levantamento por amostragem é referência em diversos campos do conhecimento.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://c-level.folha.uol.com.br/negocios/2026/10/veto-no-brasil-distorce-projecoes-eleitorais-de-kalshi-e-polymarket-dizem-empresas.shtml.

    Imagem 1
    1 / 4

    Montagem com logo da Polymarket e imagens da página inicial da plataforma em um celular e em um computador - Martin Lelievre/AFP · Martin Lelievre/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)