Verdades indecentes
No admirável mundo dos aplicativos já não se fala "bom dia". Motoristas, entregadores, interlocutores de diversos serviços, motivados por alguma ferramenta de aperfeiçoamento do empreendedorismo, despedem-se dos clientes com saudações calorosas, desproporcionais, otimistas: "ótimo dia", "excelente dia". Leia mais (08/14/2026 - 19h55)

Advogado criminal, é autor de "Newton" e "Nada mais foi dito nem perguntado"
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No admirável mundo dos aplicativos já não se fala "bom dia". Motoristas, entregadores, interlocutores de diversos serviços, motivados por alguma ferramenta de aperfeiçoamento do empreendedorismo, despedem-se dos clientes com saudações calorosas, desproporcionais, otimistas: "ótimo dia", "excelente dia".
A escalada dos cumprimentos pode prosseguir ("maravilhoso dia", "magnífico dia", "esfuziante dia"), não desperta atenção política, não disfarça os rancores sociais, mas é um cacoete verbal dos novos tempos –tempos de mentiras descaradas, verdades indecentes, vilanias e frustração.
Trump avisa que o domínio das Américas nunca mais será questionado . A sinceridade do anúncio impressiona –é o imperialismo sem sutilezas ou disfarces. Trump invadiu a Venezuela , pegou o petróleo, e ameaça a Groenlândia, Cuba , Canadá, Panamá, México e Brasil.

A movimentação diplomática dos EUA a favor do golpe de 64, em busca de "dias melhores", livres do perigo comunista, era mais discreta. A intromissão de Trump na eleição brasileira é transparente, previsível, declaratória: não há pudor, a conspiração não é protegida por segredos de Estado. Paira nas redes sociais como ideal e conta com apoio entusiasmado ou sem alarde de candidatos e autoridades brasileiras.
Marco Rubio costura a formação de um grupo minimamente coeso e submisso de governantes latinos, empenhado em destruir inimigos comuns e pensamentos divergentes.
O golpista preso é um mártir. Javier Milei , avesso ao decoro institucional, tira Flávio para dançar. Se for para esmagar o que Lula e o PT representam, o bolsonarismo trama abertamente contra os interesses do Brasil. O propósito não é o regime da convivência democrática e alternância de poder, é exterminar o oponente, higienizar a política, reconstruir valores supostamente destroçados pela inteligência marxista.
Verdades e mentiras, misoginia e promessas de violência ou perseguição proporcionam para metade do país uma sensação de alívio e otimismo. "Dias melhores" virão com o extermínio dos outros, "excelentes dias".
A abordagem silenciosa, sorridente e intimidatória da viatura da PM ao carro do candidato Fernando Haddad , depois de críticas à política de segurança pública do governador de São Paulo, que veste o boné de Trump, é absorvida como simples coincidência.
O presidente do TSE que comanda as eleições de outubro, um dos ministros que Bolsonaro chama de seus, acena simpaticamente para a candidatura de Flávio –sugerem seus colegas de toga.
O Legislativo manipula orçamentos. A magistratura ataca os cofres públicos. Inquéritos secretos, censura, relações impróprias, falta de recato, parcialidades, policiais capangas, não falta munição para os inimigos do Supremo e da democracia.
Capitaneada pela América de Trump, a erosão civilizatória se espraia pelo continente. O fantasma da inteligência artificial interfere no equilíbrio ético das disputas políticas. Os aplicativos de apostas online são a base econômica da nova elite dirigente. O obscurantismo antivacina avança. A violência policial se naturaliza.
Pode ser que os cenários sejam sempre repetitivos, mas, como lembra a canção de Renato Russo, o futuro não é mais como era antigamente.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luisfranciscocarvalhofilho/2026/08/verdades-indecentes.shtml.

Trump dança durante evento em Nova York nesta sexta-feira (14) - Ken Cedeno/Reuters · Ken Cedeno/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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