Vem celacanto provocar maremoto
Minha carreira como pichadora durou cinco minutos. Eu tinha catorze anos, algumas frases na cabeça e um spray prateado na mão, que comprei escondido com minha mesada em uma loja de pintura. Como ainda não podia ir muito longe de onde morava, escolhi um muro da vizinhança. Tirei, sorrateiramente, o spray de dentro da jaqueta e comecei o trabalho. Leia mais (09/05/2026 - 23h00)

Escritora, roteirista e uma das idealizadoras do movimento Um Grande Dia para as Escritoras
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Minha carreira como pichadora durou cinco minutos. Eu tinha catorze anos, algumas frases na cabeça e um spray prateado na mão, que comprei escondido com minha mesada em uma loja de pintura. Como ainda não podia ir muito longe de onde morava, escolhi um muro da vizinhança. Tirei, sorrateiramente, o spray de dentro da jaqueta e comecei o trabalho.
Não tinha nem terminado a primeira palavra quando o tronco de um homem, com uma tesoura de jardinagem na mão, despontou por trás do muro. Me encarou, enfurecido e surpreso: tu não é a filha do Madalosso? Com um sorriso meio amarelo, meio prateado, puxei o tubo para dentro da jaqueta e já fui pedindo desculpas.
Claro que, depois dessa, nunca mais botei a falange em um aerossol. De qualquer forma, segui observando as frases que almas inquietas picham em muros, muretas e viadutos.

Até hoje repito uma que se via com frequência nos anos oitenta, ao lado de um A de Anarquia: tem que ter cultura pra cuspir na estrutura.
Outra que fez história, nos anos setenta, no Rio de Janeiro, foi: Celacanto provoca maremoto. O quase verso enigmático apareceu escrito em vários muros, instigando a curiosidade dos transeuntes. Uns acreditavam ser um código entre traficantes. Outros, uma comunicação com extraterrestres. Terceiros pensavam ser uma mensagem entre perseguidos pela ditadura.
Para a decepção de muitos, incluindo eu, a frase era apenas a fala de um personagem de uma série de TV japonesa, contando que o primitivo e corpulento peixe celacanto provocava maremotos —quantos minutos teria durado esse mistério se, naquela época, já tivéssemos ferramentas de busca?
Durante a pandemia, assisti a uma cena e tanto. Eu andava por São Paulo quando um carro estacionou ao meu lado. De dentro, saíram dois rapazes com camisetas cobrindo a face até a altura dos olhos. Cruzaram correndo a rua e, com sprays na mão, avançaram sobre um muro caiado, onde fizeram, em poucos minutos, um desenho lindo. Até hoje desconfio de que tive o prazer de ver osgemeos em ação.
Em São Paulo, também sinto prazer ao andar a esmo e flagrar placas onde se vê o nome da rua seguido de um adesivo: Terra Indígena. "Rua Ceará, Terra Indígena." "Rua Major Sertório, Terra Indígena." E não é verdade?
Também gostei de ver, em uma faixa de pedestres em Pinheiros, a frase: "Leia Giovana Madalosso". Como o leitor já sabe, não foi obra do meu spray. Isso faz parte de uma série que convida os transeuntes a lerem escritoras mulheres, mas não apenas. Também vi, na mesma cor e traço: "Leia Leminski" e "Leia Jards Macalé ."
Entendo quem se irrite com pichações: eu mesma tive que apagar com rolo e tinta uma bobagem que escreveram na porta da minha garagem. No entanto, nem a mais rele das pichadas, nem o mais sem graça dos lambe-lambes tira de mim a surpresa de ver essas vozes à tinta rompendo a impessoalidade da urbe para lembrar que sim, a cidade está viva. E pensa e discorda e se indigna e sonha e deseja.
Talvez a fala da série de TV japonesa não fosse só uma fala. Fosse também um lembrete de que não somos peixes pequenos. Somos celacantos com o poder de rabanar palavras, imagens e ideias que provocam reações coletivas e maremotos fortuitos.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/giovana-madalosso/2026/09/vem-celacanto-provocar-maremoto.shtml.

Obra da dupla osgemeos - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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