Brasil

    Veja como PF montou inquérito sobre campanha de influenciadores contra o BC

    Autos do caso Master mostram como mensagens registradas em cartório, depoimentos e um acordo de sigilo com multa de R$ 800 mil sustentaram a apuração sobre o "Projeto DV"

    CNN Brasil
    11 de setembro de 2026 às 14:22
    Veja como PF montou inquérito sobre campanha de influenciadores contra o BC
    Foto: CNN Brasil

    Poucas semanas depois de o BC (Banco Central) decretar a liquidação do Banco Master , em novembro de 2025, perfis com milhões de seguidores começaram a publicar críticas à atuação da autoridade monetária.

    Para a Polícia Federal, parte dessas manifestações integrava uma estratégia articulada para defender o banqueiro Daniel Vorcaro e questionar a decisão sobre o banco .

    Batizada internamente de “ Projeto DV “, em referência às iniciais de Vorcaro, a iniciativa teria envolvido a contratação de influenciadores sob acordos de confidencialidade . A proposta, segundo a PF, era trabalhar a imagem do banqueiro e disseminar questionamentos sobre a liquidação do Master.

    Imagem ilustrativa • Reprodução · • Reprodução
    Imagem ilustrativa • Reprodução · • Reprodução — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Documentos do inquérito que investiga o caso, divulgados na quinta-feira (10) após o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), retirar o sigilo dos autos , mostram como a Polícia Federal chegou aos envolvidos e reconstituiu parte da estratégia.

    A investigação reúne mensagens preservadas em cartório e depoimentos de pessoas que afirmam ter sido procuradas e recusado as propostas. A CNN Brasil teve acesso ao material.

    Para a PF, o momento em que os contatos começaram é um dos pontos centrais da investigação. Em um pedido encaminhado ao STF em fevereiro, a corporação afirma que as contratações tiveram início em dezembro, pouco depois de Vorcaro deixar a prisão pela primeira vez, no fim de novembro, por decisão do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região).

    Toffoli puxou Caso Master ao STF um dia após PF descartar pessoas com foro
    Toffoli puxou Caso Master ao STF um dia após PF descartar pessoas com foro — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Segundo os investigadores, a intenção era “atacar a reputação do Banco Central do Brasil no mesmo período em que o Tribunal de Contas da União emitia sinais de que desfaria a liquidação extrajudicial do Banco Master”.

    A suspeita ganhou repercussão no início de janeiro de 2026, quando o vereador de Erechim (RS) Rony Gabriel (PL) e a jornalista Juliana Moreira Leite disseram, nas redes sociais, que haviam sido procurados . A partir desses relatos, a PF começou a reunir informações sobre as abordagens.

    Um relatório preliminar, concluído em 12 de janeiro, compilou os relatos que haviam circulado publicamente. No dia seguinte, a área de contrainteligência da corporação fez uma varredura, classificada no documento como “parcial e não exaustiva”, e encontrou 22 perfis no Instagram que haviam publicado críticas ao Banco Central no fim de dezembro .

    Master pagaria R$ 131 mi a Barci de Moraes; escritório declarou R$ 80,2 mi
    Master pagaria R$ 131 mi a Barci de Moraes; escritório declarou R$ 80,2 mi — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Alguns tinham mais de 20 milhões de seguidores. Boa parte das publicações, segundo a PF, já havia sido apagada.

    Vorcaro pediu ajuda a diretor do Banco Central, aponta PF | LIVE CNN

    O inquérito foi instaurado em 28 de janeiro. Na portaria, a delegada responsável registrou a suspeita de que Vorcaro “teria contratado empresa de marketing para realizar propaganda negativa e/ou difamação do Banco Central perante a sociedade”.

    Caso Master: CGU cobrou de ex-diretor do BC gastos de viagem à Disney
    Caso Master: CGU cobrou de ex-diretor do BC gastos de viagem à Disney — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    De acordo com o documento, a estratégia poderia ter como objetivo “atravancar o andamento das investigações” e permitir ao empresário “influenciar as decisões em curso” no STF e no TCU (Tribunal de Contas da União) . A PF apontou ainda a possível prática do crime de embaraçar investigação envolvendo organização criminosa.

    O vereador Rony Gabriel prestou depoimento como testemunha em 12 de fevereiro. Aos investigadores, afirmou que recebeu a proposta em 20 de dezembro de 2025, por meio de um assessor. A mensagem apresentava o trabalho como um serviço de “gerenciamento de reputação e gestão de crise para um executivo grande” .

    “É um caso de repercussão nacional. Gente grande. Esquerda e centrão envolvidos” , dizia a mensagem, que posteriormente foi registrada em ata notarial.

    Master pagaria R$ 131 mi a Barci de Moraes; escritório declarou R$ 80,2 mi
    Master pagaria R$ 131 mi a Barci de Moraes; escritório declarou R$ 80,2 mi — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Mais informações seriam apresentadas apenas depois da assinatura de um acordo de confidencialidade. O documento anexado ao inquérito cita o “PROJETO DV”, restringe manifestações públicas sobre o trabalho sem autorização e estabelece multa de R$ 800 mil em caso de violação do sigilo .

    Depois da assinatura, Rony participou de uma reunião por videochamada em 29 de dezembro. Segundo o vereador, foi nesse encontro que o nome de Vorcaro foi mencionado pela primeira vez.

    Não houve definição de valores durante a conversa, mas Rony afirmou aos investigadores: “Ficou muito claro que se tratava de valores milionários”.

    Toffoli puxou Caso Master ao STF um dia após PF descartar pessoas com foro
    Toffoli puxou Caso Master ao STF um dia após PF descartar pessoas com foro — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Segundo o vereador, a orientação era transmitir a ideia de que “o Banco Central errou” e de que o TCU “deveria intervir”.

    Ao pedir exemplos do conteúdo esperado, Rony recebeu links de publicações feitas por outros perfis. Os materiais, de acordo com o relato, serviriam como referência para as manifestações.

    “Eles tinham um roteiro, mas ele poderia ser dito da forma que eu achasse melhor, cada um com seu estilo” , afirmou.

    Caso Master: CGU cobrou de ex-diretor do BC gastos de viagem à Disney
    Caso Master: CGU cobrou de ex-diretor do BC gastos de viagem à Disney — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    A proposta incluía ainda o pagamento de passagens para que o vereador viajasse a São Paulo e conversasse pessoalmente com o interessado. Rony recusou a oferta no mesmo dia.

    À PF, ele disse que decidiu tornar o episódio público alguns dias depois, ao identificar semelhanças entre a narrativa apresentada na abordagem e os questionamentos que começavam a aparecer no TCU sobre a liquidação do banco.

    Caso Master: entenda como funcionava esquema de lavagem de dinheiro | CNN NOVO DIA

    Vorcaro pediu ajuda a diretor do Banco Central, aponta PF | LIVE CNN
    Vorcaro pediu ajuda a diretor do Banco Central, aponta PF | LIVE CNN — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    A jornalista Juliana Moreira Leite também relatou ter sido procurada. Segundo ela, o contato ocorreu em 21 de dezembro, pelo Instagram, por um homem que se apresentou como representante de uma agência.

    Nos áudios, preservados em cartório, o homem menciona um cliente que precisava divulgar “várias matérias” de “âmbito político, financeiro”. A proposta previa um contrato de pelo menos três meses, com oito vídeos por mês , e também estava condicionada à assinatura de um termo de confidencialidade.

    Juliana encerrou a conversa depois de receber, como referência, um texto que questionava a liquidação do Banco Master.

    Caso Master: entenda como funcionava esquema de lavagem de dinheiro | CNN NOVO DIA
    Caso Master: entenda como funcionava esquema de lavagem de dinheiro | CNN NOVO DIA — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    “A minha opinião não está à venda” , disse a jornalista aos investigadores.

    Ela, porém, fez uma ressalva durante o depoimento: afirmou não ter como dizer que a proposta havia partido de Vorcaro , já que recusou o trabalho antes de saber quem era o cliente.

    O caso foi transformado em um inquérito próprio no STF e passou à relatoria do ministro André Mendonça. No fim de março, o magistrado prorrogou as investigações.

    A suspeita de atuação no ambiente digital também apareceu no pedido que levou à nova prisão de Vorcaro , em março. Na representação, a PF afirmou que, mesmo depois de preso, o banqueiro “seguiria utilizando o ambiente digital com a finalidade de influenciar e atacar instituições públicas”.

    Paralelamente, os investigadores tentavam ouvir o publicitário Thiago Miranda , dono da agência MiThi. A defesa pediu acesso aos autos e o adiamento do depoimento, inicialmente marcado para março.

    Em abril, a PF voltou a intimá-lo e também convocou o jornalista Léo Dias para prestar declarações. O grupo de comunicação do jornalista tinha Miranda como sócio. Os mandados não especificavam em que condição os dois seriam ouvidos, e as defesas pediram a remarcação das oitivas.

    Quando prestou depoimento, em maio, Miranda confirmou à PF que havia sido responsável pela contratação de influenciadores e que apresentou o plano a Vorcaro . Dois meses depois, ele foi alvo de busca e apreensão em uma nova fase da Operação Compliance Zero.

    Procurada anteriormente pela CNN Brasil , a defesa de Vorcaro preferiu não se manifestar sobre o inquérito.

    Em nota divulgada em julho, a defesa de Thiago Miranda afirmou que ele sempre atuou dentro da legalidade e não cometeu crimes.

    A UNLTD Brasil , empresa citada no acordo de confidencialidade, já declarou previamente não ter contrato com o Banco Master.

    A CNN Brasil tenta contato com os citados. O espaço segue aberto para manifestação.

    Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/politica/veja-como-pf-montou-inquerito-sobre-campanha-de-influenciadores-contra-o-bc/.

    Imagem 1
    1 / 9

    Imagem ilustrativa • Reprodução · • Reprodução — Foto: CNN Brasil

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)