VAR, 10, descumpre sua função desde o 1º jogo
Criado para corrigir erros claros e óbvios, árbitro de vídeo distorceu-se logo no princípio, em 12 de agosto de 2016

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Placar exibe checagem do VAR (árbitro assistente de vídeo) na partida entre Argentina e Suíça, em Kansas City (EUA), na Copa do Mundo deste ano - Albert Gea - 11.jul.2026 / Reuters
Ainda uma criança, mas parecendo estar entre nós há séculos, tamanha sua incrustação, o árbitro assistente de vídeo faz anos. Exatos 10, neste dia 12 de agosto.
Quando alguém completa mais 365 dias (ou 366, a cada quatro anos) de vida, espera ter um feliz aniversário. Se esse alguém é o VAR, não há quem possa estar mais feliz.

Polêmico, o árbitro de vídeo evoluiu gradativamente e tornou-se um personagem relevante ao extremo no futebol . Começou cheio de dúvidas e de desconfianças para, em um estalar de dedos, ser protagonista, mais que os outros envolvidos no jogo, seja o árbitro de campo (totalmente influenciável pela tecnologia), sejam os jogadores, sejam os treinadores, sejam os torcedores.
O VAR, cujo embrião surgiu no começo dos anos 2010, em um projeto da Federação Holandesa de Futebol denominado Arbitragem 2.0, entrou em cena com o intuito de evitar/corrigir "erros claros e óbvios". Constituía-se basicamente na utilização de imagens em vídeo para a checagem de jogadas.
Fifa e Ifab (o órgão que cuida das regras do esporte) encamparam a proposta, e testes começaram a ser feitos, a passos lentos, primeiramente sem que houvesse contato do árbitro de vídeo com o de campo, que seguiria (e segue) como o definidor de cada veredicto.

Então, no dia 12 de agosto de 2016, quando o mundo olhava para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro , realizou-se em Nova Jersey, nos EUA, a primeira partida em que o VAR atuou para valer. O duelo pela terceira divisão da liga norte-americana terminou com goleada do mandante, o New York RB II, por 5 a 1 sobre o Orlando City B, diante de 478 torcedores.
O VAR apresentou logo em sua estreia o seu cartão de visita, e antecipou o que se tornaria praxe no decorrer dos anos: que ele não seria claro nem interferiria somente em obviedades. Até hoje, mesmo quem acompanha futebol com afinco pergunta-se com frequência: está checando o quê? E por que demora tanto?
A primeira intervenção da história do VAR não podia ter sido diferente: confusa e polêmica. O presente repete o passado.

Naquela noite de domingo, o árbitro Ismail Elfath , 34 anos à época, assinalou uma falta de Conor Donovan, do Orlando, em Junior Flemmings, do NY RB, bem perto da linha da grande área. Pelo fone, ouviu mensagem do VAR, Allen Chapman. Foi ao monitor, voltou ao gramado, manteve a marcação da falta fora da área e expulsou Donovan.
Não se conhece a razão de Elfath ter ido rever o lance, já que o diálogo com Chapman não foi divulgado e não sabemos o que ele viu para acionar o colega de campo. Assim, infere-se que ou a checagem era relacionada a ter sido pênalti (falta dentro da área) ou ao defensor ter impedido, como "último homem", uma chance clara de gol, o que seria passível de expulsão.
Objetivo é impedir falhas claras e óbvias do árbitro de campo

Verificar se houve irregularidade na jogada
Se a verificação era sobre ser pênalti, e concluiu-se que não era, Elfath –que cresceu enormemente na carreira e na Copa do Mundo deste ano apitou a semifinal entre Argentina e Inglaterra – não poderia ter expulsado Donovan. Deveria ser respeitada a marcação original, que seria falta não suficiente para cartão vermelho.
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Resta a segunda alternativa: Donovan evitou uma oportunidade nítida de gol, e sua exclusão seria justificável.
Só que desde quando isso é um erro claro e óbvio? Se o lance fosse indiscutível, irrefutável, Elfath levaria a mão ao bolso e tiraria o vermelho na hora. A única obviedade é que era uma jogada passível de interpretação. E, se há subjetividade, o VAR tem que ficar quieto.
Não ficou e, passados dez anos, continua a falar quando não deve, e o contrário também acontece: silencia quando tem que se pronunciar. Basta ver qualquer jogo para comprovar.
Em nome da "justiça no futebol", o VAR fez-se necessário, virou imprescindível. Uma justiça duvidosa, já que não é imune a erros e a favorecimentos, espero eu (sem ter convicção), não propositais.
Merece parabéns pela sua década de vida? A maioria dirá que sim. Eu sou minoria. Meus parabéns são cheios de restrições, pois o VAR é um chato.
Do jeito que (não) funciona, prescindo dele. Aceito erros, desde que não escandalosos, em prol de um futebol com menos interferência e trâmites. Com menos revisões de centímetros. Com menos "foi gol, mas não comemore ainda". Com menos burocracia.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/blogs/o-mundo-e-uma-bola/2026/08/var-10-descumpre-sua-funcao-desde-o-1o-jogo.shtml.

Placar exibe checagem do VAR (árbitro assistente de vídeo) na partida entre Argentina e Suíça, em Kansas City (EUA), na Copa do Mundo deste ano - Albert Gea - 11.jul.2026 / Reuters · Albert Gea - 11.jul.2026 / — Foto: UOL
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