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    Vacina contra o HPV é resultado de mais de 150 anos de pesquisas

    Todos os dias no Brasil morrem 20 mulheres vítimas de câncer do colo do útero . Hoje, a doença é considerada quase 100% prevenível . Ainda assim, é o câncer que mais mata mulheres de até os 35 anos no país. Leia mais (09/21/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    22 de setembro de 2026 às 02:00
    Vacina contra o HPV é resultado de mais de 150 anos de pesquisas
    Três meninas estão uma ao lado da outra com adesivos nos braços após tomarem vacina. A foto mostra apenas a parte de cima do tronco, sem exibir os rostos delas. As três vestem regatas, de cores branca, preta e verde — Foto: Folha de S.Paulo

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    Todos os dias no Brasil morrem 20 mulheres vítimas de câncer do colo do útero . Hoje, a doença é considerada quase 100% prevenível . Ainda assim, é o câncer que mais mata mulheres de até os 35 anos no país.

    Meninas de 11 a 13 anos são vacinadas contra o HPV na Casa do Adolescente, em São Paulo, em 2014, quando o imunizante passou a ser oferecido pelo SUS - Robson Ventura - 10.mar.14/Folhapress · Robson Ventura - 10.mar.14/Folhapress
    Meninas de 11 a 13 anos são vacinadas contra o HPV na Casa do Adolescente, em São Paulo, em 2014, quando o imunizante passou a ser oferecido pelo SUS - Robson Ventura - 10.mar.14/Folhapress · Robson Ventura - 10.mar.14/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A OMS (Organização Mundial da Saúde) estabeleceu como meta eliminar a patologia como problema de saúde pública até 2100, reduzindo sua incidência para menos de 4 casos por 100 mil mulheres.

    Ainda há muitos passos a serem percorridos até lá —e que só podem ser traçados graças a uma história que começou há mais de 150 anos.

    Mulheres casadas, viúvas e prostitutas morriam mais de câncer do colo do útero do que freiras e virgens. A diferença foi registrada em 1842 pelo médico italiano Domenico Rigoni-Stern, que analisou registros de mortes em Verona, na Itália .

    Harald zur Hausen, médico alemão que recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 2008, em conferência sobre câncer na Universidade de Heidelberg, na Alemanha - Alex Grimm - 6.out.06/Reuters · Alex Grimm - 6.out.06/Reuters
    Harald zur Hausen, médico alemão que recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 2008, em conferência sobre câncer na Universidade de Heidelberg, na Alemanha - Alex Grimm - 6.out.06/Reuters · Alex Grimm - 6.out.06/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O médico não sabia explicar a diferença, mas os dados sugeriam que algum fator relacionado à vida sexual estava envolvido.

    A hipótese levaria décadas para ser investigada. Ao longo do século 20, pesquisadores acumularam evidências de uma relação entre o câncer do colo do útero e a atividade sexual. Faltava descobrir o que estava por trás dessa associação.

    Nos anos 1970, o virologista alemão Harald zur Hausen levantou a hipótese de que o HPV , ou papilomavírus humano, seria o responsável. Até então, o vírus era conhecido principalmente por causar verrugas genitais.

    Teste de DNA ajuda a adiantar diagnóstico de câncer cervical
    Teste de DNA ajuda a adiantar diagnóstico de câncer cervical — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Projeto da 11ª turma do Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha discute desafios para prevenir, detectar e tratar doenças causadas pelo vírus

    Zur Hausen propôs que determinados tipos de HPV alteram as células do colo do útero. Essas alterações, chamadas de displasias, podem formar lesões pré-cancerosas, que têm potencial de evoluir para tumor maligno.

    Ao analisar tumores, a equipe do virologista encontrou material genético do HPV em amostras de câncer do colo do útero. Os resultados ajudaram a estabelecer a relação entre o vírus e a doença —descoberta que rendeu a Zur Hausen o prêmio Nobel de Medicina em 2008.

    Enfermeira prepara aplicação da vacina nonavalente contra o HPV em Rennes, na França - Damien Meyer - 9.out.23/AFP · Damien Meyer - 9.out.23/AFP
    Enfermeira prepara aplicação da vacina nonavalente contra o HPV em Rennes, na França - Damien Meyer - 9.out.23/AFP · Damien Meyer - 9.out.23/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nas décadas seguintes, com o advento de técnicas de laboratório mais sofisticadas, cientistas consolidaram a relação de causalidade entre o HPV e o câncer do colo do útero.

    Eles detectaram, ainda, que o vírus estava presente em tumores de outros cinco locais: vagina , vulva, ânus , pênis e orofaringe (a parte da garganta que fica atrás da boca).

    Além disso, identificaram que o HPV não é apenas um vírus, mas uma família composta por mais de 200 tipos diferentes.

    Projeto leva kits de autocoleta para prevenção do HPV a mulheres no Amazonas
    Projeto leva kits de autocoleta para prevenção do HPV a mulheres no Amazonas — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Desses 200, a maioria é considerada de baixo risco e não está associada ao câncer. Porém, pelo menos 12 são classificados como de alto risco e podem provocar a doença. Entre eles, os tipos 16 e 18 são os mais carcinogênicos.

    Nem toda pessoa infectada por um tipo de alto risco desenvolverá câncer. Na maioria dos casos, a infecção desaparece sozinha. O risco aumenta quando ela persiste por anos e provoca alterações nas células.

    Essas descobertas também abriram uma possibilidade inédita: ensinar o sistema imunológico a reconhecer o HPV antes que ele cause uma infecção. Isso significa prevenir o câncer.

    A vacina quadrivalente protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do HPV; a nonavalente (foto) também atua contra mais cinco tipos (31, 33, 45, 52 e 58) - Yuri Cortez - 28.abr.23/AFP · Yuri Cortez - 28.abr.23/AFP
    A vacina quadrivalente protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do HPV; a nonavalente (foto) também atua contra mais cinco tipos (31, 33, 45, 52 e 58) - Yuri Cortez - 28.abr.23/AFP · Yuri Cortez - 28.abr.23/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No fim dos anos 1980, o imunologista australiano Ian Frazer e o virologista chinês Jian Zhou encontraram uma forma de fazer isso.

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    A dupla produziu estruturas que imitavam a parte externa do HPV, chamadas partículas semelhantes a vírus (VLPs, no acrônimo em inglês).

    Homem idoso com cabelo branco e terno cinza sorri em frente a um fundo com o logotipo azul do DKFZ e texto em alemão relacionado ao centro de pesquisa do câncer.
    Homem idoso com cabelo branco e terno cinza sorri em frente a um fundo com o logotipo azul do DKFZ e texto em alemão relacionado ao centro de pesquisa do câncer. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Conforme explica Júlio Teixeira, médico e professor da Unicamp que pesquisa HPV, as VLPs tinham a aparência do vírus, mas não continham seu material genético e, portanto, não causavam infecção.

    Essas estruturas eram capazes de estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos contra o HPV. Assim, apresentavam ao organismo uma imitação inofensiva do vírus para que ele estivesse preparado caso encontrasse o verdadeiro.

    "É como se colocasse apenas a cápsula [do vírus] direto em contato com o sistema imune da pessoa. Ele vai produzir anticorpos contra aquela cápsula. Toda vez que você tem anticorpos circulando e você tem contato com o vírus, ele é bloqueado e não entra", diz Teixeira.

    A imagem mostra uma mão apontando para caixas de vacina Gardasil 9, que estão organizadas dentro de uma bolsa ou caixa. As caixas são predominantemente brancas com detalhes em azul e verde, e contêm informações sobre a vacina. O fundo é des
    A imagem mostra uma mão apontando para caixas de vacina Gardasil 9, que estão organizadas dentro de uma bolsa ou caixa. As caixas são predominantemente brancas com detalhes em azul e verde, e contêm informações sobre a vacina. O fundo é des — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A partir dali, era preciso demonstrar que a estratégia funcionava. As VLPs passaram por novos estudos, enquanto pesquisadores e empresas farmacêuticas buscavam formas de transformá-las em vacinas.

    Os tipos 16 e 18 foram os primeiros alvos da vacina contra o HPV. Em 2006, o FDA (agência reguladora dos Estados Unidos ) aprovou o imunizante com formulação quadrivalente, que protege também contra os tipos 6 e 11, responsáveis pela maioria das verrugas genitais.

    No Brasil, essa vacina quadrivalente foi incorporada ao Programa Nacional de Imunizações somente em 2014. A produção no país é fruto de uma transferência de tecnologia entre a farmacêutica Merck Sharp & Dohme (MSD) e o Instituto Butantan .

    Imagem mostra duas mãos manuseando uma seringa de imunização, com a imagem de uma mulher desfocada ao fundo
    Imagem mostra duas mãos manuseando uma seringa de imunização, com a imagem de uma mulher desfocada ao fundo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Vinte anos depois da aprovação da primeira vacina pelo FDA, alguns países da Europa , os EUA, o Brasil e a Austrália já observaram resultados promissores: redução do número de lesões pré-cancerosas, da prevalência do vírus e do câncer do colo do útero na população.

    Segundo Teixeira, esses dados mostram que mesmo as vacinas da primeira geração têm uma importância muito grande na prevenção dos cânceres associados ao HPV.

    Hoje, o esquema de rotina no SUS (Sistema Único de Saúde) é de dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Também está disponível para alguns grupos específicos: pessoas imunossuprimidas de 9 a 45 anos; pessoas vivendo com HIV; transplantados; pacientes com câncer; usuários de PrEP (drogas antirretrovirais usadas antes da exposição ao HIV); vítimas de violência sexual; e pessoas com papilomatose respiratória recorrente.

    Além disso, até dezembro deste ano, o Ministério da Saúde mantém a vacinação contra o HPV para adolescentes de 15 a 19 anos que ainda não foram imunizados.

    As campanhas de vacinação priorizam os mais jovens por dois motivos principais. O primeiro é que pessoas dessa faixa etária tendem a produzir uma resposta de anticorpos mais intensa após a vacinação.

    O segundo é que a vacina previne novas infecções, mas não elimina uma infecção já existente nem trata lesões ou cânceres causados pelo HPV. Por isso, a vacinação é priorizada antes do início da vida sexual, quando a pessoa tem maiores chances de não ter sido exposta ao vírus.

    O foco do programa também leva em conta critérios de saúde pública, como o custo e a viabilidade de ampliar a vacinação para toda a população.

    Isso não significa que a vacina deixe de funcionar em pessoas mais velhas ou que já tenham tido contato com o HPV. Elas também podem desenvolver resposta imunológica e se beneficiar da vacinação. O imunizante pode protegê-las contra outros tipos incluídos na vacina aos quais ainda não foram expostas.

    Após a criação da vacina quadrivalente, pesquisadores buscaram formas de ampliar a proteção para outros tipos de HPV associados a cânceres.

    Uma formulação nonavalente foi desenvolvida e ficou disponível para aplicação no Brasil em 2023 . Ela manteve os quatro HPVs da formulação original e adicionou outros cinco tipos, também associados a diferentes tumores malignos (31, 33, 45, 52 e 58).

    A nonavalente está disponível apenas na rede particular. São necessárias duas doses para pessoas entre 9 e 19 anos e três doses para pessoas a partir dos 20 anos. Cada dose custa em torno de R$ 900 .

    Há uma proposta de inclusão da vacina nonavalente contra o HPV no SUS. Ela está em debate na Câmara dos Deputados desde maio.

    Para viabilizar a produção nacional dos imunizantes contra o HPV, o Ministério da Saúde destinou R$ 495,9 milhões à construção de uma nova fábrica no Instituto Butantan.

    A reportagem procurou o Ministério da Saúde e o Instituto Butantan para saber sobre o andamento das obras. Ambos informaram que ainda não há previsão para a incorporação da vacina à rede pública.

    Esta reportagem foi produzida durante o 11º Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha , que teve apoio do Einstein Hospital Israelita e do Laboratório Roche.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/09/vacina-contra-o-hpv-e-resultado-de-mais-de-150-anos-de-pesquisas.shtml.

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