Brasil

    Usina centenária de SP ainda opera com equipamentos originais e atinge potência máxima em 15 minutos

    Complexo em Cubatão (SP) foi decisivo para a expansão industrial paulista, passou por ampliações e teve a operação afetada pela poluição da Billings

    UOL
    10 de outubro de 2026 às 03:00
    Usina centenária de SP ainda opera com equipamentos originais e atinge potência máxima em 15 minutos
    Foto: UOL

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Trilho carrega bonde capaz de subir e descer a serra do mar em menos de 15 minutos; ao lado dele estão os dutos que transportam água até os geradores da usina Henry Borden - Zanone Fraissat / Folhapress

    Trilho carrega bonde capaz de subir e descer a serra do mar em menos de 15 minutos; ao lado dele estão os dutos que transportam água até os geradores da usina Henry Borden - Zanone Fraissat / Folhapress · Zanone Fraissat /
    Trilho carrega bonde capaz de subir e descer a serra do mar em menos de 15 minutos; ao lado dele estão os dutos que transportam água até os geradores da usina Henry Borden - Zanone Fraissat / Folhapress · Zanone Fraissat / — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Bastam 15 minutos para que a usina hidrelétrica Henry Borden, que completa 100 anos neste sábado (10), eleve sua geração de energia da potência mínima à máxima , de 889 MW.

    Crucial no desenvolvimento de São Paulo , o complexo foi fundado pela Light em 10 de outubro de 1926 e está hoje sob gestão da Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia), cujo controle a Sabesp assumiu em fevereiro deste ano.

    A usina fica em Cubatão (SP) e continua em plena atividade . Ainda mantém parte de suas características originais, mas já não opera da mesma forma como fazia no passado. Desde 2012, afinal, a Henry Borden trabalha sob o regime de disponibilidade.

    Vista da usina Henry Borden em 1948, quando complexo ainda se expandia - Acervo Fundação Energia e Saneamento · Acervo Fundação Energia e Saneamento
    Vista da usina Henry Borden em 1948, quando complexo ainda se expandia - Acervo Fundação Energia e Saneamento · Acervo Fundação Energia e Saneamento — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Funciona assim: em vez de vender energia ao mercado, ela recebe para garantir que sua produção esteja sempre à disposição do ONS, o operador nacional do sistema elétrico, que pede eletricidade sob demanda —que costuma ser solicitada quase todos os dias.

    Na manhã de quinta (8), por exemplo, quando a Folha visitou o complexo, 92% da usina estava à disposição do ONS e a maioria dos geradores permanecia em atividade.

    Um deles data da inauguração da hidrelétrica : o primeiro rotor da Henry Borden continua ativo cem anos após ser instalado, mas será substituído até o fim do ano em meio a projetos de modernização do complexo.

    O gerente de manutenção da Emae, Emerson Laube, à frente dos painéis de controle da hidrelétrica Henry Borden; maquinário também é centenário - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Folhapress
    O gerente de manutenção da Emae, Emerson Laube, à frente dos painéis de controle da hidrelétrica Henry Borden; maquinário também é centenário - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A usina se confunde com a paisagem da Serra do Mar. É impossível passar pela rodovia Anchieta ou pela estrada velha de Santos e não observar os dutos que descem do pico do morro ao nível do mar, 720 metros abaixo.

    São oito grandes e centenários tubos de aço, todos ainda originais, que transportam água do reservatório Rio das Pedras, que integra a represa Billings, até os geradores da Henry Borden .

    É uma operação controlada. Os tubos ficam constantemente cheios, mas a força com que a água sai deles é regulada pela chamada casa de válvulas, um prédio de concreto armado construído no topo da serra.

    A centenária usina Henry Borden, em Cubatão
    A centenária usina Henry Borden, em Cubatão — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A distância e a altura não são obstáculos para quem está lá em cima. A descida é feita por um bonde que desce sobre trilhos também centenários afixados em pedras ao lado dos dutos. A pequena estrada de ferro liga a casa de válvulas à casa de força, onde estão os geradores.

    O trajeto leva de 12 a 13 minutos e pode assustar nos trechos mais íngremes, que chegam a 43° de inclinação, mas ainda assim é o atalho mais curto entre o alto da serra e o nível do mar. Por ele passaram os operários que construíram a Henry Borden e por ele passam equipamentos e funcionários até hoje.

    A usina surgiu de um ambicioso projeto da Light para fazer frente aos apagões que atingiam São Paulo nos anos 1920.

    Túnel que dá acesso à usina subterrânea do complexo Henry Borden, em Cubatão - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Folhapress
    Túnel que dá acesso à usina subterrânea do complexo Henry Borden, em Cubatão - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O estado vivia um boom industrial, mas a oferta de energia não conversava com a demanda. A iluminação pública com frequência caía, e a capital e região metropolitana viviam no escuro.

    Até que veio a ideia de represar rios no alto da serra para dar início ao projeto Billings, um plano que quase foi às ruínas em 1932.

    Era 29 de julho e as tropas federais lutavam contra o levante paulista que ficou conhecido como revolução constitucionalista, frente armada criada duas semanas antes para derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas.

    Casa de válvulas da usina Henry Borden, em Cubatão, controla vazão do reservatório Rio das Pedras - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Folhapress
    Casa de válvulas da usina Henry Borden, em Cubatão, controla vazão do reservatório Rio das Pedras - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Duas bombas foram arremessadas contra a usina naquele dia, ambas por um hidroavião Savoia-Marchetti. Apenas uma atingiu o alvo. Não explodiu, mas causou danos estruturais e feriu quatro funcionários. O avião só recuou após ser alvo de disparos de canhões do alto da serra.

    A revolução acabou sufocada pelo governo, mas o fracasso da investida contra a usina abriu caminho a um projeto de expansão do complexo que incluiu a construção de uma usina subterrânea.

    O sistema funciona da mesma forma, só não é visível a olho nu. A água é transportada por uma adutora de quase dois quilômetros de extensão e cai nas turbinas no interior de uma caverna.

    Reportagem publicada pela Folha em 21 de janeiro de 1975 mostrou intenção do governo Geisel de reduzir produção da Henry Borden ante a poluição da represa Billings - Acervo Folha de S.Paulo · Acervo Folha de S.Paulo
    Reportagem publicada pela Folha em 21 de janeiro de 1975 mostrou intenção do governo Geisel de reduzir produção da Henry Borden ante a poluição da represa Billings - Acervo Folha de S.Paulo · Acervo Folha de S.Paulo — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O acesso se dá por um túnel. O espaço embaixo das pedras se assemelha a um bunker: tem 39 metros de altura, 120 de comprimento e 21 de largura.

    O grande entusiasta de tudo isso chama-se Henry Borden, empresário canadense que assumiu a presidência da Light em 1946 e que desde 1964 dá nome ao complexo —antes, ela se chamava apenas "usina de Cubatão".

    Coube a Borden conduzir projetos que transformaram o complexo na maior hidrelétrica do hemisfério sul , quadro que só veio a se alterar em meados dos anos 1960 com a construção da usina de Furnas .

    Vista aérea da Usina Hidrelétrica de Cubatão, com grandes tubulações amarelas e trilhos descendo uma encosta verde. Ao fundo, áreas industriais, vegetação densa e montanhas sob céu nublado.
    Vista aérea da Usina Hidrelétrica de Cubatão, com grandes tubulações amarelas e trilhos descendo uma encosta verde. Ao fundo, áreas industriais, vegetação densa e montanhas sob céu nublado. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O plano de expansão da Henry Borden incluiu empréstimos milionários assegurados pela União e a conclusão de uma obra iniciada em 1927 sem a qual São Paulo não seria a mesma de hoje: o desvio das águas do rio Pinheiros.

    Em vez de desaguar no Tietê, as águas eram bombeadas até a represa Billings, cujo volume até então era substancialmente instável.

    A questão era a sujeira. Toda a matéria orgânica que vinha do esgoto despejado no Pinheiros acabava também na represa Billings.

    Usina hidrelétrica localizada na base de uma montanha com densa vegetação. Grandes tubulações descem em linha reta pela encosta íngreme até a estrutura da usina. Pequeno vilarejo com casas próximas ao rio que passa em frente à usina. Céu pa
    Usina hidrelétrica localizada na base de uma montanha com densa vegetação. Grandes tubulações descem em linha reta pela encosta íngreme até a estrutura da usina. Pequeno vilarejo com casas próximas ao rio que passa em frente à usina. Céu pa — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Em épocas de seca, por exemplo, os geradores falhavam com alguma frequência porque funcionavam a partir de águas altamente poluídas, e os gases formados pela matéria orgânica atacavam diretamente equipamentos da usina.

    O problema chegou a ser reconhecido durante a ditadura .

    Em 1975, por exemplo, o governo Ernesto Geisel determinou ao então ministro de Minas e Energia Shigeaki Ueki a elaboração de planos para conter a poluição da Billings mesmo que isso significasse reduzir a produção de energia da Henry Borden.

    Homem com capacete branco e fones de ouvido observa painel de controle com múltiplos medidores analógicos e digitais em sala industrial.
    Homem com capacete branco e fones de ouvido observa painel de controle com múltiplos medidores analógicos e digitais em sala industrial. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Mas esta era uma via de mão dupla, já que a redução da produção significava também uma menor vazão do rio Cubatão, em boa parte abastecido pelo volume excedente da hidrelétrica.

    A medida afetaria diretamente o polo petroquímico que havia se instalado em Cubatão anos antes, atraído pela oferta abundante e barata de energia, que usava água do rio para fins industriais, como resfriamento das máquinas.

    A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) reagiu, industriais pediram prazo e os planos foram sucessivamente adiados até 1992, quando uma resolução estadual proibiu por tempo indeterminado o bombeamento contínuo das águas do Pinheiros para a Billings.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Desde então esse processo só é permitido para controlar enchentes e "reduzir o risco de inundações durante períodos de chuvas intensas", diz o diretor de Operações da Emae, Fernando Luís Fernandes, para quem a importância da Henry Borden vai muito além da produção energética.

    "Localizada próxima ao maior centro consumidor do país, a usina responde rapidamente às solicitações do ONS e contribui para a recomposição do sistema em caso de apagão, graças à sua capacidade de iniciar a operação sem depender de energia externa", afirma.

    De 2019 até aqui o principal foco da Emae foi a usina subterrânea, que recebeu R$ 338 milhões em investimentos segundo ele. A próxima frente é a modernização dos aparelhos da usina externa.

    Prédio industrial grande e antigo com fachada branca desgastada e torre alta ao fundo. Névoa cobre parcialmente o lado esquerdo da imagem. Poste de energia e cabos cruzam a frente do prédio.
    Prédio industrial grande e antigo com fachada branca desgastada e torre alta ao fundo. Névoa cobre parcialmente o lado esquerdo da imagem. Poste de energia e cabos cruzam a frente do prédio. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL
    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL
    Trilili Urna Eletrônica
    Trilili Urna Eletrônica — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/10/usina-centenaria-de-sp-ainda-opera-com-equipamentos-originais-e-atinge-potencia-maxima-em-15-minutos.shtml.

    Imagem 1
    1 / 12

    Trilho carrega bonde capaz de subir e descer a serra do mar em menos de 15 minutos; ao lado dele estão os dutos que transportam água até os geradores da usina Henry Borden - Zanone Fraissat / Folhapress · Zanone Fraissat / — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)