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    Ushuaia conta como os humanos superaram o frio para ocupar o fim do mundo

    Lugares muito remotos são, em geral, envoltos por uma aura de mistério. O melhor exemplo talvez seja o monte Everest , que mesmo a quase 9.000 metros de altitude, recebe pelo menos 800 turistas por ano em busca dessa tal aura. Leia mais (08/19/2026 - 08h00)

    Folha de S.Paulo
    19 de agosto de 2026 às 11:00
    Ushuaia conta como os humanos superaram o frio para ocupar o fim do mundo
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Trem do fim do mundo, que leva visitantes de Ushuaia até o Parque Nacional da Terra do Fogo, na Argentina - Gabriel Justo / Folhapress

    Trem do fim do mundo, que leva visitantes de Ushuaia até o Parque Nacional da Terra do Fogo, na Argentina - Gabriel Justo / Folhapress · Gabriel Justo /
    Trem do fim do mundo, que leva visitantes de Ushuaia até o Parque Nacional da Terra do Fogo, na Argentina - Gabriel Justo / Folhapress · Gabriel Justo / — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Lugares muito remotos são, em geral, envoltos por uma aura de mistério. O melhor exemplo talvez seja o monte Everest , que mesmo a quase 9.000 metros de altitude, recebe pelo menos 800 turistas por ano em busca dessa tal aura.

    Alguns desses lugares ficam aqui na América do Sul , como os rincões da Amazônia , o deserto do Atacama , os picos andinos … e também uma cidadezinha na ponta do continente, que a cada inverno recebe mais brasileiros.

    Estamos falando de Ushuaia, na Terra do Fogo, última província argentina antes da temida passagem de Drake, que separa o nosso continente da Antártida . Com 80 mil habitantes, a cidade fica encravada entre as últimas montanhas da cordilheira do Andes e o canal Beagle, que liga o Atlântico e o Pacífico —além de separar a Argentina do finalzinho do Chile , do outro lado do canal.

    Ushuaia tem passeios por antiga ferrovia, presídio e pelo canal Beagle
    Ushuaia tem passeios por antiga ferrovia, presídio e pelo canal Beagle — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na outra margem há outra cidadezinha, chilena, chamada Puerto Williams. Mesmo assim, pelo seu tamanho e infraestrutura (o porto e o aeroporto da cidade são os mais importantes da região), Ushuaia se impõe como a cidade mais austral do planeta, isto é, mais ao sul do globo do que qualquer outra. Daí o apelido de "fim do mundo" —que por mais impreciso que seja, afinal o mundo não tem um fim exato, é um marketing difícil de resistir. Culpa da tal aura dos lugares remotos.

    O primeiro mistério surge logo na chegada, após quase seis horas voando rumo ao sul toda vida, direto de Guarulhos (no inverno, a Gol opera três voos diretos por semana; e entre novembro e março, mantém a mesma frequência com uma escala em El Calafate ). É claro que existem inúmeros lugares tão ou mais frios mundo afora, mas à primeira brisa em temperaturas negativas, é impossível não questionar como, em meio a tanto frio, os humanos chegaram ali e decidiram se estabelecer.

    Essa história é contada em detalhes no Museu Marítimo de Ushuaia (R$ 150), instalado num antigo presídio do começo do século 20. Nele há uma seção dedicada aos povos nômades selk’nam e yámanas, que já habitavam a região há pelo menos dez mil anos.

    Frase 'as Malvinas são argentinas' pintada em muro no centro de Ushuaia, na Argentina - Gabriel Justo/Folhapress · Gabriel Justo/Folhapress
    Frase 'as Malvinas são argentinas' pintada em muro no centro de Ushuaia, na Argentina - Gabriel Justo/Folhapress · Gabriel Justo/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quando o navegador português Fernão de Magalhães chegou ali pela primeira vez, em 1520, batizou o lugar de Terra do Fogo justamente pelas fogueiras que os yámanas faziam, tanto em terra firme, em cabanas cobertas com couro de animais, quanto nas canoas que eles usavam para navegar e pescar pelo canal.

    Os yámanas também besuntavam suas peles com gordura de foca e se alimentavam de lobos-marinhos, que são hipercalóricos e ajudavam a resistir ao frio.

    Mas foi só na segunda metade do século 19 que a dita civilização alcançou a região. Primeiro com os bispos anglicanos , em 1869. Mais tarde, em 1884, com a Marinha argentina que, de comum acordo com os ingleses, hasteou a bandeira azul e branca —reafirmando a soberania argentina e freando a expansão chilena.

    Estação Cascada La Macarena, para intermediária do Trem do Fim do Mundo, em Ushuaia, na Argentina - Gabriel Justo/Folhapress · Gabriel Justo/Folhapress
    Estação Cascada La Macarena, para intermediária do Trem do Fim do Mundo, em Ushuaia, na Argentina - Gabriel Justo/Folhapress · Gabriel Justo/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas os europeus não tiveram a mesma boa vontade em relação às Malvinas, a cerca de 800 km dali, que até hoje é um território inglês reivindicado pela Argentina. Não à toa, Ushuaia (que teve um papel estratégico na guerra pelo arquipélago, em 1982) se autointitula "capital das Malvinas" e é repleta de inscrições, em muros e placas, que afirmam que " as Malvinas são e serão argentinas ". E ai de quem disser o contrário.

    O prédio do museu deixou de funcionar como presídio em 1947. A área expositiva foi instalada nos antigos pavilhões e celas, que receberam calefação para o conforto dos turistas. Mas há ainda uma ala totalmente preservada (inclusive sem aquecimento) que faz o visitante sentir na pele as agruras dos antigos detentos. Pode ser um pouco sinistro demais para alguns, mas é a parte mais interessante do passeio.

    Para viabilizar o funcionamento do presídio, foi construída uma ferrovia que o ligava ao que hoje é o Parque Nacional da Terra do Fogo, de onde os presos extraíam diversos insumos, principalmente madeira. Parte dessa ferrovia ainda funciona até hoje como trem turístico, ligando uma ponta da cidade ao parque.

    Passeios e gastronomia em Ushuaia
    Passeios e gastronomia em Ushuaia — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há três saídas diárias (ao amanhecer, o que por lá só acontece por volta das 9h; no almoço e à tarde), com duas classes (turista, mais básico, pelo equivalente a R$ 240; e premium, com serviço de bordo e tour pela oficina dos trens, por R$ 740). Os vagões são pequenos e estreitos, puxados por charmosas marias-fumaça em um trajeto que atravessa campos congelados emoldurados por picos nevados.

    Ao longo do percurso, que dura aproximadamente uma hora, o sistema de som do trem conta, em diversas línguas (inclusive português, é claro), a história da cidade e da linha férrea. A narrativa é sincronizada com o passeio, destacando, por exemplo, os tocos das árvores cortadas pelos detentos —e como a altura deles prova a altura da neve na época do corte.

    O trem faz uma única parada ao longo do trajeto, em uma estaçãozinha ao lado uma cachoeira semicongelada. Apesar de curta, é uma ótima oportunidade para tirar fotos da paisagem e dos trens.

    Ushuaia, na Argentina, é alternativa aos centros de esqui mais populares da América do Sul
    Ushuaia, na Argentina, é alternativa aos centros de esqui mais populares da América do Sul — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na estação final, o turista pode escolher retornar à cidade ou continuar o passeio visitando os mirantes e contemplando os lagos do parque nacional —o que, principalmente no inverno, só é viável com agências locais, que já vendem o pacote completo.

    Mas para além dos aspectos históricos que já valeriam a visita por si só, Ushuaia também é um destino de esqui, popular inclusive entre os profissionais.

    Dada a localização tão austral, atletas como Lucas Pinheiro Braathen, que conquistou a primeira medalha de ouro do Brasil nos Jogos Olímpicos de Inverno no começo deste ano, têm a certeza de que vão encontrar neve por ali ao longo de quase todo o ano.

    Aula de esqui no cerro Castor, em Ushuaia, na Argentina - Divulgação · Divulgação
    Aula de esqui no cerro Castor, em Ushuaia, na Argentina - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há algumas opções para passar o dia na neve. A apenas sete quilômetros do centro, fica o Cerro Martial, o primeiro centro de esqui de Ushuaia, com vista para a cidade e o aeroporto. Tanto pela proximidade quanto pelo preço, mais em conta, ele é ideal para um primeiro contato com a neve e para ter as primeiras aulas de esqui.

    Após 14 anos fechado, ele foi reaberto no começo desta temporada, em junho, com um teleférico modernizado e novas experiências, como a Martial Aventura, que leva os visitantes para fazer uma trilha noturna no alto da montanha e, depois, para um jantar tradicional fueguino, com bastante vinho e cordeiro.

    Uma vez familiarizado com os esquis, é hora de visitar o Cerro Castor, que fica em um vale alto e nevado a cerca de 30 quilômetros da cidade. É um centro de esqui bem maior, com muitas pistas de diferentes dificuldades e uma grande área dedicada às aulas.

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    Vale tomar um café da manhã reforçado e passar o dia todo deslizando por lá, contemplando a paisagem absurda que se tem tanto das pistas quanto do teleférico —e, no final da tarde, comer cordeiro à vontade na Morada del Águila, um restaurante todo de madeira e vidro com uma grande lareira no centro do salão.

    Quem não se der muito bem com os esquis vai acabar se divertindo muito no Tierra Mayor, no mesmo vale onde fica o Castor. Ele é chamado de centro invernal (e não centro de esqui) porque ali a diversão não acontece na montanha, mas na planície.

    Enquanto as crianças brincam de esquibunda numa pequena colina, os adultos praticam esqui nórdico (que usa a força do próprio corpo e bastões para deslizar pela neve) e também podem dirigir motos de neve —uma experiência indispensável, ainda que cheia de regras de segurança que tiram um pouco da emoção do passeio. Tudo regado a muito chocolate quente.

    Mural pintado em muro ao longo de via urbana com a frase 'Las Malvinas son y serán argentinas' em letras grandes e pretas. Ao fundo, prédios residenciais e comerciais iluminados à noite. Rua vazia em primeiro plano com faixa de pedestres e
    Mural pintado em muro ao longo de via urbana com a frase 'Las Malvinas son y serán argentinas' em letras grandes e pretas. Ao fundo, prédios residenciais e comerciais iluminados à noite. Rua vazia em primeiro plano com faixa de pedestres e — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Depois de tantos dias na neve, comendo muito cordeiro, caranguejo-rei e milanesas sempre em porções avantajadas, vale encerrar a viagem em grande estilo jantando no Kalma, comandado pelo chef Jorge Monopoli.

    É o restaurante mais refinado da cidade, que construiu sua reputação pelo cardápio que pretende apresentar Ushuaia pelos seus sabores mais únicos. O menu-degustação (cerca de R$ 600, com harmonização) inclui salmão selvagem maturado, merluza negra e sobremesas que surpreendem pelo equilíbrio.

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    Trilhos de trem cobertos por leve neve curvam-se entre cercas de madeira com pessoas caminhando ao lado. Montanha nevada ao fundo sob céu azul com nuvens dispersas.
    Trilhos de trem cobertos por leve neve curvam-se entre cercas de madeira com pessoas caminhando ao lado. Montanha nevada ao fundo sob céu azul com nuvens dispersas. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Ilustração Viaja - Melhor companhia aérea nacional em conforto
    Ilustração Viaja - Melhor companhia aérea nacional em conforto — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/turismo/2026/08/ushuaia-conta-como-os-humanos-superaram-o-frio-para-ocupar-o-fim-do-mundo.shtml.

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