Uma semana repleta de surpresas
Minha última semana foi repleta de surpresas -algumas bem desagradáveis, diga-se de passagem. Disparado a melhor de todas chegou direto da África , de onde vieram três peças lindas, esculpidas em ébano negro, madeira nobre, requintada e de beleza ímpar. Para além da alegria de ser lembrada e presenteada por alguém que faz uma viagem transatlântica, as esculturas (intituladas "Baobá", "O Pensador" e "O Amor") foram adquiridas aos pés do Museu Nacional da Escravatura, em Angola . Essa localização agrega muito de simbologia e de memória ancestral aos presentes. Leia mais (10/04/2026 - 18h45)

Jornalista especializada em comunicação pública e vice-presidente de gestão e parcerias da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública)
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Minha última semana foi repleta de surpresas —algumas bem desagradáveis, diga-se de passagem. Disparado a melhor de todas chegou direto da África , de onde vieram três peças lindas, esculpidas em ébano negro, madeira nobre, requintada e de beleza ímpar. Para além da alegria de ser lembrada e presenteada por alguém que faz uma viagem transatlântica, as esculturas (intituladas "Baobá", "O Pensador" e "O Amor") foram adquiridas aos pés do Museu Nacional da Escravatura, em Angola . Essa localização agrega muito de simbologia e de memória ancestral aos presentes.
Quem, assim como eu, foi privado do direito de conhecer sua origem genealógica tende a atribuir valor inestimável a artigos esculpidos manualmente no local de onde partiu a esmagadora maioria dos africanos escravizados aqui no Brasil. Para quem não sabe, as estimativas do comércio transatlântico de africanos dão conta de que algo em torno de 3,8 milhões de pessoas que compunham a mão de obra traficada para o nosso país vieram da região chamada Congo-Angola. Sendo assim, é possível que minhas raízes estejam lá. Voltando ao Museu Nacional da Escravatura, vale registrar que o espaço cultural está instalado numa capela do século 17, no alto do Morro da Cruz, em Benfica. Na capelinha que virou museu, milhões de africanos foram batizados e receberam um "nome cristão" (parte do processo de aculturação) antes de embarcarem nos navios tumbeiros rumo ao continente americano — para nunca mais voltar. Apesar de compacto, o local é um importante centro de preservação da memória do tráfico transatlântico —o mais grave crime cometido contra a humanidade (ONU). Há alguns dias, o museu foi visitado por duas celebridades negras norte-americanas: o ator Will Smith e o atleta LeBron James . Dizem que a vista do Museu Nacional da Escravatura, instalado à beira-mar, é deslumbrante. Mas é também triste saber que esse horizonte foi a última visão da África para milhões de seres humanos forçados a abrir mão da liberdade.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ana-cristina-rosa/2026/10/uma-semana-repleta-de-surpresas.shtml.

Pessoas do lado de fora do Museu Nacional da Escravatura, em Luanda - Elizabeth Frantz - 3.dez.24/Reuters · Elizabeth Frantz - 3.dez.24/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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