Uma promessa de superávit que não basta
No último dia de agosto o governo enviou ao Congresso a proposta orçamentária para 2027 prevendo um superávit primário de R$ 18,6 bilhões . Será o primeiro resultado positivo desde 2022 e apenas o segundo desde 2014. A princípio, a notícia é positiva. No entanto, ela está longe de encerrar a discussão. Leia mais (09/22/2026 - 23h00)

Economista e CEO da Bradesco Asset Management. Foi secretário especial do Tesouro e Orçamento, secretário do Tesouro Nacional e secretário da Fazenda do Espírito Santo
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No último dia de agosto o governo enviou ao Congresso a proposta orçamentária para 2027 prevendo um superávit primário de R$ 18,6 bilhões . Será o primeiro resultado positivo desde 2022 e apenas o segundo desde 2014. A princípio, a notícia é positiva. No entanto, ela está longe de encerrar a discussão.
A pergunta relevante não é apenas se haverá superávit, mas se é crível , se é sustentável ao longo do tempo e, principalmente, se será capaz de estabilizar a dívida pública . Essa é a variável que realmente importa para famílias, empresas e investidores, pois é a que possibilita a redução estrutural das taxas de juros da economia.
Quando observamos a proposta orçamentária, surgem dúvidas sobre a capacidade de entrega desse resultado. O principal ponto está do lado da receita. As projeções do governo trazem um crescimento econômico de 2,46% , muito acima da expectativa atual do mercado, próxima de 1,5%.
Em um contexto de desaceleração da economia, hipóteses otimistas produzem projeções de arrecadação elevadas, gerando uma diferença próxima de R$ 100 bilhões nas receitas projetadas.
Do lado das despesas, o problema estrutural permanece. As despesas obrigatórias continuam ocupando cerca de 92% do Orçamento federal . Trata-se de gastos cuja trajetória é determinada por regras de indexação e vinculações legais, o que reduz significativamente a capacidade de ajuste da política fiscal.
Previdência e despesas vinculadas à receita e ao salário mínimo continuam crescendo de forma automática. Faça chuva ou faça sol, essas despesas avançam de forma acelerada e consomem parcela crescente dos recursos públicos.
O espaço para gastos discricionários segue bastante apertado. São justamente essas despesas que financiam investimentos públicos, custeio da máquina e diversas políticas públicas. O risco, debatido há anos, é que o ajuste fiscal continue ocorrendo pela compressão dessas despesas, e não por reformas capazes de alterar de forma permanente a dinâmica do gasto obrigatório.
O desafio tornou-se ainda maior com o anúncio da ampliação do Bolsa Família , que não estava prevista na proposta orçamentária e sua expansão acrescenta cerca de R$ 22 bilhões às despesas de 2027 . Independentemente do mérito da medida , é mais um elemento que reduz a crença no cumprimento do Orçamento para o ano que vem.
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Assim, o Orçamento de 2027 traz algumas mensagens relevantes. O superávit primário depende de hipóteses otimistas de crescimento e arrecadação. Ao mesmo tempo, permanecem os desafios estruturais que tornam o Orçamento brasileiro excessivamente rígido e dificultam o controle duradouro da trajetória das despesas.
Enfrentar esse desafio exige algo mais profundo do que um superávit pontual. Exige uma estratégia capaz de controlar o crescimento das despesas obrigatórias e produzir resultados primários maiores, críveis e recorrentes ao longo do tempo. Só assim será possível estabilizar a dívida pública para reduzir de forma sustentável as taxas de juros.
Em um ano de eleições, esse é um dos temas decisivos para o futuro do país, já que dele dependerá grande parte da nossa capacidade de crescimento e, portanto, deveria ocupar espaço relevante do debate eleitoral.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bruno-funchal/2026/09/uma-promessa-de-superavit-que-nao-basta.shtml.

Dario Durigan, ministro da Fazenda, apresenta proposta de Orçamento para 2027 - Pedro Ladeira - 31.ago.2026/Folhapress · Pedro Ladeira - 31.ago.2026/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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