Uma parte da esquerda prefere a derrota purista à vitória pragmática
Zohran Mamdani , o prefeito de Nova York , é um grande nadador, no sentido que foi uma vez descrito por Lula ao distinguir entre os dois tipos de personagens mais comuns -e, ao mesmo tempo, mais opostos- à esquerda, numa arenga que para mim ficou memorável. Leia mais (10/13/2026 - 23h00)

Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de 'Agora, Agora e Mais Agora'
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Zohran Mamdani , o prefeito de Nova York , é um grande nadador, no sentido que foi uma vez descrito por Lula ao distinguir entre os dois tipos de personagens mais comuns —e, ao mesmo tempo, mais opostos— à esquerda, numa arenga que para mim ficou memorável.
Dizia então Lula, falando no ano de 2017 sobre o PSOL : "A única coisa que eu desejo é que eles ganhem alguma coisa! Eu quero que eles governem a cidade do Rio de Janeiro ! Quando eles governarem a cidade do Rio de Janeiro, metade da frescura vai acabar. Eles vão perceber que não dá para a gente nadar teoricamente: não dá para ficar na beira da praia falando para estender uma braçada para cá, uma braçada para lá, levanta a cabeça, bate um pé… ah, entra na água e vai nadar, porra!".
Em tempos, a grande distinção na esquerda era entre reformistas e revolucionários. Hoje, acho que mais vale aplicar o critério de Lula: quem entra na água para nadar e quem pretende ensinar os outros a nadar teoricamente.

Há quem já tenha nascido sabendo nadar: é o caso de Mamdani, que não precisou começar a governar uma enorme cidade, a mais icônica delas todas, para deixar de frescura. E há aqueles que se recusam a entrar na água e pretendem ensinar os outros a nadar teoricamente: é o caso de quem decidiu usar o seu tempo para insultar Mamdani acusando-o de cumplicidade com o governo de Israel e com o genocídio em Gaza contra os palestinos.
Numa vigília de memória pelas vítimas do 7 de Outubro , em Union Square, junto de uma organização de judeus pela paz e pró-palestinos, Mamdani teve de ficar impávido e sereno enquanto ouvia um grupo de manifestantes, alguns dos quais da sua própria organização política, gritar-lhe que tinha as mãos manchadas de sangue, que estava do lado do genocídio e que não passava de um traidor.
Esse confronto ilustra na perfeição a abordagem diametralmente oposta das duas personagens-tipo principais da esquerda: o político e o ativista.

O político pode ser mais moderado ou radical, reformista ou revolucionário, centrista ou esquerdista, mas se é político mesmo, sabe de uma coisa: a sua missão é convencer gente a criar maiorias para fazer a mudança. O calibre do seu sucesso está na sua capacidade de falar a um máximo de gente.
Já o ativista precisa funcionar numa lógica de diferenciação: a grande maneira que tem de chamar a atenção é dizer aquilo que praticamente mais ninguém diz; se e quando muita gente disser o mesmo, o ativista sobe o sarrafo para outra posição ainda mais minoritária. Para ele, o sinal do sucesso é nunca deixar de ser uma minoria.
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Não quero com isto dizer que a posição do ativista seja sempre má ou a do político sempre boa. Muitas vezes elas trabalham bem em conjunto. Outras vezes (como agora no Brasil) elas veem-se forçadas a lutar pela sobrevivência para evitar uma derrota política.
Esse não é o problema. O problema começa se houver uma vitória. Havendo uma vitória, é preciso —bem ou mal— nadar na prática. Governar para toda a gente. E que haja na esquerda um segmento que prefere a derrota purista à vitória pragmática tem sido uma das grandes razões da nossa debilidade atual.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rui-tavares/2026/10/uma-parte-da-esquerda-prefere-a-derrota-purista-a-vitoria-pragmatica.shtml.

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