Uma lição de K-pop contra a venda a qualquer custo
Assisti a "Guerreiras do K-Pop" com minha filha mais nova e uma pergunta não saiu da minha cabeça, justamente eu, que vivo de vender: por que alguém escolheria passar tempo com a minha marca se não estivesse precisando comprar nada? Leia mais (10/14/2026 - 23h00)

Multiempreendedora e fundadora do Natalia Beauty Group
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Assisti a "Guerreiras do K-Pop" com minha filha mais nova e uma pergunta não saiu da minha cabeça, justamente eu, que vivo de vender: por que alguém escolheria passar tempo com a minha marca se não estivesse precisando comprar nada?
Comecei fazendo sobrancelhas e mostrando meu trabalho nas redes. Mostrava também o que dava errado, os bastidores de uma mulher tentando construir um negócio. A clínica ainda era pequena, mas aquela conversa podia chegar a quem nunca passaria por ela. Com o tempo, vieram os cursos e os produtos, e o meu trabalho passou a alcançar pessoas que eu não conseguiria atender.
Contar isso hoje pode dar a impressão de que havia um plano para tudo, mas não havia. Algumas coisas eu só entendi depois de fazê-las. Mostrar o que eu sabia, e o que estava aprendendo, tinha valor para mulheres que não estavam procurando um procedimento, e percebi que a minha história podia interessar antes de existir uma intenção de compra.

O filme que vi com minha filha me fez pensar nisso em outra escala. A Coreia levou décadas aproximando sua cultura de públicos pelo mundo, por meio da música, das séries e do cinema.
Hoje, quando um cosmético coreano chega à prateleira, pode encontrar alguém que já tem curiosidade por aquele país, pois parte do trabalho de apresentar o produto aconteceu muito antes, longe de uma loja.
A Anua, marca de cuidados com a pele, lançou uma linha em parceria com a animação "Guerreiras do K-Pop " e levou as personagens da tela para as embalagens. Para quem fabrica cosméticos, a vantagem desse tipo de licenciamento é chegar à prateleira apoiado numa história que o público já escolheu acompanhar, e entre dezenas de produtos parecidos, o consumidor ganha um motivo para reparar naquele.
A personagem garante o primeiro olhar, mas a recompra depende do que está dentro do frasco. Reconheci algo do meu percurso ali, mas também uma cobrança sobre o que faço hoje. Se cada vídeo meu precisar vender um curso, corro o risco de falar apenas com quem já decidiu fazer um curso. E as mulheres que poderiam aprender algo comigo agora e abrir um negócio daqui a dois anos? A pressa de vender pode encurtar demais o nosso olhar.
Penso nisso quando ouço a expressão "mídia proprietária". Podemos ser donos do conteúdo e o interesse das pessoas continua sendo delas. Ter uma audiência não nos dispensa de merecer a próxima conversa e no meu negócio, isso significa que o conteúdo precisa ter alguma utilidade mesmo para quem nunca vai comprar de mim.
Se você administra uma empresa, sabe como é difícil defender um investimento que não promete retorno imediato. Eu também tenho contas para pagar e ainda assim, uma audiência construída com paciência pode reduzir a dependência de comprar atenção a cada lançamento. Isso tem valor econômico, mesmo quando não aparece na venda daquela semana. Manter uma relação entre uma oferta e outra é uma decisão sobre o futuro da receita e merece orçamento e continuidade.
Sei contar como construí minha empresa. Mantê-la relevante exige continuar aprendendo, inclusive com o que parece não ter relação com o meu trabalho. A próxima era do consumo talvez já esteja se formando em escolhas que fazemos sem pensar em negócios, como passar uma tarde vendo um desenho animado com a filha. Quero aprender a observar melhor esses momentos.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/natalia-beauty/2026/10/uma-licao-de-k-pop-contra-a-venda-a-qualquer-custo.shtml.

Cena da animação 'Guerreiras do K-pop' (K-pop Demon Hunters), na Netflix - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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