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    Uma imodesta proposta

    Quando a mídia começou a divulgar o comunicado de Cristiano Ronaldo , fiquei muito zangado. Era para mim evidente que o texto só podia ser falso. Alguém tinha tido a divertidíssima ideia de o enviar para as Redações, fingindo ser da autoria de Cristiano Ronaldo. Leia mais (10/10/2026 - 12h00)

    Folha de S.Paulo
    10 de outubro de 2026 às 15:00
    Uma imodesta proposta
    Desenho em preto e branco, mostrando dois jogadores de futebol em destaque. À esquerda está Cristiano Ronaldo, representado usando uma camisa de futebol com o escudo do Real Madrid. Ele está de pé, com o tronco levemente inclinado, uma das — Foto: Folha de S.Paulo

    Humorista, membro do coletivo português Gato Fedorento. É autor de “Boca do Inferno”

    Texto cômico, geralmente sobre um tema atual

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    Ilustração de Luiza Pannunzio para coluna de Ricardo Araújo Pereira de 11 de outubro de 2026 - Luiza Pannunzio/Folhapress · Luiza Pannunzio/Folhapress
    Ilustração de Luiza Pannunzio para coluna de Ricardo Araújo Pereira de 11 de outubro de 2026 - Luiza Pannunzio/Folhapress · Luiza Pannunzio/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Quando a mídia começou a divulgar o comunicado de Cristiano Ronaldo , fiquei muito zangado. Era para mim evidente que o texto só podia ser falso. Alguém tinha tido a divertidíssima ideia de o enviar para as Redações, fingindo ser da autoria de Cristiano Ronaldo.

    E eu fiquei zangado porque gostaria muito de ter tido aquela ideia. Estava perfeito porque, sendo ridículo, ainda assim era crível.

    Imagens do jogador Cristiano Ronaldo
    Imagens do jogador Cristiano Ronaldo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quando Jonathan Swift , na célebre "Uma Modesta Proposta", sugere, como solução para a pobreza, que os pobres vendam os seus bebês aos ricos, para que estes os comam, a gente percebe imediatamente que é sátira. São ótimos em fricassé, diz ele. É muito engraçado, mas o exagero denuncia-o.

    Só que o comunicado estava escrito com uma contenção admirável. Ronaldo dizia que tinha validado um documento para Jorge Jesus recitar na entrevista coletiva. "Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo", pretendia ele que o técnico dissesse.

    Um humorista menos hábil talvez tivesse acrescentado Jesus Cristo à lista. Ou, por exemplo, quando exigia que o treinador anunciasse aos jornalistas: "Eu quero o Cristiano na seleção nacional. Aliás, não quero pouco, quero muito." Era brilhante. Tão grotesco, sem deixar de manter o tom lacônico.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas depois, para minha surpresa, Ronaldo publicou o comunicado nas suas redes sociais. Era mesmo verdade. O capitão da seleção portuguesa tinha abandonado a concentração na véspera de um jogo, dizendo que, a seu tempo, explicaria as razões.

    Só poderiam ser muito graves para justificar uma atitude daquelas. Eu não esperava menos do que um incidente intolerável. Imaginei que Ronaldo viesse revelar "eu estava tomando banho, no vestiário, e Jorge Jesus apareceu, vestido com a camisa do Messi, e apalpou-me a bunda". Era impossível que fosse menos escandaloso do que isto.

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    Mas o comunicado confirmava que Ronaldo tinha ido para casa porque o treinador não o colocara em campo, depois de ter estado se aquecendo. E tinha recusado fazer-lhe os elogios que Ronaldo lhe entregara.

    É extraordinário. Ronaldo passou a carreira obrigando os outros a reconhecerem a sua grandeza por meio das façanhas em campo. Agora quer forçá-los a fazê-lo por meio da leitura de um roteiro. É muito triste —e, por isso, muito engraçado.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ricardo-araujo-pereira/2026/10/uma-imodesta-proposta.shtml.

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    Ilustração de Luiza Pannunzio para coluna de Ricardo Araújo Pereira de 11 de outubro de 2026 - Luiza Pannunzio/Folhapress · Luiza Pannunzio/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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