Brasil

    Uma hora as pessoas param de te olhar

    Minha mãe é a mulher mais bonita que eu já conheci. Um dia ela chegou em casa chorando, tinha 53 anos, e me disse: uma hora as pessoas param de te olhar. Leia mais (08/27/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    28 de agosto de 2026 às 02:00
    Uma hora as pessoas param de te olhar
    Mulher loira com vestido preto observa seu rosto no retrovisor lateral prateado de um carro vermelho. Ela toca o rosto com a mão direita, em ambiente interno com iluminação artificial. — Foto: Folha de S.Paulo

    Escritora e roteirista de cinema e televisão, autora de “Depois a Louca Sou Eu” e "A Boba da Corte"

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Mulher se olha no retrovisor de uma carro, em São Paulo - Nelson Almeida - 23.out.12/AFP · Nelson Almeida - 23.out.12/AFP
    Mulher se olha no retrovisor de uma carro, em São Paulo - Nelson Almeida - 23.out.12/AFP · Nelson Almeida - 23.out.12/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Minha mãe é a mulher mais bonita que eu já conheci. Um dia ela chegou em casa chorando, tinha 53 anos, e me disse: uma hora as pessoas param de te olhar.

    Seguia belíssima, charmosa, gata mesmo. Mas me contou que olhou um homem bonito no trânsito, os dois parados no sinal vermelho, e, pela primeira vez, em vez de um sorriso lascivo, recebeu uma cara de desinteresse com notas de escárnio.

    A partir daquele dia, mamãe meteu uma tristeza eterna no rosto e eu, muito moderna e feminista , a recriminei fortemente. Que absurdo! Que bobagem! Serei uma pessoa dos livros e uma pessoa dos livros não se importa com nada disso! Pois bem. Não era um absurdo. A mulher sabe quando param de olhar pra ela e, nada a ver com machismo ou feminismo ou livros, isso dói bastante.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Faz uns três meses me tornei invisível ao entrar em restaurantes ou ao tentar colocar uma mala muito pesada no compartimento superior de um avião. Eu ali terminando de rasgar minha L3 e absolutamente invisível. Meu feminismo é contra o camarada que bate na mulher, humilha a mulher, paga mal a mulher, não celebra as vitórias da mulher, mas pode me ajudar segurando a porta do elevador se eu estiver com 56 sacolas, tá? Penso que aos 80 anos talvez eu volte a ser cortejada. Nunca vi uma velhinha carregando sacolas de supermercado passar batido.

    Faz exatamente três meses me tornei invisível. Sei certinho a data porque há três meses eu fui a um show e chamei muita atenção. Eu precisei rebolar a ponto de desgraçar minha lombar e necessitar de sete meses de fisioterapia. Mas deu certo. Bem, pensando agora, talvez estivessem reparando como meu rebolado parece desenhar uma cobra manca no ar, por conta da minha escoliose com lordose. Talvez estivessem me observando como a gente observa briga ou acidente.

    Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha

    Voltei ao meu oftalmologista. Ele disse que não faz bem ao meu envelhecimento (péssima frase, sobretudo nesse momento) que eu apareça no consultório dele várias vezes por ano: "A gente já aumentou seu grau recentemente, se ele aumentou de novo, valeria esperar até 2027, ou você não força seus olhos a verem". Mas eu não quero forçar meus olhos a verem que as pessoas pararam de me olhar.

    Eu não chamo mais a atenção de homens e mulheres e crianças e velhos e cachorros. Eu gostava do efeito. Expliquei ao oftalmologista que eu estava lá para voltar para o meu grau antigo, aquele que me fazia achar, há três meses, que eu ainda estava arrasando. Provavelmente estavam olhando através de mim, para qualquer coisa que se movesse de forma mais serelepe e juvenil.

    Minha autoestima vale milhões. Fui feia na época da escola, segui semifeia na faculdade e me tornei uma jovem profissional com passabilidade de bonitinha. Aos 40, mesmo ganhando dez quilos, provei meu auge. Passei o rodo em todos esses lugares e em todas essas gloriosas décadas. E agora o quê? Acabou? Me recuso.

    Notei uma coisa interessante. Por um longo período na vida eu performei um semblante de enfado. Aquela carinha escrota que mulher mete na fuça quando acha que está sendo observada. "Ai gente, apenas parem tá? Tô de boas aqui, com minha roupinha de ficar em casa". Mas há uns anos eu passei a sorrir mais. Chego a qualquer aniversário ou evento ou reunião muito queridona. E isso quer dizer que envelheci. Outro dia tentei fazer a cara de enfado e me ofereceram um remédio chamado Motillium.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatibernardi/2026/08/uma-hora-as-pessoas-param-de-te-olhar.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    Mulher se olha no retrovisor de uma carro, em São Paulo - Nelson Almeida - 23.out.12/AFP · Nelson Almeida - 23.out.12/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)