Uma em cada 60 pessoas agora está infectada com HIV, enquanto a crise de drogas alimenta o surto nesse pequeno país insular
Crescimento de casos impulsionado pelo uso de metanfetamina e sexo desprotegido preocupa autoridades de Fiji, no Pacífico

A pequena nação insular de Fiji, no Pacífico, declarou estado de emergência nacional em relação ao HIV , em meio a um aumento expressivo no número de casos, impulsionado em parte pelo crescente problema do uso de metanfetamina.
Estima-se que um em cada 60 adultos no arquipélago, com menos de um milhão de habitantes, seja portador de HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) , contrariando uma tendência global de queda nas taxas desse vírus incurável, porém tratável.
Conhecido por sua cultura acolhedora, praias de areia branca e recifes de coral repletos de vida, Fiji declarou o surto do vírus pela primeira vez em janeiro de 2025 e intensificou os testes, revelando a dimensão da crescente crise de saúde pública.

Ao declarar o estado de emergência na terça-feira, o Ministro da Saúde, Dr. Atonio Lalabalavu, afirmou que o país registrou 2.060 novos diagnósticos de HIV em 2025, considerando isso um sinal da “gravidade da epidemia e da resposta urgente e coordenada que nosso país precisa agora”.
A epidemia atingiu os recém-nascidos do país, com um bebê de dois meses se tornando o paciente mais jovem identificado vivendo com HIV e tuberculose, informou a Save the Children Fiji esta semana. O HIV ataca o sistema imunológico e facilita a contração da TB. No ano passado, 59 bebês contraíram HIV de suas mães, disse a organização.
Há cinco anos, estimava-se que um em cada 167 fijianos vivia com HIV. Mas, nos últimos anos, Fiji tem visto um aumento no uso de drogas injetáveis, à medida que as ilhas se tornaram um ponto de trânsito crucial para narcóticos traficados das Américas para mercados lucrativos na Austrália, Nova Zelândia e partes da Ásia.

Isso, juntamente com a persistente transmissão sexual impulsionada pelo baixo uso de preservativos e pelo estigma, tornou o surto difícil de combater.
As estatísticas alarmantes não captam a dimensão total da crise, afirmou Renata Ram, assessora do UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS) em Fiji.
“O que mais me preocupa é a velocidade da epidemia e o número de pessoas que podem estar vivendo com HIV sem saber”, disse Ram à CNN.

Apenas cerca de 39% das pessoas que vivem com HIV em Fiji sabem que são portadoras do vírus, e menos de um quarto (22%) estão em tratamento, disse Ram.
Sem tratamento, o vírus pode evoluir para a AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), tornando o organismo altamente suscetível a doenças fatais e cânceres.
Segundo as estatísticas nacionais de saúde, Fiji registrou 117 mortes relacionadas ao HIV em 2025, um aumento em relação às 25 registradas em 2021.

A crise do HIV em Fiji é causada por múltiplos fatores, "mas o uso de drogas injetáveis tornou-se uma importante via de transmissão, que está se expandindo rapidamente", disse Ram, acrescentando que é comum compartilhar agulhas.
Grandes estoques de metanfetamina contrabandeados para as ilhas por cartéis infiltraram-se nas comunidades locais, provocando uma crise generalizada de dependência e sobrecarregando o sistema de saúde local.
Em 2025, pessoas que injetam drogas representaram aproximadamente metade dos novos casos de HIV em Fiji, nos quais um modo de transmissão foi identificado, enquanto a outra metade contraiu o vírus por transmissão sexual, de acordo com as estatísticas nacionais de saúde.

Ram afirmou que o baixo uso de preservativos, múltiplos parceiros sexuais, testes limitados e estigma são fatores que contribuem para o problema.
O HIV se transmite pela troca de fluidos corporais de uma pessoa infectada para a corrente sanguínea de uma pessoa não infectada.
Uma em cada 50 mulheres grávidas em Fiji está infectada com o vírus, afirmou Lalabalavu, ministro da Saúde. Mães infectadas também podem transmitir o HIV para seus bebês durante a gravidez, o trabalho de parto, o parto e a amamentação.

A crescente epidemia em Fiji contraria a tendência global, onde foram alcançados enormes progressos na luta contra o HIV.
A UNAIDS estima que o número de novas infecções por HIV em todo o mundo tenha diminuído em cerca de 42% entre 2010 e 2025, disse Ram.
“Fiji registrou um aumento extraordinário praticamente no mesmo período”, disse Ram.

A baixa taxa de pessoas que recebem tratamento em Fiji também contrasta com a média global, onde 78% das pessoas com HIV têm acesso ao tratamento.
O HIV “não é apenas uma questão de saúde”, disse Joeli Colati, diretor executivo da Fiji Network Plus, uma organização comunitária que apoia e defende os direitos das pessoas que vivem com HIV.
“Também está ligado ao estigma, à pobreza, aos transportes, à confidencialidade e ao medo.”

Colati, que vive com HIV há 19 anos, disse que existem muitos motivos pelos quais alguém pode hesitar em buscar tratamento.
“Nem sempre o motivo é que a pessoa não quer fazer o tratamento”, disse ele. “Pode ser medo de ser reconhecida na clínica de HIV.”
Fiji é uma sociedade profundamente religiosa, onde o sexo pré-marital ou casual é geralmente considerado tabu.

Colati afirmou que também existe uma grande lacuna de informação sobre o HIV em Fiji, com muitas pessoas sem entender como o vírus é transmitido ou quão eficaz pode ser o tratamento.
Em seu discurso de terça-feira, Lalabalavu afirmou que Fiji agirá "rapidamente" para responder à emergência, ampliando os testes, o tratamento e o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP) – um medicamento preventivo – além de introduzir um programa formal de distribuição de agulhas e seringas.
“Peço a todos que possam ter sido expostos ao HIV, inclusive por meio do compartilhamento de agulhas ou outros equipamentos de injeção, ou por relações sexuais sem preservativo, que façam o teste. Não esperem até se sentirem mal.”

Lalabalavu também incentivou os fijianos a não envergonharem, excluírem ou ameaçarem ninguém por causa de seu status de HIV, dizendo que "o estigma afasta as pessoas dos próprios serviços que podem ajudá-las".
Colati disse que sabe em primeira mão o que “tratamento, apoio e esperança podem fazer”.
“Por favor, não deixe que o medo tome decisões por você”, disse ele. “Saber seu status de HIV lhe dá o poder de fazer algo a respeito.”






Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/saude/uma-em-cada-60-pessoas-agora-esta-infectada-com-hiv-enquanto-a-crise-de-drogas-alimenta-o-surto-nesse-pequeno-pais-insular/.

Uma equipe do programa Moonlight da Medical Services Pacific oferece testes gratuitos de HIV durante uma visita de assistência a um bairro de Suva, Fiji, em 19 de março de 2026. • AFP/Getty Images · • AFP/Getty Images — Foto: CNN Brasil
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