Brasil

    Uma democracia precisa ser adulta

    José e Maria são gêmeos de 3 anos. Maria está brincando com uma boneca, que José gostaria de pegar e atirar pela sala sem parar. Só por diversão. Leia mais (09/22/2026 - 21h10)

    Folha de S.Paulo
    23 de setembro de 2026 às 00:10
    Uma democracia precisa ser adulta
    Homem de terno escuro e gravata vermelha fala gesticulando com a mão direita em audiência pública. Ao fundo, várias pessoas sentadas observam atentamente, incluindo homens e mulheres de diferentes idades e etnias. — Foto: Folha de S.Paulo

    Economista, é professora emérita de economia e história na Universidade de Illinois, em Chicago

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    O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, em sessão do Parlamento em que responde aos deputados - 9.set.26/Parliamentary Recording Unit (PRU) via AFP · 9.set.26/Parliamentary Recording Unit (PRU) via AFP
    O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, em sessão do Parlamento em que responde aos deputados - 9.set.26/Parliamentary Recording Unit (PRU) via AFP · 9.set.26/Parliamentary Recording Unit (PRU) via AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    José e Maria são gêmeos de 3 anos. Maria está brincando com uma boneca, que José gostaria de pegar e atirar pela sala sem parar. Só por diversão.

    Ele diz: "Me dá!". Maria diz: "Não!". Ele se vira para a mãe e diz: "Mamãe, mande a Maria me dar a boneca!". A mãe diz: "Não, José. A boneca é da Maria". José está prestes a simplesmente agarrar a boneca, mas tem outra ideia: "Maria, eu te empresto meu caminhãozinho se você me deixar brincar com sua boneca". Maria concorda, e a brincadeira continua tranquilamente.

    Ou seja, um cidadão roubar de outro é ruim. Apelar ao Estado para roubar de um cidadão para dar a outro também é ruim. O que é bom? A troca voluntária.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Todas as quartas-feiras, das 12h às 12h30, o primeiro-ministro do Reino Unido tem que responder a perguntas de outros membros do Parlamento. Quando ele se esquiva de uma pergunta, os deputados gritam ou riem de forma zombeteira. É glorioso, vindo do lugar, com todas as suas tradições excêntricas, que nos deu nossas liberdades.

    Às vezes, são questões sérias sobre políticas para a nação, como "o Reino Unido deve se juntar aos EUA no bombardeio ao Irã?". Mas, ouvindo uma sessão recente, me ocorreu que a grande maioria das perguntas é como José pedindo à mãe para dar-lhe a boneca de Maria.

    O parlamentar de Durnford perguntará, sempre se dirigindo ao presidente da Câmara, para evitar insultos e confrontos diretos: "Senhor presidente, o primeiro-ministro ordenará ao seu ministro dos Transportes que dê a Durnford uma nova rodovia?", ou "Senhor presidente, o primeiro-ministro providenciará proteção tarifária para impedir que os britânicos comprem de estrangeiros o que produzimos em Durnford?".

    Para obter o dinheiro para a nova estrada, alguém precisa ser coagido a pagar impostos. Para a proteção contra a concorrência, alguém precisa ser coagido a não comprar no exterior.

    É claro que os apelos aos poderes coercitivos do governo de Sua Majestade surgem da democracia. Os membros do Parlamento são eleitos e querem manter seus cargos. Os eleitores, como crianças de 3 anos, esperam que seus representantes eleitos consigam favores do governo. A boneca de Maria.

    Em 3 de novembro de 1774, o grande parlamentar conservador quase liberal Edmund Burke proferiu seu imortal "Discurso aos eleitores de Bristol".

    Ele respondia uma alegação de seu oponente na eleição de que um deputado deve ser, como demonstra a maioria dos deputados na Sessão de Perguntas, mero servo das opiniões que interessam aos eleitores.

    Burke disse: "Seu representante deve a vocês não apenas seu trabalho, mas também seu julgamento; e ele os trai, em vez de servi-los, quando o sacrifica à sua opinião. [...] O Parlamento é uma assembleia deliberativa de uma nação, com um único interesse, o de todos; que não deve se guiar pelos propósitos locais, nem pelos preconceitos locais, mas sim pelo bem geral, resultante da razão geral de todos".

    Como podemos conciliar democracia com liberalismo? Cresçam. Tornem-se adultos éticos, não crianças de 3 anos. Parem de esperar tudo do Estado. Parem de apelar para a mamãe por qualquer coisa além da justiça na visão dela. Não pela boneca da Maria.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/deirdre-nansen-mccloskey/2026/09/uma-democracia-precisa-ser-adulta.shtml.

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    O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, em sessão do Parlamento em que responde aos deputados - 9.set.26/Parliamentary Recording Unit (PRU) via AFP · 9.set.26/Parliamentary Recording Unit (PRU) via AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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