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    Um pacto em ruínas

    Quando, rompendo o pacto de silêncio dos ministros do STF , André Mendonça escancara a extensão das relações de Alexandre de Moraes com Vorcaro , ele esgarça o tecido de outro pacto, bem maior, costurado entre os três Poderes. Involuntariamente, talvez, seu gesto de transparência mina a conciliação pelo alto destinada a preservar o edifício de privilégios ilegais erguido nos governos Bolsonaro e Lula 3. Leia mais (09/04/2026 - 15h31)

    Folha de S.Paulo
    4 de setembro de 2026 às 18:31
    Um pacto em ruínas
    Cinco homens sentados em bancada de tribunal com microfones e documentos. Bandeira do Brasil ao fundo em parede de pedra clara com nichos. Ambiente formal e institucional. — Foto: Folha de S.Paulo

    Sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP

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    Os ministros Flávio Dino, André Mendonça, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, participam de sessão do STF - Pedro Ladeira - 3.set.26/Folhapress · Pedro Ladeira - 3.set.26/Folhapress
    Os ministros Flávio Dino, André Mendonça, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, participam de sessão do STF - Pedro Ladeira - 3.set.26/Folhapress · Pedro Ladeira - 3.set.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quando, rompendo o pacto de silêncio dos ministros do STF , André Mendonça escancara a extensão das relações de Alexandre de Moraes com Vorcaro , ele esgarça o tecido de outro pacto, bem maior, costurado entre os três Poderes. Involuntariamente, talvez, seu gesto de transparência mina a conciliação pelo alto destinada a preservar o edifício de privilégios ilegais erguido nos governos Bolsonaro e Lula 3.

    A espada do impeachment levantou-se sobre os juízes de capa preta na hora em que, graças aos benditos vazamentos, emergiram os indícios da teia de negócios de Moraes e Toffoli com o Sistema Vorcárico. O STF reagiu ignorando os fatos, ameaçando os vazadores e, apostando no corporativismo, pela legalização dos benefícios pecuniários inconstitucionais da magistratura.

    Mas, sobretudo, ciente de que a melhor defesa é o ataque, o tribunal supremo avançou rumo às muralhas do castelo do Congresso. A cruzada cenográfica de Flávio Dino contra as emendas parlamentares nunca buscou destruir o poder dos parlamentares de subverter a ordem orçamentária. Sua finalidade era mostrar que o STF também possui uma espada letal, de modo a empurrar os rivais à mesa de negociação.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A lei? Ora, a lei. Numa ponta, a impunidade absoluta dos juízes de capa preta mais os penduricalhos da magistratura. Na outra, a sacralização da prerrogativa dos congressistas de desviar dinheiro público a suas bases eleitorais. Selou-se a grande barganha por meio de um contrato de garantia futura: a aliança política entre a esquerda e o centrão, expressa na adesão de Hugo Motta e Davi Alcolumbre à reeleição de Lula.

    A extrema-direita foi convidada a juntar-se ao pacto das elites, pela adição de uma cláusula de anistia parcial e condicional. Mas a exigência maximalista do bolsonarismo de anistia irrestrita, um excesso inaceitável para o STF e o Planalto, travou o acordo e acelerou a marcha do centrão à candidatura de Lula. Flávio condenou-se a seguir sozinho, amparado por sua horda de fanáticos, confiando nos efeitos eleitorais da desmoralização geral das instituições.

    Todo o arranjo da conciliação das elites dependia, porém, da proteção de cada um dos protagonistas da captura estatal pelo Sistema Vorcárico. O manto do segredo judicial formou uma barreira de contenção ao redor de Flávio, permitindo-lhe proclamar que o caso Dark Horse "ficou no passado" , e de Ciro Nogueira , líder parlamentar do escroque das finanças. O silêncio cúmplice dos juízes de capa preta operou como guarda-costas de Moraes e Toffoli. A prevaricação de uma PGR submissa ao STF, regada a uísque e charutos vorcáricos, fechou o perímetro de segurança. Agora, uma peça fundamental desabou.

    Na tripla condição de amigo do peito, conselheiro especial e advogado honorífico de Vorcaro, Moraes enriqueceu ao longo de poucos anos. Fim da linha: diante dos " sérios elementos de fatos " (apud Fachin), que se tornaram públicos, um percurso se completa. Mas há uma lógica implacável em curso: a queda de Moraes inviabiliza a proteção a Toffoli, Flávio e Ciro. E, sem ela, a sombra da ruína desce sobre o pacto dos Poderes.

    O patético contra-ataque de Moraes, que se destina a ocultar a questão de fato, é uma tentativa de salvar-se a si próprio e, no fim, de colar com saliva os fragmentos do cálice despedaçado. Não vai dar certo.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2026/09/um-pacto-em-ruinas.shtml.

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