Um café gelado deveria mesmo lhe custar o emprego?
Qual é a grande questão de hoje na linha de frente do mercado de trabalho ? IA, talvez ? Recém-formados desempregados ? Ou por que pessoas de meia-idade não conseguem uma vaga ? Isso é tão semana passada. Já passamos a uma questão mais urgente: é aceitável levar um café gelado para uma entrevista de emprego? Leia mais (10/05/2026 - 13h00)

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Jornalista de comportamento e mercado de trabalho do Financial Times
Qual é a grande questão de hoje na linha de frente do mercado de trabalho ? IA, talvez ? Recém-formados desempregados ? Ou por que pessoas de meia-idade não conseguem uma vaga ? Isso é tão semana passada. Já passamos a uma questão mais urgente: é aceitável levar um café gelado para uma entrevista de emprego?
Uma recrutadora com 16 anos de experiência em contratações para "empresas extremamente formais" foi ao TikTok esta semana reclamar dos candidatos que aparecem com um café na mão, como se a entrevista fosse apenas uma parada rápida entre uma ida à Target, à Starbucks e outros compromissos do dia.

"Para mim, parece informal demais... Não entre na entrevista todo descontraído, com um café gelado", disse Caitlin Wehniainen, da empresa americana On Cue Hire. Em uma janela curta de 30 a 35 minutos, observou ela, a percepção é importante.
As opiniões sobre o DCG (debate do café gelado ) foram exaltadas e rápidas —o que talvez explique a pontuação. "Mas uma entrevista É apenas uma parada no meu dia. Não é o meu dia inteiro", escreveu uma pessoa. "Sempre me ofereceram café nas entrevistas, mas é desrespeitoso levar o meu? Que estranho", disse outra. "Como millennial, posso pedir que deixemos para trás as regras estranhas que os boomers e a geração X nos impuseram? Entrevistas já são estressantes o bastante."
Minha reação inicial foi diferente. Uma entrevista? Parabéns! O contato de quem procura emprego com seres humanos de carne e osso parece cada vez mais raro, ofuscado por robôs que vasculham currículos em busca de palavras-chave e por triagens feitas por avatares on-line. Encontrar uma pessoa de verdade parece motivo de comemoração —talvez até com uma bebida gelada mais sofisticada?

O trabalho é uma fonte recorrente de conteúdo viral no TikTok. Entre os maiores sucessos anteriores da geração Z estão o "quiet quitting" —limitar-se à jornada contratada, em vez de fazer horas extras não remuneradas— e o "lily padding" —pular de emprego em emprego.
Wehniainen afirma que a "intensidade da reação" mostra "como o mercado de trabalho parece estressante neste momento". Uma dica que pretendia ser útil acabou parecendo mais um fardo para os candidatos.
Em certo nível, o DBG é de uma estupidez inacreditável. Mas o trabalho também é de uma estupidez inacreditável, repleto de mesquinharias e supostas ofensas. Gestos podem salvar ou arruinar um dia. Um amigo recusou um cargo de alto escalão porque os entrevistadores, segurando canecas de café quente, não lhe ofereceram uma xícara.
Louise Ashley, professora associada da Queen Mary Business School e pesquisadora de mobilidade social, vê o "DBG" como "uma dessas coisas que parecem incrivelmente pequenas", mas que também são "bastante enormes", porque revelam algo sobre "todas as minúsculas regras não escritas que usamos para decidir se alguém parece profissional".
Obviamente, não existe uma regra que diga: "Não entrarás em uma entrevista carregando um latte gelado", observa ela. No entanto, se isso faz o candidato parecer informal demais, os entrevistadores estão "reconhecendo que a adequação de um candidato à vaga é avaliada tanto por medidas objetivas de talento quanto pelo fato de ele saber se portar corretamente na ocasião".
Isso também ressalta a questão da classe social e do capital social. "Os ambientes de trabalho profissionais estão cheios de regras que raramente são escritas. Se você cresceu cercado de profissionais, é mais provável que tenha assimilado essas regras. Outras pessoas precisam descobri-las por conta própria —e podem errar."
Há ainda uma complexidade adicional, diz ela: também há "status em parecer descontraído, seguro de si e até ligeiramente desinteressado —algo como: ‘É claro que eu gostaria do emprego, mas todo o meu futuro não depende de consegui-lo’".
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Na era da IA, argumenta-se que os locais de trabalho clamam pela singularidade dos seres humanos — aqueles capazes de contestar, trazer algo diferente, pensar fora da caixa e assim por diante. Na minha experiência, os empregadores acham que gostam dessas coisas, mas, na realidade, muitas vezes preferem quem se encaixa nos padrões.
O DBG também lança luz sobre o eterno viés de "sempre achar que a geração mais recente de jovens é a pior de todos os tempos", segundo Bobby Duffy, autor de The Generation Myth. Ele destaca o trabalho do sociólogo industrial Michael Rose, que escreveu no início da década de 1980 sobre a visão dos chefes de que os jovens daquela época —os baby boomers— tinham menos motivação e profissionalismo do que as gerações anteriores. Em outras palavras, "olhamos para trás com lentes cor-de-rosa, lembrando como éramos ótimos [e] sérios quando jovens", diz Duffy.
Sem dúvida, amanhã as redes sociais já terão passado a uma nova divisão no ambiente de trabalho: almoçar à mesa, talvez? Usar fones de ouvido ou não?
Talvez todos nós devêssemos assistir ao episódio final da excelente série documental 70 Up, que acompanhou um grupo diverso de britânicos dos sete aos 70 anos. Enquanto assistia, fiquei impressionada com a avaliação que os participantes faziam da própria vida: a maioria se concentrava nos relacionamentos, e não no trabalho. Certamente não houve menção a entrevistas malsucedidas, nem sequer a bebidas à base de café. Essa perspectiva foi um bálsamo. Bem, até alguém me ignorar no corredor ou se esquecer de responder ao meu email.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/10/um-cafe-gelado-deveria-mesmo-lhe-custar-o-emprego.shtml.

Iced Vanilla da The Coffee - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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