Um cacique contra tempestades
Publicado no Diário Oficial, um acordo entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Fundação Cacique Cobra Coral despertou o troll das redes sociais. No caso, a trollagem é máscara pública do senso comum quando se trata do sobrenatural popular, fora do escopo oficial. Para o melhor juízo, é perfeitamente natural o sobrenatural da religião (católica, evangélica, islâmica), não qualquer outro que se candidate à crença. O "creio porque é absurdo", relativo à ressurreição de Cristo, vigora até hoje, desde a sua sugestão por Tertuliano (155-220). Absurdo ("ineptus", em latim), com o sentido de não raci

Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”
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Publicado no Diário Oficial, um acordo entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Fundação Cacique Cobra Coral despertou o troll das redes sociais. No caso, a trollagem é máscara pública do senso comum quando se trata do sobrenatural popular, fora do escopo oficial. Para o melhor juízo, é perfeitamente natural o sobrenatural da religião (católica, evangélica, islâmica), não qualquer outro que se candidate à crença. O "creio porque é absurdo", relativo à ressurreição de Cristo, vigora até hoje, desde a sua sugestão por Tertuliano (155-220). Absurdo ("ineptus", em latim), com o sentido de não racional, tem dono teológico.
Mas não é propriedade consensual, tamanha a diversidade da fé. Quando 86% dos eleitores brasileiros opinam numa pesquisa recente que um candidato à Presidência deveria acreditar em Deus, se a resposta não é preconceituosa, vale para a divindade de todas as crenças. O acordo oficializado é, na verdade, renovação de um convênio de administrações anteriores do Instituto Geotécnico da Prefeitura com a organização mística. Desde 1931, a fundação oferece prestação gratuita de serviços que amenizariam a fúria dos elementos naturais, como tempestades e inundações. Isso, por ação sobrenatural de uma entidade denominada Cacique Cobra Coral, incorporado pela médium Adelaide Scritori.
Até aqui, o absurdo já arrepia as belas almas, senão o discurso cientificista que rege a formação do senso comum. O plus é que esse convênio não é exclusivo do Rio, por ser longa a lista de instituições, no Brasil e no exterior, que sempre solicitaram os préstimos do Cacique Cobra Coral. Ela inclui a realeza britânica, observatórios de prestígio, centros militares e administrações estatais. Os EUA e a Argentina mantinham acordos que acabam de ser cancelados pela fundação, como retaliação pela animosidade contra os brasileiros. O cacique é nacionalista.

"E agora, José?", perguntaria Drummond . "Sobrenatural de Almeida pede a palavra", responderia Nelson Rodrigues . Era um personagem, entidade invisível a cargo do absurdo no futebol. Explicar o inexplicável, tal o desafio que essa invenção literária hoje compartilharia com adeptos reais dos prodígios do cacique. O personagem jornalístico jamais chegou ao teatro de Nelson, mas há algo de teatral na atitude pública desses adeptos: a hipocrisia. É palavra complexa. "Hypokrites", no teatro grego da Antiguidade, era o ator que expressava, por meio da máscara de um personagem, sentimentos alheios à sua pessoa real. Hoje se aplica a quem finge certos valores e age de forma contrária. Ou então, quem diz o que não pensa, como no troll.
É o caso dos atores sociais que apelam aos serviços do Cacique Cobra Coral, enquanto o denegam publicamente. São reféns do embaraço ocidentalista presente em toda crença no sobrenatural, seja qual for a divindade: o cruzamento entre mito e história. Por isso, acredite quem quiser, sem culpa. O que aqui está em questão não é a veracidade do fenômeno, mas a contradição de todo fiel religioso que se pretenda absolutamente racional. Corajoso, no mínimo, é o ato da prefeitura: recusou oficialmente a hipocrisia oficial.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/muniz-sodre/2026/08/um-cacique-contra-tempestades.shtml.

Poste de sinalização derrubado por ventania em Botafogo, na zona sul do Rio - Eduardo Anizelli - 29.jul.26/Folhapress · Eduardo Anizelli - 29.jul.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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