Um bilhete para Lulu
O papelinho foi colocado de forma estratégica para ser encontrado facilmente, embaixo da carteira. Nele, uma ofensa amarga, crua e debochada, que vai direto ao coração e fica guardada por muitos anos na cachola, quiçá a vida inteira. Irreprodutível. Tinha também um recado para biscoita, minha filha, que chorou baixinho, reclamou, mas ficou mesmo aflita foi com o impacto que aquilo causaria em Lulu, sua amiga, menininha de uma beleza gostosa, com sobrancelhas marcantes, cabelos ondulados e uma formosura só dela. Leia mais (09/08/2026 - 15h21)

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O papelinho foi colocado de forma estratégica para ser encontrado facilmente, embaixo da carteira. Nele, uma ofensa amarga, crua e debochada, que vai direto ao coração e fica guardada por muitos anos na cachola, quiçá a vida inteira. Irreprodutível. Tinha também um recado para biscoita, minha filha, que chorou baixinho, reclamou, mas ficou mesmo aflita foi com o impacto que aquilo causaria em Lulu, sua amiga, menininha de uma beleza gostosa, com sobrancelhas marcantes, cabelos ondulados e uma formosura só dela.

"Não fica preocupada, não, Elis. Eu não ligo. Já me acostumei, não é a primeira vez", foi o relato dela, que fala calminho e troca graciosamente algumas letras. É diferente, é única, é um baú de aprendizados para qualquer amigo, para qualquer um que entendeu que a graça de viver está nas descobertas de possibilidades de ser feliz. "Já me acostumei" talvez seja a frase mais dolorosa de toda essa história. Nenhuma criança deveria precisar se acostumar a ser ferida. Há uma garota aprendendo a suportar algo que os adultos e a comunidade ao redor deveriam impedir ou ao menos se mobilizar pelo contrário. Crianças não aderem a valores humanos de forma automática, nem necessariamente com proximidade de exemplos –embora ajudem muito. Penso ser preciso ligá-los a sentimentos, a sensações e a afetos. Fazê-los germinar com troca de experiências, com escutas bem conduzidas, com práticas incansáveis de demonstrações de que o mundo é de todo mundo.
Há muito por trás de um recadinho sorrateiro cuja intenção foi claramente fazer bullying , agredir, zombar. Há, certamente, ecos em grupinhos ávidos por novidades no recreio, questões de caráter a serem enfrentadas pela escola, pela família em pelos muitos cantos da sociedade. A discussão não é nova, mas a crueldade das práticas escala em múltiplas plataformas. Do lado de cá, dos diferentões, defendo ter força para escancarar aquilo que nos é posto como estranho , ter o palco aberto, menos silenciado para questões que nos circulam sejam pelas neurodivergências, sejam pelas questões físicas ou sensoriais. Assim, vamos tirando o poder de agredir de algumas palavras e naturalizando para nós mesmos o que nos faz únicos. O preconceito causa uma dor que gruda na alma. Mas o bilhete que condiz verdadeiramente com Lulu é o que joga sobre ela uma chuva de sorrisos por tudo o que ela representa para quem atravessa sua existência.
E ela tem recebido esse outro recado. Juntou colegas e buscou evidências para denunciar a agressão na coordenação do colégio. Até chamaram uma reunião com os pais. Longe de fazer uma caçada aos brutos e brutas, que seja um espaço de bons pitacos para tentar lapidar seres em formação. Incansável formação. Que você, Lulu, nunca confunda a crueldade alheia com uma verdade a seu respeito. Desejo muito que os próximos bilhetes que encontrar dobrados debaixo da carteira digam aquilo que você merece: uma paquera de quem te goste, um desenho engraçado que te faça sorrir, um poeminha ou trecho de canção que faça do seu dia um lugar bem bonito e diferente.

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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/assim-como-voce/2026/09/um-bilhete-para-lulu.shtml.

Caixa de ajuda para que os alunos, sem precisar se identificar, possam expressar emoções, falar sobre situações conflituosas e até denunciar algo de errado vivido ou presenciado por eles 20.ago.25 - Lucas Seixas/Folhapress · Lucas Seixas/Fo — Foto: Folha de S.Paulo
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