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    Um ano depois, o retorno do multilateralismo

    Quem ouviu o discurso do presidente Donald Trump na Assembleia Geral da ONU , no ano passado, saiu com uma impressão clara: ele anunciava uma nova ordem mundial baseada na força e na ideia de que "a única coisa que resolve as guerras é a ação". Leia mais (10/01/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    2 de outubro de 2026 às 02:00
    Um ano depois, o retorno do multilateralismo
    O presidente dos Estados Unidos fala em púlpito da Assembleia Geral da ONU, com microfones e escudo da organização visível. Segurança em uniforme ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York - Angela Weiss - 22.set.26/AFP · Angela Weiss - 22.set.26/AFP
    O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York - Angela Weiss - 22.set.26/AFP · Angela Weiss - 22.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Advogado e vice-presidente de Programas da Open Society Foundations

    Quem ouviu o discurso do presidente Donald Trump na Assembleia Geral da ONU , no ano passado, saiu com uma impressão clara: ele anunciava uma nova ordem mundial baseada na força e na ideia de que "a única coisa que resolve as guerras é a ação".

    Essa visão se materializou no chamado Board of Peace (Conselho da Paz). Hoje, porém, o grupo está esvaziado, enquanto o Grupo de Haia , criado em resposta ao genocídio na faixa de Gaza , se consolidou como uma coalizão em defesa de um multilateralismo baseado em direitos, equidade e justiça.

    Líderes mundiais discursam na 81ª Assembleia Geral da ONU
    Líderes mundiais discursam na 81ª Assembleia Geral da ONU — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Trump voltou à Assembleia Geral para exaltar a primazia da força . O que mais chamou atenção, porém, foi seu isolamento diante do apoio crescente ao multilateralismo. O presidente Lula defendeu que a ONU volte a ser um "templo da paz" num momento decisivo de seus 81 anos.

    Até Trump parece reconhecer os limites da coerção: enquanto ameaçava destruir o Irã da tribuna, seus emissários negociavam com o chanceler iraniano Abbas Aragchi nos bastidores.

    Um ano depois de muitos anunciarem sua morte iminente, o multilateralismo parece renascer.

    Delegações de todo o mundo escutam o discurso do presidente dos EUA, Donald Trump, na Assembleia Geral da ONU, em Nova York - Shannon Stapleton - 22.set.26/Reuters · Shannon Stapleton - 22.set.26/Reuters
    Delegações de todo o mundo escutam o discurso do presidente dos EUA, Donald Trump, na Assembleia Geral da ONU, em Nova York - Shannon Stapleton - 22.set.26/Reuters · Shannon Stapleton - 22.set.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Isso não significa que a crise tenha passado. Persistem cortes de financiamento, violações de soberania, desprezo pelas regras da guerra, inação diante da emergência climática e concentração de poder econômico.

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    Mas esses desafios não são novos. A Guerra Fria foi marcada pelo bloqueio do Conselho de Segurança. O multilateralismo fracassou em impedir atrocidades em Ruanda e na Bósnia e Herzegovina , e os ecos da invasão do Iraque ainda ressoam na agressão russa à Ucrânia . A pandemia mostrou a interdependência dos problemas globais e a dificuldade de transformar solidariedade em ação.

    O secretário-geral da ONU, António Guterres, recebe aplausos após discursar na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York - Timothy A. Clary - 22.set.26/AFP · Timothy A. Clary - 22.set.26/AFP
    O secretário-geral da ONU, António Guterres, recebe aplausos após discursar na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York - Timothy A. Clary - 22.set.26/AFP · Timothy A. Clary - 22.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ao contrário da apreensão do ano passado, este ano revelou amplo apoio internacional à renovação do multilateralismo.

    A Assembleia Geral começou com o lançamento da Parceria pelo Multilateralismo , liderada por sete governos e pela União Europeia para reafirmar compromissos com instituições, normas e acordos internacionais. Como escreveram vários líderes, "a cooperação não é um ato de idealismo; é uma necessidade prática".

    Diante de uma crise global de segurança alimentar provocada pelo fechamento do estreito de Hormuz , pela guerra da Ucrânia e pelo El Niño , a questão já não é se o multilateralismo sobreviverá, mas como deverá se transformar para responder aos desafios do nosso tempo.

    Grande plenário da Assembleia Geral da ONU com centenas de delegados sentados em fileiras curvas. Paredes de madeira e painel artístico colorido ao fundo. Tela exibe orador em púlpito.
    Grande plenário da Assembleia Geral da ONU com centenas de delegados sentados em fileiras curvas. Paredes de madeira e painel artístico colorido ao fundo. Tela exibe orador em púlpito. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Dois deles se destacam: inteligência artificial e desigualdade.

    Os presidentes William Ruto, do Quênia , e Alexander Stubb, da Finlândia , lançaram a Iniciativa das Potências Médias para a Inteligência Artificial. Com Estados Unidos e China dominando a IA e poucas empresas concentrando poder tecnológico e influência política, o risco é reproduzir no ambiente digital velhas relações de dependência.

    Compartilhar infraestrutura computacional, bases de dados e talentos oferece uma alternativa baseada em soberania compartilhada e capacidades coletivas.

    Grande público sentado e em pé na Assembleia Geral da ONU em Nova York. No centro, três pessoas sentadas em púlpito verde com o emblema da ONU dourado ao fundo. Telões exibem imagens da mesa principal.
    Grande público sentado e em pé na Assembleia Geral da ONU em Nova York. No centro, três pessoas sentadas em púlpito verde com o emblema da ONU dourado ao fundo. Telões exibem imagens da mesa principal. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Também ganhou força a proposta de um Painel Internacional sobre Desigualdade. Inspirado no IPCC, o órgão reuniria evidências sobre desigualdades dentro dos países e entre eles e subsidiaria reformas financeiras, tributárias e de proteção social. Impulsionada por Brasil, Noruega , África do Sul e Espanha , a iniciativa busca agora uma resolução da Assembleia Geral.

    O futuro do multilateralismo não será decidido por uma única liderança, nem garantido por discursos ou novas iniciativas. Palavras precisam se traduzir em ação, sobretudo quando a potência hegemônica vê com desconfiança a transformação da ordem internacional.

    O que deu o tom desta Assembleia Geral não foi a defesa nostálgica das instituições do passado, mas a reivindicação de soberania, prosperidade compartilhada e maior distribuição de poder em favor do Sul Global.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Se o encontro do ano passado foi marcado pela sensação de uma morte anunciada, o deste ano apontou para algo diferente: diante dos desafios do século 21, agir sozinho já não é uma opção sustentável.

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    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/10/um-ano-depois-o-retorno-do-multilateralismo.shtml.

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