Um ano depois, o retorno do multilateralismo
Quem ouviu o discurso do presidente Donald Trump na Assembleia Geral da ONU , no ano passado, saiu com uma impressão clara: ele anunciava uma nova ordem mundial baseada na força e na ideia de que "a única coisa que resolve as guerras é a ação". Leia mais (10/01/2026 - 23h00)

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Advogado e vice-presidente de Programas da Open Society Foundations
Quem ouviu o discurso do presidente Donald Trump na Assembleia Geral da ONU , no ano passado, saiu com uma impressão clara: ele anunciava uma nova ordem mundial baseada na força e na ideia de que "a única coisa que resolve as guerras é a ação".
Essa visão se materializou no chamado Board of Peace (Conselho da Paz). Hoje, porém, o grupo está esvaziado, enquanto o Grupo de Haia , criado em resposta ao genocídio na faixa de Gaza , se consolidou como uma coalizão em defesa de um multilateralismo baseado em direitos, equidade e justiça.

Trump voltou à Assembleia Geral para exaltar a primazia da força . O que mais chamou atenção, porém, foi seu isolamento diante do apoio crescente ao multilateralismo. O presidente Lula defendeu que a ONU volte a ser um "templo da paz" num momento decisivo de seus 81 anos.
Até Trump parece reconhecer os limites da coerção: enquanto ameaçava destruir o Irã da tribuna, seus emissários negociavam com o chanceler iraniano Abbas Aragchi nos bastidores.
Um ano depois de muitos anunciarem sua morte iminente, o multilateralismo parece renascer.

Isso não significa que a crise tenha passado. Persistem cortes de financiamento, violações de soberania, desprezo pelas regras da guerra, inação diante da emergência climática e concentração de poder econômico.
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Mas esses desafios não são novos. A Guerra Fria foi marcada pelo bloqueio do Conselho de Segurança. O multilateralismo fracassou em impedir atrocidades em Ruanda e na Bósnia e Herzegovina , e os ecos da invasão do Iraque ainda ressoam na agressão russa à Ucrânia . A pandemia mostrou a interdependência dos problemas globais e a dificuldade de transformar solidariedade em ação.

Ao contrário da apreensão do ano passado, este ano revelou amplo apoio internacional à renovação do multilateralismo.
A Assembleia Geral começou com o lançamento da Parceria pelo Multilateralismo , liderada por sete governos e pela União Europeia para reafirmar compromissos com instituições, normas e acordos internacionais. Como escreveram vários líderes, "a cooperação não é um ato de idealismo; é uma necessidade prática".
Diante de uma crise global de segurança alimentar provocada pelo fechamento do estreito de Hormuz , pela guerra da Ucrânia e pelo El Niño , a questão já não é se o multilateralismo sobreviverá, mas como deverá se transformar para responder aos desafios do nosso tempo.

Dois deles se destacam: inteligência artificial e desigualdade.
Os presidentes William Ruto, do Quênia , e Alexander Stubb, da Finlândia , lançaram a Iniciativa das Potências Médias para a Inteligência Artificial. Com Estados Unidos e China dominando a IA e poucas empresas concentrando poder tecnológico e influência política, o risco é reproduzir no ambiente digital velhas relações de dependência.
Compartilhar infraestrutura computacional, bases de dados e talentos oferece uma alternativa baseada em soberania compartilhada e capacidades coletivas.

Também ganhou força a proposta de um Painel Internacional sobre Desigualdade. Inspirado no IPCC, o órgão reuniria evidências sobre desigualdades dentro dos países e entre eles e subsidiaria reformas financeiras, tributárias e de proteção social. Impulsionada por Brasil, Noruega , África do Sul e Espanha , a iniciativa busca agora uma resolução da Assembleia Geral.
O futuro do multilateralismo não será decidido por uma única liderança, nem garantido por discursos ou novas iniciativas. Palavras precisam se traduzir em ação, sobretudo quando a potência hegemônica vê com desconfiança a transformação da ordem internacional.
O que deu o tom desta Assembleia Geral não foi a defesa nostálgica das instituições do passado, mas a reivindicação de soberania, prosperidade compartilhada e maior distribuição de poder em favor do Sul Global.

Se o encontro do ano passado foi marcado pela sensação de uma morte anunciada, o deste ano apontou para algo diferente: diante dos desafios do século 21, agir sozinho já não é uma opção sustentável.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/10/um-ano-depois-o-retorno-do-multilateralismo.shtml.

O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York - Angela Weiss - 22.set.26/AFP · Angela Weiss - 22.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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