Turcos, brasileiros e um anel a nos conectar
Eu já estava a caminho do aeroporto, despedindo-me mais uma vez da Turquia . A contragosto, como sempre. Aí chegou o WhatsApp: "Já saiu do hotel? Chego em cinco minutos com o anel". Leia mais (09/09/2026 - 15h49)

Jornalista e apresentador, autor de “A Fantástica Volta ao Mundo”
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Eu já estava a caminho do aeroporto, despedindo-me mais uma vez da Turquia . A contragosto, como sempre. Aí chegou o WhatsApp: "Já saiu do hotel? Chego em cinco minutos com o anel".
Não podia perder aquele voo. Mesmo assim, pedi para o motorista retornar. Não era apenas um anel. Era um gesto de amizade e uma prova maior de que turcos e brasileiros nasceram para se dar bem.
Eu não ia a Istambul desde 2018 e estava com saudade de lá. Aí, recebi um convite irresistível. O hotel Casa Lavanda, na região de Şile, a uma hora de Istambul, me chamou para um encontro de chefs estrelados: Álvaro Clavijo, do El Chato, em Bogotá, e Emre Şem, do próprio Casa Lavanda.

Para quem gosta de uma mesa cosmopolita, esse era um evento imperdível, né? Além de uma desculpa excelente para voltar à Turquia. Seria uma viagem de reencontros. E também de novas amizades.
Primeiro curti dois dias em Istambul revendo os amigos, em especial minha "turma" do Grand Bazaar: Ismail e sua família que há séculos têm suas lojas naquele adorável labirinto comercial.
Depois, conheci Erim Leblebicioglu, que me abriu as portas da nova gastronomia turca. Seus restaurantes —NeoLokal (em Karaköy), Foxy (Nişantaşi) e Kontuar (Pera)— agitam as mesas istambulitas e serviram de introdução às delícias da Casa Lavanda.

Não sou de usar joias. Porém, visitando uma loja de design em Karaköy, onde comprei belas cerâmicas, a atendente me ofereceu a peça. Disse que não estava interessado.
Ela me mostrou a joia assim mesmo e me apaixonei. Só não era meu tamanho. Trocamos WhatsApp para o caso improvável de ela encontrar um anel que se encaixasse no meu dedo e não falamos mais.
Fui então para Şile aproveitar a Casa Lavanda. E, inevitavelmente, fiz mais amigos turcos por lá.

Por que inevitavelmente? Sempre que me perguntam que povo eu acho que mais se parece com o brasileiro, eu digo: o turco. Sim, somos diferentes em vários aspectos, na espiritualidade, nas tradições, na língua etc.
Mas há um calor humano na Turquia que nos conecta de uma maneira inesperada. Há o toque, o abraço, o sorriso, o aperto de mão —muita coisa em comum. E há a infinita solicitude, uma vontade de ajudar, que sempre me deixa emocionado.
Voltemos ao tal anel para te dar um exemplo vivo disso.

Três dias depois do episódio na loja, na data da minha partida, recebo uma mensagem: "Seu anel está pronto". Eu tomava café da manhã com meus novos amigos e contei a história. Um deles, Alp, imediatamente sugeriu: "Eu vou a Istambul para uma reunião, posso pegar para você".
Problema: como eu pagaria o anel? O link que a loja mandou não aceitava meu cartão brasileiro e começou então uma mobilização para concluir o pagamento.
Ekin, outro amigo, ofereceu seu cartão. Eu pagaria parte com euros que eu tinha, parte passando meu cartão no hotel. Em 15 minutos tudo estava resolvido e a confiança e amizade entre brasileiros e turcos, mais uma vez selada.

Quase desencontrei de Alp, que se atrasou um pouco em Istambul, mas como contei lá no início, tudo deu certo no final. E eu voltei para casa tão apaixonado pela Turquia como das outras vezes. Talvez até mais.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/zecacamargo/2026/09/turcos-brasileiros-e-um-anel-a-nos-conectar.shtml.

Salada de carpaccio e beterraba no hotel Casa Lavanda, na Turquia, a uma hora de distância de Istambul - set.26/Zeca Camargo · set.26/Zeca Camargo — Foto: Folha de S.Paulo
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