Tudo o que Waly Salomão dizia era manifesto, diz José Simão com livro sobre amigo
É certa convenção de escrita evitar usar exclamações em excesso. Esqueça isso. Como é seu costume, José Simão , colunista da Folha , enche "Waly Simão É uma Voz Alta" desses sinais, que no livro parecem mostrar a surpresa que sente ao revisitar as próprias memórias dos anos do desbunde. Leia mais (08/07/2026 - 10h00)

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É certa convenção de escrita evitar usar exclamações em excesso. Esqueça isso. Como é seu costume, José Simão , colunista da Folha , enche "Waly Simão É uma Voz Alta" desses sinais, que no livro parecem mostrar a surpresa que sente ao revisitar as próprias memórias dos anos do desbunde.

O projeto surgiu quando o jornalista e editor Matinas Suzuki Jr . convidou Simão a escrever sobre a sua amizade de quase quatro décadas com o poeta Waly Salomão, morto em 2003, para sua editora, a Casa Matinas, em outubro do ano passado. Daí então, Simão acordava todo dia por volta das 5h30 e gastava um tempo tentando pescar episódios do passado em sua memória.
"É um livro afetivo, feito das memórias do coração", afirma o escritor que, pouco afeito à burocracia das checagens, confiou nas suas lembranças. "Uma amiga minha diz que livro de lembranças é assim, você lembra até do que não aconteceu."
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O resultado é um mosaico de momentos, principalmente dos anos 1970, época de desbunde, mas também de enfrentamento à ditadura militar . "A vida me deu esse privilégio de ser amigo do Waly —e nós fomos amigos nos anos 1970, que foram o mel da vida", diz. "Eram os anos da rebeldia e do amor livre. Agora, nós éramos cabeludos, e cabeludo era sinônimo de subversivo na época. A gente tinha medo quando passava o camburão."
Foi no Rio de Janeiro que Simão conheceu o poeta de Jequié, no interior da Bahia, apresentado por Jorge Salomão, irmão de Waly e também poeta e compositor. Simão diz não lembrar ao certo em que momento os dois se tornaram tão próximos. Mas viraram um grude, como Simão escreve. Juntos, frequentavam o frisson das Dunas da Gal e de toda a efervescência cultural carioca e paulistana.
Entre as festas em casarões, idas à praia, shows e passeios registrados no livro, aparece um elenco de peso, figurado por gente como os poetas Torquato Neto e Antonio Cícero, os músicos Gal Costa , Maria Bethânia e Luiz Melodia e o artista plástico Hélio Oiticica .

Também está lá Marta Braga, viúva do poeta e hoje a grande preservadora de suas obras. "A única e extraordinária mulher que Waly teve por toda a sua vida", como está escrito. Carioca, economista, com cabelos "loiros como um trigal", elegante sem ser careta, ela conheceu Waly Salomão em Nova York. Com ele, teve dois filhos, Omar e Khalid.
Segundo Simão, foi voltando de Oiticica que Waly compôs sua obra mais conhecida, a letra da canção "Vapor Barato". Os dois desciam a ladeira da Gávea, na região sul do Rio, quando o poeta começou: "Oh, sim, eu estou tão cansado". O amigo então teria sugerido a menção ao casaco, ao estilo dos de general que Waly estava vestindo. No mar, passava um navio, que também acabou entrando para os versos. "Admiro toda a obra do Waly, mas eu prefiro ele letrista", diz Simão.
O Waly Salomão narrado por Simão vivia nesse estado de criação. Ligava de repente para os amigos e, sem dar nem oi, declamava seus mais novos versos, à espera de uma reação.

"Ele era extremamente alegre, detestava bode", diz o amigo. "Tinha uma bocarra muito linda e falava muito alto, para todo mundo ouvir —porque tudo o que ele dizia, na realidade, era um manifesto."
Apesar desse hábito perigoso de disparar manifestos em bom tom durante a ditadura militar, foi o porte de maconha que colocou o poeta atrás das grades por 18 dias, em janeiro e fevereiro de 1970, aos 26 anos. Trancado no pavilhão dois do presídio Carandiru, em São Paulo, escreveu seus "Apontamentos do Pav Dois" , publicados em 1972 no livro "Me Segura Qu’Eu Vou Dar um Troço". "Saindo do Carandiru, ele foi direto para minha casa, sentou no chão e leu", diz Simão.
Em certo episódio do livro, Simão relembra um episódio na casa de Kadije, irmã de Waly, em Jequié. Na época, o humorista namorava Antônio Salomão, sobrinho do amigo, e a mãe do rapaz não gostava do relacionamento. A mulher começou a criticar Simão e a influência dela sobre seu filho, ao que Waly confrontou: "Não admito que falem dele". "Era um amigo para sempre!", conclui o autor na passagem.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/tudo-o-que-waly-salomao-dizia-era-manifesto-diz-jose-simao-com-livro-sobre-amigo.shtml.

Veja fotos do poeta Waly Salomão — Foto: Folha de S.Paulo
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