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    Trumpistas usam derrotas da esquerda na América Latina para defender desmonte da ajuda externa

    O presidente dos Estados Unidos , Donald Trump , seu filho mais velho e influenciadores conservadores passaram a atribuir as vitórias eleitorais da direita na América Latina ao desmonte da agência americana de ajuda externa , sob o argumento de que recursos favoreciam partidos e governos de esquerda. Leia mais (10/08/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    9 de outubro de 2026 às 02:00
    Trumpistas usam derrotas da esquerda na América Latina para defender desmonte da ajuda externa
    Multidão densa em manifestação na rua, com várias bandeiras do Brasil e bonecos infláveis de figuras públicas, incluindo um com a imagem de Donald Trump segurando bandeiras dos EUA e do Brasil. — Foto: Folha de S.Paulo

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    O presidente dos Estados Unidos , Donald Trump , seu filho mais velho e influenciadores conservadores passaram a atribuir as vitórias eleitorais da direita na América Latina ao desmonte da agência americana de ajuda externa , sob o argumento de que recursos favoreciam partidos e governos de esquerda.

    Boneco inflável do presidente dos EUA, Donald Trump, segurando uma caricatura do presidente Lula preso, erguida durante protestos da direita no 7 de Setembro - Miguel Schincariol - 7.set.26/AFP · Miguel Schincariol - 7.set.26/AFP
    Boneco inflável do presidente dos EUA, Donald Trump, segurando uma caricatura do presidente Lula preso, erguida durante protestos da direita no 7 de Setembro - Miguel Schincariol - 7.set.26/AFP · Miguel Schincariol - 7.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A tese, porém, não tem comprovação e reforça acusações de interferência nas eleições brasileiras de 2022 já investigadas pela Folha , que não encontrou evidências para sustentá-las.

    A narrativa voltou a ganhar força após o primeiro turno das eleições brasileiras, no último domingo (4), e integrantes do movimento Maga (sigla em inglês para "faça a América grandiosa novamente") a tem difundido. Eles associam os resultados das urnas aos cortes promovidos pelo governo Trump na Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) em 2025.

    "Desde que desmantelamos a Usaid, a esquerda não ganhou uma única eleição presidencial na América Latina", escreveu Donald Trump Jr. em publicação mais tarde compartilhada pelo pai.

    Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno das eleições 2026
    Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno das eleições 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Bilhões em dinheiro dos contribuintes financiavam ONGs, programas de democracia e redes de ativistas que convenientemente sempre apoiavam o mesmo lado. Eles chamavam isso de ajuda, mas era interferência eleitoral", acrescentou o filho do republicano, que agradeceu a Elon Musk por ter exposto o suposto esquema.

    Ex-assessor especial de Trump e responsável pela atuação do extinto Departamento de Eficiência Governamental (Doge), Musk liderou a ofensiva contra a Usaid, marcada por cancelamentos de contratos, cortes de recursos e demissões em massa.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O argumento contraria o histórico político da agência, segundo especialistas ouvidos pela Folha . "É justamente o contrário", afirma Alex Main, pesquisador do CEPR (Centro de Pesquisa Econômica e Política), sediado em Washington, sobre a acusação de que a Usaid sustentava governos e movimentos de esquerda na América Latina.

    Criada em 1961, durante a Guerra Fria , a agência integrava a estratégia americana de conter a expansão do comunismo e fortalecer governos aliados na região e, portanto, foi agente de política externa de diferentes governos.

    Main diz que a maior parte dos recursos ia para programas humanitários e de desenvolvimento, mas os financiamentos políticos historicamente apoiavam organizações de direita e o enfraquecimento da esquerda.

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Como exemplos, cita o apoio não militar aos Contras, grupos paramilitares que combatiam o governo sandinista na Nicarágua nos anos 1980, e a assistência à oposição venezuelana liderada pelo presidente autodeclarado (e reconhecido pelos EUA) Juan Guaidó.

    Segundo Main, os programas humanitários também buscavam fortalecer aliados de Washington e reduzir o apelo da esquerda. "Há muitas explicações para os movimentos de esquerda terem perdido eleições nos últimos anos, mas a Usaid não é uma delas", afirma.

    "Quando olhamos para a parcela dos recursos destinada a programas de natureza mais política, há um padrão muito claro: esse financiamento vai, em grande medida, para organizações de direita ou para programas que buscam enfraquecer governos de esquerda", acrescenta.

    Andres Martinez-Fernandez, analista sênior da conservadora Heritage Foundation, atribui o avanço da direita à sua alegada dianteira em frentes como combate ao crime organizado e resposta à sensação de insegurança e à insatisfação econômica.

    Para ele, o resultado do primeiro turno no Brasil, inclusive, acompanha a tendência regional de fortalecimento de políticos conservadores e alinhados a Washington. "Estamos diante de um alinhamento importante e histórico", afirma, ao avaliar a possibilidade de maior aproximação entre Brasil, Argentina , Chile e EUA.

    A tese sobre a Usaid também ganhou espaço entre influenciadores conservadores americanos que acompanham a política brasileira. Benny Johnson, podcaster de direita , dedicou parte de seu programa de segunda-feira (5) a relacionar o desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro ( PL ) ao desmonte da agência.

    Em sua transmissão, Johnson classificou as eleições brasileiras como um "terremoto político". Ele se referiu ao pleito como uma disputa em que o presidente Lula ( PT ) "não tem mais dezenas de milhões de dólares de dinheiro operacional da Usaid sustentando ele e seus aliados".

    O programa teve como convidado Mike Benz, ex-integrante do Departamento de Estado e fundador da conservadora Foundation for Freedom Online. Ele afirmou que a Usaid financiava uma rede de instituições brasileiras, incluindo organizações da sociedade civil, universidades, veículos de comunicação e até pessoas ligadas ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Segundo ele, os recursos americanos teriam prejudicado Jair Bolsonaro (PL) e favorecido a vitória de Lula em 2022.

    É uma tese repetida e sem embasamento. Em fevereiro de 2025 , a Folha mostrou que bolsonaristas e trumpistas difundiam, sem provas, a tese de que a Usaid financiara a vitória de Lula. Benz acusava a agência de pagar advogados para restringir publicações de Bolsonaro no TSE.

    O ex-funcionário não apresentou evidências, e a reportagem não encontrou indícios do suposto financiamento. Organizações brasileiras mencionadas nas acusações também negaram ter recebido recursos da agência para interferir nas eleições.

    A tentativa de relacionar o desmonte da agência às vitórias eleitorais da direita também esbarra nas particularidades de cada país. Na Bolívia , por exemplo, a Usaid havia sido expulsa em 2013 pelo então presidente Evo Morales , sob acusação de ingerência política, mais de uma década antes da derrota eleitoral da esquerda em 2025.

    No início do segundo mandato de Trump, a Casa Branca cancelou contratos, reduziu funcionários e transferiu funções da Usaid ao Departamento de Estado. A justificativa apresentada era o combate a desperdícios e incompatibilidade dos programas com as prioridades do governo.

    A repercussão das eleições brasileiras ocorre em meio à aproximação da Casa Branca com governos conservadores latino-americanos, em uma estratégia que combina cooperação em segurança, combate ao narcotráfico e interesses econômicos.

    Enquanto Lula mantém divergências com Trump, sobretudo em questões comerciais e de soberania, Flávio Bolsonaro defende maior aproximação com Washington e já manifestou interesse em integrar o Escudo das Américas , iniciativa regional de segurança lançada pelo republicano.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/10/trumpistas-usam-derrotas-da-esquerda-na-america-latina-para-defender-desmonte-da-ajuda-externa.shtml.

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    Boneco inflável do presidente dos EUA, Donald Trump, segurando uma caricatura do presidente Lula preso, erguida durante protestos da direita no 7 de Setembro - Miguel Schincariol - 7.set.26/AFP · Miguel Schincariol - 7.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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