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    Trump associa vacina ao autismo e diz que tríplice viral pode matar; especialistas negam

    O presidente dos EUA, Donald Trump, exibe uma ordem executiva assinada sobre flexibilidade em relação a vacinas, enquanto o Dr. Jay Bhattacharya, diretor do National Institutes of Health (NIH), permanece atrás dele, no Salão Oval da Casa Branca, em Washington, D.C., EUA, 10 de agosto de 2026. REUTERS/Kylie Cooper Sem citar um único estudo, Donald Trump assinou nesta segunda-feira (10) uma ordem que reformula o calendário vacinal americano com base na hipótese, rejeitada pela ciência, de que vacinas estariam ligadas ao aumento de casos de autismo e mortes – mesmo sem apresentar provas. O decret

    G1
    11 de agosto de 2026 às 16:32
    Trump associa vacina ao autismo e diz que tríplice viral pode matar; especialistas negam
    Foto: G1

    O presidente dos EUA, Donald Trump, exibe uma ordem executiva assinada sobre flexibilidade em relação a vacinas, enquanto o Dr. Jay Bhattacharya, diretor do National Institutes of Health (NIH), permanece atrás dele, no Salão Oval da Casa Branca, em Washington, D.C., EUA, 10 de agosto de 2026. — Foto: REUTERS/Kylie Cooper

    Sem citar um único estudo, Donald Trump assinou nesta segunda-feira (10) uma ordem que reformula o calendário vacinal americano com base na hipótese, rejeitada pela ciência, de que vacinas estariam ligadas ao aumento de casos de autismo e mortes – mesmo sem apresentar provas.

    O decreto reduziu de 17 para 11 o número de vacinas obrigatórias e reclassifica outras seis, que passam a valer apenas para grupos específicos ou por decisão médica caso a caso.

    Com isso, hepatite B, hepatite A, meningococo B, meningococo ACWY, dengue e anticorpos contra o vírus sincicial respiratório passam a ser recomendados apenas para grupos considerados de alto risco. Essas são doenças consideradas graves e algumas delas letais na primeira infância.

    Já hepatite A, hepatite B, rotavírus, doença meningocócica, gripe e covid-19 ficam sujeitos ao que o governo chama de "decisão clínica compartilhada" — ou seja, médico e família decidem caso a caso.

    🔴 Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que os pontos levantados por Trump repetem argumentos antigos do discurso antivacina. Não há evidência que sustente a ligação com autismo, já descartada por órgãos regulatórios do mundo inteiro, nem o suposto risco de morte atribuído à tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola.

    A alegação chega em meio a um surto de sarampo nos Estados Unidos, que já soma mais de 2.400 casos confirmados.

    Para justificar as mudanças, Trump e o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., fizeram uma série de afirmações na cerimônia de assinatura, no Salão Oval. O g1 ouviu especialistas e explica ponto a ponto as fragilidades no discurso.

    Sobre a MMR (vacina tríplice viral), que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, os Estados Unidos passou a estabelecer como padrão ouro não mais a aplicação de uma dose que proteja contra as três doenças, mas doses únicas para cada uma delas.

    O secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., foi além e citou uma chance de "5%" de risco na versão combinada, sem apresentar estudo, instituição ou fonte para o número.

    ➡️ Não existe evidência científica de que juntar antígenos na mesma vacina aumente o risco de morte ou de efeito adverso grave. Combinar vacinas é uma estratégia segura e ajuda a proteger contra mais doenças com menos injeções.

    Além disso, a tríplice viral é usada há décadas em todo o mundo, com segurança bem estabelecida.

    "Não existe evidência nenhuma que fazendo separado seja mais seguro, não existe nenhum tipo de argumento científico de dizer que a combinação de antígenos torna a vacina mais letal", afirma o infectologista Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia da Unesp.

    Vacinas isoladas contra sarampo, caxumba e rubéola, aliás, praticamente não são mais fabricadas — segundo a infectologista Monica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a versão combinada é padrão há quase 30 anos. O próprio decreto assinado por Trump reconhece essa lacuna: a divisão em doses individuais fica condicionada à disponibilidade futura desses produtos no mercado americano, algo que ainda não existe.

    “Esse discurso é uma estratégia para reduzir a imunização e descredibilizar um imunizante eficaz e que é usado no mundo todo de forma segura”, explica Levi.

    Durante o anúncio da mudança sobre imunização, Trump associou vacinas ao aumento no número de crianças autistas.

    A hipótese não é nova, e também não é apoiada por evidências científicas. Ela remonta a um estudo fraudulento de 1998 do médico britânico Andrew Wakefield, que associou a vacina tríplice viral ao autismo.

    A pesquisa foi posteriormente identificada como fraudulenta — os demais autores retiraram os nomes do trabalho, a revista que a publicou a retratou, e Wakefield perdeu a licença para exercer medicina.

    ➡️ Desde então, estudos em diferentes países, com milhões de crianças, não encontraram nenhuma relação causal entre vacinas e autismo.

    O aumento nos diagnósticos de autismo, no entanto, é real, mas tem explicação distinta da apresentada por Trump.

    Segundo dados do CDC (Centers for Disease Control and Prevention, o órgão de controle de doenças dos Estados Unidos), a taxa saltou de 1 caso a cada 150 crianças observadas em 2000 para 1 a cada 36 em 2020 .

    maior acesso da população aos serviços de diagnóstico; formação de profissionais capazes de detectar o transtorno; pais, professores e pediatras mais conscientes e informados para levantar as primeiras suspeitas; ampliação da compreensão do que é autismo; possíveis fatores ambientais que colaboram para a maior frequência de TEA.

    ➡️ O que está mais do que provado é que vacinas não estão relacionadas ao transtorno. A Osganização Mundial da Saúde (OMS) já se pronunciou dizendo que não há evidência de que vacinas provoquem o transtorno. E não é que não existam estudos, eles existem e não provam essa relação.

    Para a infectologista Monica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o discurso de Trump reaproveita um argumento já desacreditado para justificar mudanças no calendário vacinal.

    "Quando ele pede para separar a tríplice, ele está focando justamente na questão so sarampo. É um movimento para atacar a imunização contra a doença, fazendo de novo falsas colocações sobre a relação com o transtorno autista", explica.

    E isso acontece enquanto o país vive um surto da doença com mais de dois mil casos registrados este ano. Atualmente, 44 dos 50 Estados do país foram afetados, a maior alta registrada nos últimos 35 anos.

    A doença voltou a ganhar força em meio a onda de desinformação desde o início da gestão Trump, que passou a associar a vacina ao TEA.

    Publicado originalmente por G1. Leia a matéria completa em https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/08/11/trump-muda-vacina-criancas.ghtml.

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