Tropicalista radical, Tom Zé completa 90 com obra que implode o bom gosto
A radicalidade do projeto estético-político de Tom Zé , desde os anos 1960, está em sua obcecada busca por transformar a imperfeição em método crítico. Ao produzir deliberadamente uma música aberta, hesitante e aparentemente mal-acabada, ainda que construída por meio de procedimentos técnicos rigorosos, o músico baiano questiona os critérios pelos quais o virtuosismo, o refinamento e o bom gosto adquirem autoridade cultural. Leia mais (10/10/2026 - 23h00)

Contextualiza um acontecimento e aprofunda a compreensão de seus diversos ângulos
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Arquiteto e crítico, doutor pela FAU-USP e professor da Escola da Cidade
A radicalidade do projeto estético-político de Tom Zé , desde os anos 1960, está em sua obcecada busca por transformar a imperfeição em método crítico. Ao produzir deliberadamente uma música aberta, hesitante e aparentemente mal-acabada, ainda que construída por meio de procedimentos técnicos rigorosos, o músico baiano questiona os critérios pelos quais o virtuosismo, o refinamento e o bom gosto adquirem autoridade cultural.
Seu primeiro LP, "Grande Liquidação", de 1968, já se apropria da sonoridade da Jovem Guarda , do rock e das guitarras elétricas para subverter tais estéticas por meio de letras irônicas sobre consumo, modernização e política. Já o segundo disco, de 1970, conhecido como "Jimmy, Renda-se" , leva a dimensão contestatória das canções para a própria forma musical.

As canções passam a ser construídas pelo estranhamento: arranjos incompletos, linhas melódicas interrompidas, rupturas harmônicas, construções intencionalmente simplórias, repetições e fragmentos. Tom Zé se aproxima de formas populares de produção, incorporando soluções improvisadas, economia de meios e hesitação ao processo criativo.
Mais do que isso, a obra revela, como num raio-X, o próprio processo de construção musical. É uma música que procura não saber completamente como ser música. Isso não significa abrir mão do controle técnico.
Gravação, captação e equalização são realizadas de maneira meticulosa, revelando um paradoxo fundamental: a sofisticação técnica é colocada a serviço do combate à própria aparência de sofisticação. Há a confluência de dois mundos, como num personagem de Edgar Allan Poe admirado por Tom Zé: a justaposição entre o mais erudito e o mais ordinário.

O LP de 1972, relançado em 1984 como "Se o Caso É Chorar", talvez seja um dos discos mais radicais da história da música brasileira e torna esse projeto ainda mais explícito. Se o projeto político-estético apresentado em 1970 ainda poderia parecer circunstancial, em 1972 a ambiguidade se desfaz. Há um ímpeto deliberado de aproximação com o público, preocupação que Tom Zé descreve em sua autobiografia, "Tropicalista Lenta Luta", de 2003, como central em sua formação desde suas primeiras apresentações musicais em Irará.
A aproximação intelectual com a poesia concreta de Augusto e Haroldo de Campos ganha uma dimensão material com a presença do poema trilíngue "Cidade/City/Cité", de Augusto, na abertura de "Senhor Cidadão".
Hélio Oiticica , numa conversa de 1971 com Haroldo de Campos, publicada pela Folha em 2003 , afirma que as coisas feitas no Brasil já possuiriam um caráter "a priori underground" diante da cultura profissionalizada e de consumo americana e europeia.

Nessa linha, a condição marginal não seria uma deficiência a ser superada, mas uma posição crítica: precariedade não significaria atraso; nem marginalidade, incapacidade. A ausência de polimento tornar-se-ia potência. Na mesma conversa, Haroldo define a antropofagia como uma operação capaz de juntar "Sócrates e Tarzan e odaliscas no Catumbi".
Nessa chave, Tom Zé reencena nos trópicos, quase 24 séculos depois, algo do método socrático: a posição daquele que deliberadamente não sabe, que se despe da autoridade do conhecimento para colocá-la em questão. A certeza dá lugar à hesitação; o virtuosismo, à simplicidade; a afirmação, à dúvida; a forma fechada, à aberta; o discurso eloquente, ao diálogo. Tom Zé finge não saber fazer música para interrogar a própria música.
Se até o disco de 1972 esse método se afirmava sobretudo no plano musical, pela imperfeição e simplicidade deliberadas, ainda não encontrava equivalente nas criações visuais dos álbuns. É em "Todos os Olhos", de 1973, que a radicalidade musical contamina o objeto gráfico.

A ideia de Décio Pignatari era fotografar um ânus feminino com uma bolinha de gude, numa provocação cifrada à censura da ditadura. As primeiras tentativas ficaram explícitas demais. Na solução escolhida, fotografada por Reinaldo Moraes, a bolinha foi colocada entre os lábios de uma mulher.
A capa não mostra um ânus —constrói tecnicamente a ilusão de um. Um ataque ao refinamento e ao bom gosto como valores em si. No encarte, uma nota parece sintetizar o programa: "O Heraldo do Monte, do ex-Quarteto Novo, achou divertido não tocar bem e a gente deve agradecer muito a ele".
Essas proposições encontram paralelo na obra de Lina Bo Bardi , sobretudo no projeto do Masp. Em 1972, a arquiteta afirmou que sua preocupação havia sido fazer uma "arquitetura feia" e uma "arquitetura ruim", com espaços livres que pudessem ser criados pela coletividade. A incompletude não era uma falha a ser corrigida, mas a possibilidade de apropriação do espaço pelo público.
Tom Zé e Bo Bardi compartilham uma crítica ao diletantismo cultural e às noções canônicas de bom gosto, assim como a tentativa de desmontar as barreiras entre especialista e público, artista e espectador, arte e vida. A "arquitetura feia" de Bo Bardi é a "antimúsica" de Tom Zé.
O projeto estético-político do músico atravessa toda a sua obra posterior. Em "Estudando o Samba", de 1976, Tom Zé desmonta e reconstrói o samba até levá-lo à abstração. Em "Com Defeito de Fabricação", de 1998, incorpora máquinas e ferramentas industriais como instrumentos, produzindo ruídos e até faíscas nos palcos. Em "Jogos de Armar", de 2000, escancara a abertura da obra ao acompanhar o álbum com um disco de células musicais, ou samples, para "permitir reelaboração e remontagens".
Sua trajetória corporifica, assim, alguns dos pressupostos mais radicais e contestatórios da tropicália. Talvez justamente por ter levado às últimas consequências uma potência que o próprio movimento apenas começou a esboçar, tenha se tornado uma espécie de azarão da história do tropicalismo, presente desde o núcleo original, mas durante muito tempo lateral à narrativa de sua consagração.
No disco-manifesto "Tropicália ou Panis et Circencis", de 1968, Tom Zé aparece na capa, assina "Parque Industrial" e canta na gravação, embora sua participação vocal tenha desaparecido dos créditos do álbum.
Há nisso uma ironia —aquele que talvez tenha preservado de maneira mais persistente a capacidade da tropicália de transformar precariedade, mau gosto e incompletude em instrumentos de invenção permaneceu, por décadas, à margem da própria consagração do movimento. Lenta luta, Tom Zé.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/10/tropicalista-radical-tom-ze-completa-90-com-obra-que-implode-o-bom-gosto.shtml.

O músico Tom Zé, que completa 90 anos, em seu apartamento, no bairro de Perdizes, em São Paulo - Karime Xavier/Folhapress · Karime Xavier/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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