Tortas na cara
Como não pensaram nisso antes? De tanto assistir às antigas comédias-pastelão de O Gordo e O Magro , em que multidões levam na cara tortas de creme atiradas pela dupla ou por uns contra os outros, demorou, mas alguém viu nelas um objeto ideal de protesto, uma forma de desmoralizar um inimigo sem precisar alvejá-lo com balas de verdade. A inspiração veio da obra-prima de Laurel & Hardy, o curta "The Battle of the Century", produzido por Hal Roach em 1927 ?mais de 3.000 tortas atiradas em apenas 3min40 de filme, disponível no YouTube. Leia mais (09/19/2026 - 08h00)

Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras
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Como não pensaram nisso antes? De tanto assistir às antigas comédias-pastelão de O Gordo e O Magro , em que multidões levam na cara tortas de creme atiradas pela dupla ou por uns contra os outros, demorou, mas alguém viu nelas um objeto ideal de protesto, uma forma de desmoralizar um inimigo sem precisar alvejá-lo com balas de verdade. A inspiração veio da obra-prima de Laurel & Hardy, o curta "The Battle of the Century", produzido por Hal Roach em 1927 –mais de 3.000 tortas atiradas em apenas 3min40 de filme, disponível no YouTube.
Refiro-me a Noël Godin, o artista e anarquista belga que, desde os anos 1990, dedicou-se a emboscar personalidades de quem discordava, à saída de eventos públicos, e mimoseá-las com uma torta na cara, à vista dos fotógrafos. Não uma torta atirada de longe, com risco de errar, mas a centímetros do cidadão e espremida con gusto no rosto dele. Godin não fazia isso sozinho. Era o líder da Brigada Internacional de Pastelaria, uma gangue terrorista composta de mais de 30 guerrilheiros.
Alguns dos atingidos por eles foram Bill Gates, cofundador da Microsoft , o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, o cineasta Jean-Luc Godard e a romancista Marguerite Duras. O escritor Bernard-Henri Lévy foi atacado oito vezes. "Nossas tortas vêm das melhores pastelarias. Se a operação não der certo, nós as comemos", ele disse. Nem todas as vítimas se ofendem –Godard limpou o rosto com os dedos e lambeu-os. E os membros têm seu código de ética: "Nossos alvos são sempre ricos e poderosos. Nunca atacamos pessoas na pior".

Godin morreu em Bruxelas há um mês, aos 80 anos. Dizia-se herdeiro do Maio de 1968, o levante estudantil em Paris que abalou estruturas mundialmente . No começo, dedicava-se a levantar os hábitos das freiras nas ruas e a tocar fitas de puns durante missas. Mas as tortas se revelaram mais eficazes. Deixou um livro de memórias, "Creme e Castigo", ainda inédito aqui.
No Brasil, mais popular do que as tortas é o pavê. O que não falta são fuças para levar um.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2026/09/tortas-na-cara.shtml.

O notório belga Noël Godin, conhecido por atirar tortas, faz gesto após lançar uma torta de creme no filósofo e escritor francês Bernard-Henri Lévy, antes de um debate entre o artista belga Jan Fabre e Bernard-Henri Lévy sobre a exposição ' — Foto: Folha de S.Paulo
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