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    'Tomar vinho fora de casa é frustrante, você se sente um idiota', diz economista

    Economista, auditor do Banco Central , sommelier formado pela ABS-RS e bebedor de vinho há 40 anos, Mauro Salvo diz que se sente um idiota quando pede a bebida fora de casa. Leia mais (09/10/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    11 de setembro de 2026 às 02:00
    'Tomar vinho fora de casa é frustrante, você se sente um idiota', diz economista
    Homem de camiseta branca e calça cinza posa com uma mão na cintura e outra apoiada em placa que indica certificação sustentável em vinhedo. Vinhas verdes se estendem ao fundo sob céu azul com poucas nuvens e colinas ao longe. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Economista, auditor do Banco Central , sommelier formado pela ABS-RS e bebedor de vinho há 40 anos, Mauro Salvo diz que se sente um idiota quando pede a bebida fora de casa.

    O sommelier Mauro Salvo - Reprodução/Arquivo pessoal Mauro Salvo · Reprodução/Arquivo pessoal Mauro Salvo
    O sommelier Mauro Salvo - Reprodução/Arquivo pessoal Mauro Salvo · Reprodução/Arquivo pessoal Mauro Salvo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Isso porque percebe que algumas garrafas são vendidas a quase o dobro do preço do varejo. "Tomar vinho fora de casa está se tornando uma experiência frustrante e até desagradável", afirma.

    Salvo acaba de lançar "Ensaios de Economia do Vinho" (Diálogo Freiriano, 178 págs.). No livro, discute temas como o alto preço dos rótulos no Brasil, o problema de reputação dos brasileiros e a falta de informação sobre a bebida. Leia a entrevista abaixo.

    Quando você escreve que o problema do vinho nacional era reputação, você diz que o vinho era ruim? Quando os produtores brasileiros migraram sua produção do vinho de mesa para o vinho fino, sem nenhuma reputação nesse tipo de produção, escolheram a cabernet sauvignon. Daí, surgiu um problema: plantaram essa uva com técnicas e num terroir que não eram os ideais.

    Safra 2026 traz tempranillo, touriga nacional e alvarinho com bons resultados
    Safra 2026 traz tempranillo, touriga nacional e alvarinho com bons resultados — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A cabernet é uma uva de maturação tardia e, no Rio Grande do Sul , a época da colheita é úmida, o que gerava vinhos muito herbáceos, ou "aguados", sem nenhuma característica peculiar do terroir. O consumidor não teve preconceito; foi criada uma reputação real, por isso uso esse termo. E leva-se anos para reverter isso.

    O vinho nacional, hoje, passou a ser bem visto entre os brasileiros, ou a reputação antiga persiste? Hoje está bem melhor: os vinhos estão sendo premiados, há mais seriedade na produção e a tecnologia ajudou muito.

    Eu uso as premiações como base, principalmente a da Decanter, da Inglaterra , reconhecida como a mais séria. Os vinhos brasileiros são os que mais crescem lá, disparado. Isso pode significar uma melhoria de qualidade, mas também pode ser que os brasileiros estejam simplesmente se inscrevendo mais. Não é um dado científico, é uma percepção minha.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Um comentário comum é de que o vinho nacional melhorou, mas é muito caro. É uma das verdades inconvenientes que os produtores não gostam de comentar. No Sul, a umidade aumenta os gastos com questões fúngicas e correção de solo. A colheita feita no morro tem que ser manual.

    Além disso, é preciso ter mão de obra especializada para cuidar do vinhedo, identificar problemas na parreira, aplicar defensivos e corretivos. Tudo isso encarece a produção.

    E tem a questão dos imposto s, que realmente pesam. Mesmo o alimento, que é o menos taxado no Brasil, tem uma tributação alta, algo em torno de 25% para a cesta básica, enquanto em outros países fica entre 7% e 10%.

    imagem para compartilhamento e chamadas do produto receitaí
    imagem para compartilhamento e chamadas do produto receitaí — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No país, o vinho recebe a tributação de bebida alcoólica, que é ainda maior. Mas sou crítico sobre jogar toda a culpa nos impostos. Se colocássemos zero de imposto, o vinho ficaria mais barato na mesma proporção? Tenho sérias dúvidas.

    E, se falarmos de importados também, por que vinho no Brasil é tão caro? Além da tributação elevada, há a questão logística e, no caso dos brasileiros, tem o chamado "efeito preço-guarda-chuva": como chega vinho estrangeiro por R$ 300, um produtor nacional que poderia vender o seu por R$ 150 pensa, "já que o consumidor paga R$ 300 naquele, eu posso vender o meu a R$ 250". Assim, o vinho se tornou um bem de luxo.

    Quem bebe ocasionalmente compra um vinho barato, de R$ 70. O mercado briga pelo mesmo consumidor e não consegue crescer: a base é limitada tanto pela renda quanto pela percepção do vinho como bem de luxo. Minha proposta é ampliar essa base.

    Como fazer isso? O produtor brasileiro não deve brigar com o importado, e sim trabalhar junto, com toda a cadeia produtiva, para ampliar essa base. É preciso trabalhar na redução de custos e, principalmente, nas margens. Quando há chance de reduzir preço, os intermediários costumam dizer "agora temos que recompor margens", e o preço final nunca cai.

    Um exemplo pessoal: em Santa Catarina , tomei um espumante razoável num restaurante e paguei R$ 180; no varejo, o mesmo vinho custava R$ 90. Nada justifica isso. Tomar vinho fora de casa está se tornando uma experiência frustrante e até desagradável porque você se sente um idiota.

    Estamos vendo no Brasil muitos novos projetos com a poda invertida. Como vê esse cenário? Muitos desses projetos não são viáveis e só existem porque o dono gostou de investir em vinho como hobby. Brinco que ainda bem que existem milionários dispostos a perder parte da fortuna produzindo vinho.

    É comum ver alguém que ganhou dinheiro com mineração ou soja, com centenas de hectares do negócio principal, e só dois ou três hectares de uva, criando um grande projeto de enoturismo deficitário. E são esses casos que produzem vinhos excelentes.

    Economista com mestrado e doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, auditor do Banco Central nas áreas de finanças e sommelier formado pela ABS-RS.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/comida/2026/09/tomar-vinho-fora-de-casa-e-frustrante-voce-se-sente-um-idiota-diz-economista.shtml.

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    O sommelier Mauro Salvo - Reprodução/Arquivo pessoal Mauro Salvo · Reprodução/Arquivo pessoal Mauro Salvo — Foto: Folha de S.Paulo

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