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    Todos os Filhos do Presidente

    O mundo teve que atravessar séculos e banhos de sangue para enfim ver as ideias do Iluminismo se tornarem realidade, fuzilar czares e empurrar para a guilhotina reis e rainhas. Consolidou-se aos poucos a tese de que um tirano não governava acima das leis. Leia mais (09/02/2026 - 17h51)

    Folha de S.Paulo
    2 de setembro de 2026 às 20:51
    Todos os Filhos do Presidente
    Ilustração mostra uma coroa dourada com pedras preciosas coloridas sobre fundo vermelho. À direita, um pé roxo usa tornozeleira eletrônica preta, projetando sombra sobre a coroa. — Foto: Folha de S.Paulo

    Escritor, é autor de 'Feliz Ano Velho', 'Ainda Estou Aqui' e 'O Novo Agora'

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    Carolina Daffara/Folhapress · Carolina Daffara/Folhapress
    Carolina Daffara/Folhapress · Carolina Daffara/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O mundo teve que atravessar séculos e banhos de sangue para enfim ver as ideias do Iluminismo se tornarem realidade, fuzilar czares e empurrar para a guilhotina reis e rainhas. Consolidou-se aos poucos a tese de que um tirano não governava acima das leis.

    A Constituição americana, de 1787, começa com três palavras bombásticas: "We The People" (nós o povo). Revoluções liberais e nacionalistas, parlamentos e eleições impuseram direitos individuais e governos baseados no debate, consentimento, livre expressão, acordos, pactos.

    Acabou o absolutismo. O poder político deixou de ser legitimado pelo direito divino e hereditariedade. Afinal, o sangue que jorra em todos é da mesma cor. Mas Flávio Bolsonaro , o 01, varão do ex-presidente Jair, se candidata ao mesmo cargo que foi do pai.

    Quem é quem nos embates do bolsonarismo
    Quem é quem nos embates do bolsonarismo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O nome Bolsonaro já foi franquia em São Paulo em 2018, o BolsoDoria —em baixa nas pesquisas para governador, o ex-prefeito João Doria atentou contra a história do PSDB e se aliou à extrema direita, fincando uma estaca no coração do partido.

    Surge agora Hélio Bolsonaro, o Hélio Negão, deputado federal carioca que concorrerá pelo estado de Roraima e começa a ser chamado de 05. A família ganha a dinâmica de uma dinastia, casa real, um clã —ou, dependendo do ponto de vista, uma gangue.

    Concorrem também ao Senado em 2026: Michele, a madrasta, e Carlos, o 02.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O chefe do clã apelida seus filhos por numerais, prática que desumaniza o indivíduo, torna-o um apêndice do pai, como se faz no Exército e no presídio: enumerados soldados e prisioneiros são colocados na condição de objeto de um sujeito maior, a hierarquia.

    É uma família politicamente disfuncional. O pai está preso e inelegível. O 01 está atolado em escândalos. Eduardo, 03, deputado federal autoexilado nos EUA, perdeu o mandato por faltas e foi condenado pelo STF a quatro anos e dois meses de prisão.

    Carlos era acusado de passar mais tempo numa repartição clandestina conhecida como Gabinete do Ódio que na cadeira de vereador do Rio de Janeiro.

    O caçula, Jair Renan, 04, é vereador de Camboriú (SC) e foi penalizado por faltas não justificáveis. Além disso, em 12 reuniões da Comissão de Segurança Pública, da qual faz parte, apareceu em apenas três. Sairá candidato a deputado federal por SC como Jair Renan Bolsonaro.

    A ex-mulher, Rogéria Bolsonaro, foi duas vezes eleita vereadora no Rio de Janeiro. Renato Bolsonaro, irmão de Jair, já tentou se eleger oito vezes, e só conseguiu uma vitória eleitoral, em 1996, para vereador de Praia Grande. Também sai para deputado federal.

    Pela primeira vez na nossa República, copia-se a prática do regime deposto em 1889: um filho cobiça o trono que já foi do pai.

    Filhos de Collor de Mello, Itamar Franco, FHC e Dilma nem se meteram em carreiras políticas. Tocaram a vida, foram em frente. Luciana Temer, filha de Temer, foi vereadora por São Paulo. Das quatro filhas, foi a única a se tornar Sua Excelência.

    Afonso Pena Júnior, Rodrigo Alves Filho, Prudente de Moraes Filho, João Goulart Filho e Sarney Filho herdaram o nome do pai e ganharam vagas como deputado federal ou estadual, mas não ousaram sentar na cadeira de presidente da República.

    Getúlio Vargas teve Alzira, famosa por passar a mão na legenda PTB do verdadeiro herdeiro político do trabalhismo, Leonel Brizola. Lutero Vargas, deputado federal, chegou a ser citado nas investigações sobre o atentado contra Carlos Lacerda, embora não tivesse participação comprovada.

    Márcia Kubitscheck foi eleita deputada federal e vice-governadora pelo DF. Nenhum filho de Tancredo Neves seguiu carreira política, a não ser o neto, Aécio, senador, governador, responsável por colocar em dúvida o processo eleitoral brasileiro.

    Lula tem cinco filhos. Ninguém almejou sua cadeira de presidente. Lurian Cordeiro é jornalista e trabalha em projetos sociais, Sandro Luís é publicitário e associado a uma empresa de consultoria tecnológica, Luís Cláudio, formado em educação física, atua como empresário de marketing esportivo.

    O adotivo, Marcos Cláudio, psicólogo, foi vereador por São Bernardo do Campo. E tem Fábio Luís, biólogo, aquele que chamam de Lulinha e já foi considerado dono da JBS. Tem queixo de vidro. Sempre reaparece em campanhas eleitorais.

    É alvo de investigações da Polícia Federal e do STF por suspeita de tráfico de influência. A lobista Roberta Luchsinger atuava em Brasília e se apresentava como representante do filho do presidente. Porém, até onde se sabe, não conseguiu fechar um contrato.

    Ou é uma lobista fraca ou ninguém botou muita fé na sua relação com o filho que não apita nada e é mais útil ao noticiário que à política.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelo-rubens-paiva/2026/09/todos-os-filhos-do-presidente.shtml.

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    Carolina Daffara/Folhapress · Carolina Daffara/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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