Brasil

    Todas as definições sobre Anne Carson, Nobel de Literatura, estão erradas

    O problema com Anne Carson , que venceu o Nobel de Literatura nesta quinta (8), começa quando tentamos juntar seu nome a alguma designação mais ou menos fixa. Leia mais (10/08/2026 - 16h23)

    Folha de S.Paulo
    8 de outubro de 2026 às 19:23
    Todas as definições sobre Anne Carson, Nobel de Literatura, estão erradas
    Foto: Folha de S.Paulo

    Contextualiza um acontecimento e aprofunda a compreensão de seus diversos ângulos

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    A poeta canadense Anne Carson, vencedora do Nobel de Literatura, em evento na capital sueca de Estocolmo, em 2015 - Pontus Lundahl - 8.mai.2015 / AFP · Pontus Lundahl - 8.mai.2015 /
    A poeta canadense Anne Carson, vencedora do Nobel de Literatura, em evento na capital sueca de Estocolmo, em 2015 - Pontus Lundahl - 8.mai.2015 / AFP · Pontus Lundahl - 8.mai.2015 / — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A poeta canadense Anne Carson, vencedora do Nobel de Literatura, em evento na capital sueca de Estocolmo, em 2015 - Pontus Lundahl - 8.mai.2015 / AFP

    O problema com Anne Carson , que venceu o Nobel de Literatura nesta quinta (8), começa quando tentamos juntar seu nome a alguma designação mais ou menos fixa.

    Poeta, romancista, tradutora, classicista, feminista, dramaturga, ensaísta. Num breve sobrevoo digital por artigos a seu respeito, essas são algumas das tentativas mais recorrentes. O que une todas elas é que estão erradas.

    Quem é Anne Carson, a nova Nobel de Literatura
    Quem é Anne Carson, a nova Nobel de Literatura — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A própria Carson, tanto em sua extensa obra quanto em entrevistas, rejeita sistematicamente todos os rótulos que lhe são atribuídos. O mesmo vale para seus textos , sempre apresentados de maneira obstinadamente indeterminada.

    Seu primeiro poema, "Cannicula di Anna", publicado em 1984, é frequentemente chamado pela autora de "um ensaio". Sua tese de doutorado, "Eros, o Doce-Amargo", também foi publicada dois anos mais tarde com o subtítulo "um ensaio".

    Talvez seu livro mais famoso, "Autobiografia do Vermelho" , de 1998, não tem nada de autobiográfico e ainda traz como subtítulo a atordoante frase: "um romance em versos". Em outro grande sucesso da autora, "A Beleza do Marido" , de 2001, lemos na capa a estranha descrição "um ensaio ficcional em 29 tangos". Tangos?

    Conheça os livros de Anne Carson
    Conheça os livros de Anne Carson — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Carson nomeia para confundir, não para esclarecer, mas ao fazer isso, consegue insinuar algo profundo sobre a absurda futilidade inerente a qualquer esforço de nomeação.

    Num texto mais recente, ela cita a famosa frase de John Cage: "Toda coisa que existe é uma celebração do nada que a sustenta". É justamente um vislumbre desse "nada" que Carson parece tentar apresentar ao seu leitor.

    Nesse sentido, o constante diálogo que ela construiu, ao longo de toda sua obra, com textos clássicos em grego e latim ocupa um lugar de destaque.

    Veja os últimos vencedores do Nobel de Literatura
    Veja os últimos vencedores do Nobel de Literatura — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Numa célebre entrevista de 1997, ela já falava sobre o que a interessava nesses textos: "Dá para sentir uma ideia de começo em autores como Safo e Homero , que iam tropeçando pelo mundo e dizendo 'o nome disso é 'nada' e este é justamente o nome certo para ele'".

    Em seus dois primeiros sucessos literários, "Eros, o Doce-Amargo", publicado no Brasil em 2022 pela Bazar do Tempo, e o ainda não traduzido para o português "Economy of the Unlost", Carson toma como ponto de partida dois poetas gregos arcaicos, Safo e Simonides, para desenvolver suas primeiras reflexões sobre como nascia ali uma certa ideia de indivíduo e, com ela, uma ideia de desejo de completude.

    "Quem é o verdadeiro sujeito da maioria dos poemas de amor? Não é a pessoa amada. É aquele buraco", escreve em "Eros, o Doce-Amargo".

    Mulher de cabelos grisalhos e lisos usa óculos de armação amarela, lenço vermelho e blazer preto. Ela segura papéis e está diante de um microfone em ambiente escuro.
    Mulher de cabelos grisalhos e lisos usa óculos de armação amarela, lenço vermelho e blazer preto. Ela segura papéis e está diante de um microfone em ambiente escuro. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias

    Outro aspecto da obra de Carson, já presente desde seus primeiros textos, é o contraste entre essas referências clássicas e ideias modernas.

    Suas citações vão de Gustave Flaubert a Marilyn Monroe , de Virginia Woolf a Yves Klein , num jogo que pode parecer aleatório inicialmente, mas não é: "Às vezes você consegue enxergar melhor um corpo celeste ao direcionar seu olhar para outra coisa e, através desta coisa, ver o céu", escreve em "Economy of The Unlost", ao anunciar seu intento de comparar os epigramas de Simonides de Keos com a poesia de Paul Celan.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em "Autobiografia do Vermelho", editado pela 34 há cinco anos, um tema recorrente é o pensamento do filósofo alemão Martin Heidegger. Já em "Descriação", texto da coletânea "Ensaio sobre Aquilo em que Mais Penso", da mesma editora, quem aparece é Simone Weil.

    São presenças que reforçam um certo estranhamento e incompreensão, ideias que parecem atingir seu ponto máximo no famoso poema "Ensaio sobre Aquilo em que Mais Penso", de 1999. Esse poema, que muito carsonianamente já começa se nomeando um "ensaio", logo anuncia ao leitor que vai tratar do erro e de suas emoções.

    O exemplo escolhido para ilustrar essa ideia que tanto interessa à narradora é um pequeno fragmento de poema, de autoria de um certo Álcman, poeta grego que viveu no século 7º a.C., um texto que aparentemente contém um erro aritmético básico.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Este erro, entretanto, será lido no poema de Carson como um gesto artístico, criativo, didático. O que inicialmente parece uma falta se transforma, ao longo do poema, num exuberante excesso de significados possíveis. Um nada que esconde dentro de si "o que vem e o que não vem ao caso" como escreve Carson, citando aqui não Álcman, mas Wittgenstein.

    É um tipo de leitura que não se resolve, que busca incorporar o impasse da linguagem e que tenta mudar algo no que Carson chama de "o quociente de nossas expectativas".

    Em seu livro mais recente, "Wrong Norma", que deve sair pela 34 no próximo ano, Carson novamente tenta se explicar se desexplicando. "Para ser um novo tipo de romance, seria necessário abolir alguma coisa, abolir muitas coisas —enredo, consequências, o prazer que o leitor extrai das respostas negadas, a premeditação dessas coisas todas [...] Sua autora corresponderia à história o tempo todo, mas essa história não seria uma história..."

    Quando seus editores insistem que algo precisa ser posto ao lado de seu nome em seus livros, a própria Carson se sai com a seguinte fórmula que, se não dá conta de defini-la, pelo menos insinua com perfeição a beleza simples e surpreendente para que sua obra aponta: "Anne Carson nasceu no Canadá e é professora de grego antigo".

    Resta saber se, a partir de agora, ela permitirá que se adicione a esta singela descrição o detalhe "e venceu o Prêmio Nobel de Literatura de 2026".

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/10/todas-as-definicoes-sobre-anne-carson-nobel-de-literatura-estao-erradas.shtml.

    Imagem 1
    1 / 7

    A poeta canadense Anne Carson, vencedora do Nobel de Literatura, em evento na capital sueca de Estocolmo, em 2015 - Pontus Lundahl - 8.mai.2015 / AFP · Pontus Lundahl - 8.mai.2015 / — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)