Toda eleição tem um Enéas e um Padre Kelmon
Wilson Grassi Júnior promete uma injeção de autoestima a cada seis meses

Advogada, escritora e dramaturga, é autora de 'Caos e Amor'
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"Meu Botox, Minha Vida". Não é promoção de uma clínica estética. É uma das propostas defendidas pelo candidato à Presidência Wilson Grassi Júnior (Democrata): oferecer toxina botulínica a mulheres de baixa renda. Homens, aparentemente, terão que envelhecer por conta própria.
Grassi garante que "o projeto é muito sério" (sic). "A gente não vai estar tratando ruga, a gente vai estar tratando autoestima ." Assim mesmo, no gerúndio, até porque o tratamento nunca termina. Uma injeção de autoestima a cada seis meses.
Segundo ele, a toxina ajudaria a mulher a trabalhar melhor, produzir mais e até se livrar de relacionamentos tóxicos. Eu sabia que relacionamentos ruins causavam rugas; ignorava que as rugas fossem responsáveis por eles. Também não fui informada de que o empoderamento feminino depende de uma testa lisa. A emancipação feminina levou alguns séculos para chegar a isso.

A verdade é que há pessoas que acumulam rugas por causa da pobreza, da violência , do transporte, da dupla jornada, da espera de meses por uma consulta com um ginecologista. Grassi pretende resolver o problema pelo caminho inverso —a causa pode continuar a envelhecer em paz.
O candidato-veterinário pretende também mudar a composição no STF para que seja composto por juízes de outras profissões. Padeiros, professores, caixas de banco, empresários, cabeleireiros, e até você, comporiam o Supremo do Povo.
Grassi não está sozinho. Existe uma penca de soluções criativas apresentadas por candidatos para salvar o nosso país. Há espaço para acabar com a CLT , extinguir o STF, aumentar o salário dos parlamentares para R$ 1 milhão (por mês), expropriar bilionários, aumentar o salário mínimo para R$ 7.500, construir uma bomba atômica , transformar o governo num BBB e por aí vai. Dizem que o pluralismo é uma das nossas vantagens. Vamos acreditar.
O festival não para por aí. Nove candidatos com mandado de prisão disputam a eleição. Há 20 " Bolsonaros " (sem contar os de sangue: filhos, mulher, ex-mulher, primos, papagaio) e mais oito " Lulas " — detalhe: um deles, o "Lula do Bem", é um fervoroso bolsonarista. Até Trump está por aqui, encarnado por Plínio Trump. Neguinho Celular, o "bolsolulista" que em 2020 apareceu num santinho entre Lula e Bolsonaro, sob o lema "juntos somos mais fortes", desistiu da conciliação nacional, mas não da política e concorre a deputado federal pela Bahia .
A excentricidade (e coragem) dos candidatos não é nova. Enéas Carneiro não está mais aqui, mas "Meu Nome é Enéas" não morreu. Eyeyeymael, nosso eterno candidato democrata cristão, ganhou um jingle que, sinto muito, vai ficar buzinando na sua cabeça por algumas horas. Levy Fidelix carregou o Aerotrem por 14 candidaturas e nunca conseguiu embarcar. Tiririca provou, com seus 1,3 milhão de votos, que pior fica. E Padre Kelson, Kelsen, Kelmon, enfim, o candidato-padre, que surgiu do nada em 2022 , colocou fogo no parquinho dos debates.
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Naquele ano, Lourdes Melo, candidata ao governo do Piauí , produziu uma obra-prima involuntária no horário eleitoral. Aparecia com a boca tapada por uma fita adesiva enquanto uma voz avisava que ela pretendia fazer um minuto de silêncio, "mas só temos 57 segundos". Nem o silêncio cabia no horário eleitoral.
O eleitor só não pode reclamar de falta de opção. O importante é manter a sanidade —e a testa lisa.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/becky-korich/2026/09/toda-eleicao-tem-um-eneas-e-um-padre-kelmon.shtml.

Candidato a presidente pelo Democrata, Wilson Grassi Júnior promete o 'Meu Botox, Minha Vida' às mulheres de baixa renda - Wilson Grassi no Instagram · Wilson Grassi no Instagram — Foto: UOL
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