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    Thallys Braga expõe abismo entre subúrbio carioca e elite intelectual no livro 'Filho'

    Enquanto escrevia "Filho", o jornalista Thallys Braga era um neto fazendo um combinado com os avós: não abram meu livro. Leia mais (10/11/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    11 de outubro de 2026 às 13:00
    Thallys Braga expõe abismo entre subúrbio carioca e elite intelectual no livro 'Filho'
    Homem jovem com barba curta e óculos redondos está em frente a parede escura de madeira. Ele veste camisa preta e há um triângulo de luz solar iluminando parte da parede ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Enquanto escrevia "Filho", o jornalista Thallys Braga era um neto fazendo um combinado com os avós: não abram meu livro.

    O escritor carioca Thallys Braga, autor de 'Filho' - Diego Bresani · Diego Bresani
    O escritor carioca Thallys Braga, autor de 'Filho' - Diego Bresani · Diego Bresani — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Tivemos longas conversas sobre os motivos pelos quais eu não gostaria que eles lessem", diz o jornalista que, em seu primeiro título, lançado pela Companhia das Letras, toca em assuntos que poderiam reabrir feridas antigas. Como a morte da filha primogênita deles, Luciana. A mãe de Thallys.

    "Não quero que sofram ainda mais lendo as descrições do dia do infarto dela e das dificuldades financeiras que enfrentamos na minha infância", afirma. Tem mais coisa. "Também não acho que eles precisem saber a quantos meninos eu ofereci sexo oral na adolescência."

    Que tipo de mãe Luciana foi? E que filho ele era? Thallys descreve uma mulher que sofre e pratica violência a toda hora, mas que também podia ser bem carinhosa. Na hora de dormir, ela batia os mesmos sete toques na parede do quarto do filho, no ritmo de "eu - te - amo".

    Autores que narram a ascensão de classe em primeira pessoa
    Autores que narram a ascensão de classe em primeira pessoa — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Luciana se virava em bicos e trabalhou por anos como empregada doméstica e babá na Barra da Tijuca e no Recreio, período que serviu como chá revelação de classe social para o filho.

    Então eles eram pobres! Impossível não concluir isso quando comparava sua realidade suburbana no Rio com a dos patrões da mãe, gente que tinha pets enormes e peludos, "cujo xampu era mais caro que o perfume que ela queria comprar da Avon".

    Luciana chegou a dormir madrugadas na calçada para conseguir matricular Thallys na escola. Endividou-se para que ele, em vez de trabalhar, estudasse para o vestibular. O desgaste e a dificuldade em fechar as contas no fim do mês abalaram sua saúde física e mental. Tinha esporão nos pés, dores crônicas e obesidade. Morreu cedo, aos 41 anos.

    Capa de 'Filho', livro de Thallys Braga - Divulgação · Divulgação
    Capa de 'Filho', livro de Thallys Braga - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A mãe sabia demonstrar a raiva tão bem quanto o amor. Quando criança, o menino apanhava com cinto, chinelo, vara de goiabeira, o que estivesse perto. Seus pecados eram muitos: chegar sujo de lama da rua, mostrar o dedo do meio, brincar de boneca.

    Luciana não reagiu bem ao descobrir que o filho de 13 anos era gay. Nem o resto da família, inclusive os avós que, anos mais tarde, tratariam sua orientação sexual "com bastante naturalidade e bom humor", segundo o autor. Com ajuda da família, a mãe queimou no quintal de casa discos e pôsteres de divas pop que Thallys venerava, Lady Gaga acima de todas. Impôs-lhe um longo período de isolamento.

    Ele também sentiu raiva. Como diz no livro, não pôde recorrer a ela para dizer "eles me chamaram de viado, mãe", porque ela responderia, "então vira homem, porra".

    Quem é Annie Ernaux
    Quem é Annie Ernaux — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Thallys sabe que sua obra vai ser enquadrada como a de mais um trânsfuga de classe, expressão que a própria editora usa na sinopse.

    É alguém que ascendeu socialmente e agora sente que não se encaixa direito em nenhum dos mundos: nem o do passado pobre, em que ninguém entenderia seu entusiasmo com uma exposição de Jean-Michel Basquiat ou por que gasta tanto numa soda de caju com limão-siciliano, nem o presente elitista, rodeado de famílias servidas por mulheres iguaizinhas à sua mãe.

    Silhueta de perfil de uma pessoa em primeiro plano com fundo de edifícios urbanos desfocados. Texto em destaque com o nome do autor Thallys Braga e o título "FILHO" em letras grandes vermelhas. No topo, citação de Édouard Louis: "Poético, u
    Silhueta de perfil de uma pessoa em primeiro plano com fundo de edifícios urbanos desfocados. Texto em destaque com o nome do autor Thallys Braga e o título "FILHO" em letras grandes vermelhas. No topo, citação de Édouard Louis: "Poético, u — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Relata o ranço por muitos dos novos amigos e conhecidos, "os mesmos intelectuais" que "fazem qualquer coisa para participar dos jantares na casa do Caetano Veloso e ignoram as acusações públicas de abusos psicológicos e morais que uma empregada fez contra ele e a esposa".

    Sua literatura não é condescendente com a vida antiga. Não poupa o tio que fez dele "um menino assustado" nos tempos em que sua homossexualidade virou tabu familiar. "Na hora do banho, eu costumava mijar na escova de S e a esfregava dentro da minha bunda, imaginando que os seus dentes cairiam quando ele fosse escová-los pela manhã", escreve.

    Thallys se formou numa universidade pública, tornou-se repórter de uma revista coqueluche da elite progressista, a Piauí , publicou um livro por uma grande editora, fez viagens ao exterior e passou a frequentar a zona sul carioca.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O upgrade social veio escoltado por um sentimento de deslocamento, no qual o autor continua se enxergando como o "viado pobre de Inhoaíba" que alcançou o conforto material, mas carrega o medo constante de perder tudo e ser forçado a retornar às suas origens.

    Ele diz que não os chateiam "motivos que podem levar alguém a ler ‘Filho’ como literatura de trânsfuga". Como leitor, foi impactado por Édouard Louis e Annie Ernaux , que lhe forneceram "algum vocabulário para falar de desconfortos que eu sentia, mas não sabia nomear".

    Como jornalista, não tem a formação em sociologia de um Didier Eribon , então não teve a pretensão de fazer um manifesto político. "Talvez seja apropriado descrever meu livro como o registro político de um tempo, de um lugar e de um certo tipo de gente brasileira."

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Não que o rótulo de fofoca autobiográfica lhe pareça ruim. "Aprendi a contar histórias ouvindo e transmitindo fofocas no portão de casa, na saída da igreja e na escola. Foram os primeiros relatos que me comoveram. É uma forma de narrar histórias oral e bastante suburbana."

    Tudo bem que deu roupagem intelectual à modalidade, com palavras bonitas e considerando aspectos sociais que familiares não compreendiam. "Mas no final das contas estou honrando a nossa tradição."

    Sobre expor pessoas que não pediram para ter suas histórias devassadas de forma tão pública, aqui Thallys fecha com Ernaux. Em sua literatura, a francesa relatou intimidades de si mesma e dos que a rodeiam, inclusive o dia em que seu pai tentou matar sua mãe.

    Diz Ernaux que ter vivido uma coisa dá a uma pessoa o direito imprescindível de escrevê-la. Contar o que viveu também não é um dilema para ele, Thallys admite.

    "Fui uma criança reprimida por um tio adulto e violento. Um garoto que transou no banheiro da igreja com outros garotos que eram homofóbicos em público e hoje são casados com mulheres. Fui um namorado apaixonado que abriu mão de uma relação linda, profunda, porque não consegui sustentar a consciência das nossas diferenças sociais."

    São todas histórias com pelo menos dois lados, afirma. "Quem quiser descrever com suas próprias palavras o passado que compartilha comigo, também tem o direito."

    Fora Luciana e Marcelo, o pai ausente —assassinado a tiros quando Thallys tinha dez anos—, ninguém é nomeado. O autor usa iniciais para, segundo ele, "garantir que essas pessoas existam apenas no universo do livro e não tenham suas vidas públicas afetadas pelo que escrevi". Sim, elas podem se reconhecer nas linhas, mas ao menos não serão identificadas e buscadas, por exemplo, em redes sociais.

    O pacto para que os avós maternos não leiam "Filho" continua de pé. O autor só teve notícia de um parente que encarou o livro: a esposa do tio S, de quem sofreu homofobia com mais violência enquanto crescia.

    "A reação dela foi ruim. Eu não esperava o contrário. Não me arrependo de nada que escrevi. E tenho convicção de que narrar um trauma não se equipara a maltratar um menino porque ele colocou as mãos na cintura."

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/10/thallys-braga-expoe-abismo-entre-suburbio-carioca-e-elite-intelectual-no-livro-filho.shtml.

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    O escritor carioca Thallys Braga, autor de 'Filho' - Diego Bresani · Diego Bresani — Foto: Folha de S.Paulo

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