Tenho tendência a me autoflagelar, mas estou mais feliz, diz Emmanuel Carrère
Tão sexy quanto vincado, o rosto do premiado escritor, jornalista e roteirista francês Emmanuel Carrère finalmente surge na tela do Zoom. Eu não sabia se ele tinha visto o email com o horário da entrevista. Carrère demora muitos dias para responder mensagens, o que achei plausível para um autor do seu tamanho. Leia mais (09/18/2026 - 10h00)

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O escritor francês Emmanuel Carrère - Joel Saget - 5.nov.2025 / AFP

Tão sexy quanto vincado, o rosto do premiado escritor, jornalista e roteirista francês Emmanuel Carrère finalmente surge na tela do Zoom. Eu não sabia se ele tinha visto o email com o horário da entrevista. Carrère demora muitos dias para responder mensagens, o que achei plausível para um autor do seu tamanho.
Está nos meus planos conversar sobre alguns dos seus lançamentos recentes no Brasil como "Colcoz" e "Ioga" , que saiu em 2023, mas seus leitores gostaram tanto —até pelo barraco com a ex-mulher— que vai demorar para sair de moda. A obra de Carrère sai pela Companhia das Letras, e ele vem ao país na próxima semana para eventos que celebram os 40 anos da editora.
Antes de começar, preciso saber se ele acreditou mesmo que provocaria uma comoção masturbatória em um trem, como conta no livro "Um Romance Russo" . Carrère de fato achou que leitoras ficariam enlouquecidas pelo seu conto erótico publicado em uma revista e correriam para banheiros públicos em busca do autoprazer?

O livro já tem mais de 20 anos. De lá para cá, ele retomou a amizade com a então namorada exposta na obra e obteve o perdão da própria mãe, que precisou lidar com os segredos familiares revelados pelo filho antes da morte dela.
Sua obsessão pela verdade não está apenas na escrita. Ele assume a fantasia controladora e machista do livro e ri, lamentando a imaturidade daquele momento (tinha a minha idade na época).
"Talvez eu acreditasse mesmo. O que mostra que era uma fantasia muito grande, um sonho de controle total, e isso é um absurdo. E, quando você tenta controlar as coisas assim, geralmente é o prelúdio de uma derrota global —que foi o que aconteceu, em grandes proporções."

Em uma obra de não ficção, contar a história como ela de fato aconteceu, incluindo casos de vaidade egocêntrica e megalomania sexista, é o que faz uma literatura ser de fato literatura e não mais um livro bonzinho com medo de cancelamento, correto? Pergunto a ele se é uma escolha difícil.
"Em ‘Um Romance Russo’ eu apareço sob uma luz terrível. Tudo bem, posso fazer isso comigo, quem se importa? Mas com a minha namorada, não! Eu a tratei muito mal nesse livro... Nós conversamos sobre isso depois. Hoje temos uma boa relação. Acho que houve algo bastante desagradável: eu a tratei como se fosse uma personagem de romance, e não um ser humano real. E acho que essa é a única vez, em toda a minha obra, que fiz alguma coisa da qual, sinceramente, me arrependo."
Quanto a "Ioga" , nem deu tempo de se arrepender de expor a ex-mulher: foi obrigado pela Justiça a tirar tudo sobre ela do livro. Mas Carrère assegura que não foi um advogado que o obrigou a nada. Disse que mostrou antes o livro para a ex-parceira e, em suas palavras, "ela disse que não queria existir no livro". Ele respeitou, apesar de saber que eram apenas relatos delicados, "cheios de uma tristeza amorosa".

Pergunto se a pane psiquiátrica que o levou a descobrir uma bipolaridade tipo 2 e a uma internação de quatro meses teve como gatilho esse divórcio ou, para um obstinado em escrever com honestidade, se o surto decorreu da castração de sua obra.
Ele se nega a responder, diz que "é preciso respeitar silêncio total sobre o assunto" e que o livro foi quem mais sofreu com o buraco que restou ali. Por outro lado, isso o ajudou a pensar que a obra se organiza justamente em torno da falta, daquilo que não pode ser contado. "Para mim funciona de um jeito um pouco estranho, mas funciona. E, na verdade, não tenho escolha a não ser considerá-lo dessa maneira."
Carrère garante não se irritar quando a pergunta é mais sobre a sua vida do que sobre o narrador das suas obras. Ele sabe que se pôs nessa situação e que não pode reclamar que os leitores e os jornalistas, de um modo geral, demonstrem interesse por sua vida.

Já com críticos que torcem o nariz e o chamam de narcisista e autocentrado, ele diz se incomodar menos ainda. "Em toda escrita autobiográfica há duas tendências. Uma é a autoglorificação: [François-René de] Chateaubriand, por exemplo, é um escritor imenso, mas está sempre construindo a própria estátua. E existe, na outra ponta, uma tendência à autoflagelação. Talvez eu esteja mais desse lado."
Digo que autores que estão dispostos a expor suas mazelas, como ele faz, me soam mais como ratos de laboratório de si mesmos do que ególatras, e que a leitura das suas obsessões ensimesmadas deve parecer mais generosa, pela exposição do ridículo do ser humano, do que pedante.
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Seu rosto inteiro se ilumina, e sinto que nesse momento ganhei o entrevistado. "Além do mais, há situações que são engraçadas. Podem ser extremamente desagradáveis, extremamente dolorosas, mas também são engraçadas", ele complementa.
"Relatos íntimos, entremeados à história da Rússia, costurados com genealogia familiar... Esse gênero tão misto que vem se tornando o seu gênero literário é o futuro?", pergunto.
Ele bufa, franze a testa —eu tinha ganhado o autor para perdê-lo na pergunta seguinte. Conta que não vê necessidade alguma de classificar seus livros e parece não suportar mais essa pergunta.

"Há mais de 25 anos não coloco sob o título de um livro algo como ‘romance’ ou ‘memórias’. Então não há razão para começar agora. Talvez a mistura seja o futuro, talvez não, não faço ideia. Ao mesmo tempo, o gênero romance nunca será uma coisa do passado. Vai sempre continuar vivo. Eu leio romances, eu adoro romances. Mas se você escreve não ficção, como eu faço, existe uma espécie de contrato implícito ou explícito com o leitor: você conta a verdade. E eu conto."
Pontuo que, em "Ioga", ele não contou toda a verdade.
"Há exceções, momentos em que é preciso dizer ‘isso eu não posso contar’ ou ‘isso eu não consigo imaginar’, e está tudo bem. Mas é preciso dizer isso ao leitor. Prefiro que o leitor tenha uma ideia precisa do estatuto daquilo que estou contando a ele ou a ela."

Foi no brilhante "O Adversário", sobre a vida de Jean-Claude Romand , um impostor que assassinou a família inteira para evitar ser desmascarado, que Carrère começou a escrever em primeira pessoa. O livro foi publicado na França em 2000, mas ganhou uma nova edição neste ano.
Sempre me pareceu maluquice que, justo na hora de falar sobre um psicopata, o autor assumisse a primeira pessoa. Pergunto por que ele precisou dizer "eu" precisamente na hora de narrar sobre um exterminador de memória familiar.
Carrère diz que escrever em terceira pessoa traz uma suposição de impessoalidade, de objetividade. Numa história como a de Romand, ele não poderia dizer que está contando toda a verdade, mas só a porção que ele enxerga, aquilo que percebeu e entendeu do personagem e da história.

"Esse ‘eu’ às vezes é criticado como muito narcisista —e certamente é—, mas também denota humildade. Significa: ‘Bem, sou apenas eu! Não sou Flaubert ou Truman Capote , contando a história do alto, sabendo a verdade sobre tudo’. Desde que comecei a escrever em primeira pessoa, nunca consegui voltar a outra coisa. Também não tentei. Isso se tornou algo absolutamente evidente, específico daquilo que busco fazer."
Durante a leitura de "O Adversário", fiquei com a impressão de que Carrère pode ser mais impiedoso consigo mesmo e com sua família do que foi com Romand. O autor discorda a princípio, para concluir, depois de alguns segundos de silêncio, que foi preciso cuidar mais de Romand do que era preciso cuidar de si próprio.
"Jean-Claude Romand estava na pior situação possível para um ser humano. Eu não era juiz nem nada disso. Se falo dele, se escrevi sobre ele, existe uma espécie de obrigação moral de compaixão, ainda que não seja fácil", aponta ele.

"Eu apareci de repente, por vontade própria. É muito diferente de ser advogado, juiz ou psiquiatra, investido de uma missão pela sociedade. Se você é escritor, decide sozinho fazer isso. Então precisa de fato cuidar da pessoa, justamente porque ser alguém que fez coisas tão horríveis. Posso ser menos generoso comigo mesmo porque estou numa situação melhor."
Eu me pergunto por que alguns leitores e críticos insistem que toda essa "literatura do eu" é uma novidade, produto dos egocêntricos tempos da internet, se autores como Montaigne já escreviam sobre si mesmos no século 16.
Carrère compra a briga na hora. "Montaigne é o maior exemplo de escritor que escreve algo totalmente universal falando apenas de si mesmo, daquilo que sente, daquilo que pensa, mas com plena consciência de que aquilo que pensa é relativo. Montaigne é o melhor escritor para a saúde mental. Ele ajuda você. Ler Montaigne é, de certo modo, como ler um grande livro de autoajuda, porque todos os livros de autoajuda dizem, sabiamente, que você deve se aceitar. E Montaigne é o rei disso."
"Colcoz", sua obra mais recente, tenta dar conta de um século inteiro de seus antepassados, com a imigração russa, duas guerras mundiais, o comunismo, a guerra na Ucrânia, a trajetória intelectual de sua mãe, um pai exageradamente devoto ao casamento e o afeto incondicional do autor pelo tio progressista –um homem obcecado pela verdade, o que remete à essência dos livros de Carrère.
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É mais uma obra magnífica do escritor. No entanto, as primeiras páginas do livro podem ser tortuosas. Precisamos lidar com histórias de quatro gerações e inúmeros personagens com complexidades e reviravoltas que dariam ótimos romances individuais.
É tanto nome para decorar que periga você deixar o livro para mais tarde. De repente, depois de umas 70 páginas, a mágica acontece. A saga familiar se torna interessante, cheia de finalidade e fundamento.
Perguntei se tamanha provação era deliberada. Carrère ri e diz que confia em seus leitores: "Esse livro é um pouco como fazer um trekking na montanha. No começo, é preciso se esforçar, mas depois você fica feliz por ter feito, percebe que valeu muito a pena."
A obra começa no funeral de sua mãe, Hélène Carrère d’Encausse (nascida Zourabichvili), uma ilustre intelectual francesa, especializada em história russa. Em 2023, o presidente Emmanuel Macron —um homem que, nas palavras de Carrère, "nunca sente nem frio nem calor"— fez um discurso "competente" ao lembrar que entre os ancestrais de Hélène "havia príncipes russos e barões bálticos", que perderam tudo na emigração russa.
A tentativa de escrever um livro em homenagem a sua mãe sai novamente daquele jeito caótico e delicioso. Em "Colcoz", o escritor segue debatendo e discordando da mãe (como fez, de certa forma, em "Um Romance Russo"). É a maneira mais honesta de se importar verdadeiramente com alguém. Essa percepção parece agradá-lo bastante.
"Espero que você tenha razão. Além do mais, trata-se de um retrato; portanto, existem zonas de luz e zonas de sombra. Eu não deveria nem poderia retratar minha mãe como uma santa, porque ela não era. Mas era uma figura bastante impressionante. E o livro também foi escrito sob a perspectiva da morte dela, que teve uma enorme grandeza", diz ele.
"Minha mãe esteve sob a luz a vida inteira, ela procurava a luz. Meu pai estava à sombra dela, e narro um processo em que ele sai da sombra. O fim do livro é sobre ele entrando em alguma luz. E o que foi realmente mais importante para mim no processo foi que o lugar do meu pai no livro cresceu cada vez mais."
Pergunto se Carrère, em sua íntima saga amorosa, já sentiu alguma vez certa inveja desse amor devotado que o pai tinha pela mãe, se já desejou se sentir assim tão entregue, ou se o pai lhe causava mais pena e compaixão. Ele chacoalha a cabeça como se pudesse espantar por completo a ideia.
"Com certeza mais compaixão do que inveja. Inveja nenhuma, nunca, meu pai teve uma vida muito difícil. Contudo, acho que ele não a teria trocado por outra vida. Minha mãe não era apenas o amor dele, era o destino dele. De certa forma, isso fez com que a vida dele não fosse apenas uma vida, mas um destino, o que não acontece na vida de todo mundo."
Ainda em "Colcoz", Carrère conta que, até a véspera da invasão russa da Ucrânia , sua mãe continuava dizendo que Putin era "um homem brutal, mas racional, zeloso de seus próprios interesses, e que nunca, absolutamente nunca, faria uma tão louca" quanto invadir a Ucrânia.
Pergunto como foi possível que uma das maiores especialistas na Rússia não tivesse percebido a guerra se aproximando. "Bem, ela não foi a única", responde. "Ela acreditava que Putin era um jogador implacável, mas que jogava segundo as regras da Realpolitik . E invadir a Ucrânia não se justifica em termos de Realpolitik, pelo equilíbrio entre perdas e ganhos. Certamente as motivações são muito mais ideológicas."
Os leitores de "Um Romance Russo" notarão que, 20 anos depois, a maneira como Emmanuel Carrère trata a história de seu avô paterno Georges Zourabichvili —colaborador da ocupação nazista na França , o tal segredo familiar que ao vir à tona arrasou a mãe do autor— ganhou tons mais brandos em "Colcoz".
Parece fazer um exercício maior para compreender os motivos de um homem que, como ele, sofria de transtorno bipolar e estava sempre "aqui e ali, dividido, em lugar nenhum": "Era um sujeito que trabalhava como intérprete para os alemães no comando em Bordeaux. Não estou dizendo que isso é aceitável, mas não é como se ele tivesse sido um Klaus Barbie [chefe da Gestapo em Lyon]. Não penso nele como um homem horrível, mas como alguém bastante infeliz e azarado, que teve uma vida terrível."
O autor diz que os talentos de seu avô foram desperdiçados. "Então eu sentia, na verdade, pena dele. E o fato é que reconheci alguns traços, alguns padrões de caráter que também tenho. Mas tive mais sorte. E desenvolvi um talento criativo que ele infelizmente não tinha, e isso é algo que permite dar forma ao que faz você sofrer. Portanto, não é que faço uma defesa ou uma redenção dele no novo livro. É apenas que, ao perceber a importância que esse homem e seu destino patético tiveram na vida da minha mãe, na nossa família, era necessário falar dele mais uma vez."
Carrère acredita que, com "Colcoz", encerrou também sua obsessão pelo tema da Rússia. "Esse livro resume tudo o que a Rússia foi para mim, para a minha família. Não era apenas a origem, mas uma espécie de negócio de família. E agora é como se o negócio tivesse ido à falência."
O francês já tentou ser salvo por tai chi chuan, meditação, ioga, medicação, eletroconvulsoterapia e pelo cristianismo. Mas, no fim, o que o salva é mesmo escrever.
A escrita dá forma a sua vida, o protege de tudo, até quando é preciso atravessar provações muito reais, como um colapso seriíssimo em que desejou verdadeiramente morrer. "Não importa o que aconteça, eu penso que talvez possa escrever sobre aquilo, e isso me dá uma espécie de, se não sentido, forma."
Depois de passar tanto tempo num divã, um dos desejos do autor era conseguir evoluir –como disse Freud sobre um fim bem-sucedido de um percurso analítico, passar da infelicidade neurótica para a infelicidade comum. Pergunto se ele conseguiu. "Espero que sim. Adoro essa ideia. As coisas melhoraram com a idade. Sou mais feliz, eu diria."
E o Goncourt? Carrère concorreu ao prêmio pela primeira vez em 1988, ou seja, são quase 40 anos à espera. "Obviamente, há alguma coisa entre mim e o Goncourt que não funciona. Na última vez, eu estava na lista, mas não tive nenhum voto. Zero votos. É difícil de entender. Não acho que eu seja o pior escritor francês."
Ao me despedir, digo que espero, como sua leitora, que ele continue "não morrendo" e que, apesar da cultura do cancelamento, nunca perca seu olhar mais crítico, maldoso e afiado.
Afinal, este é o verdadeiro equilíbrio em um retiro Vipassana: acreditar naquilo tudo, tentar de fato acalmar a mente, mas sem jamais perder a capacidade de rir dos abraçadores de árvores e saber que "a verdade está mais em Dostoiévski do que em Dalai Lama ".
Ele agradece pelo incentivo, diz que "coisas positivas demais são sempre suspeitas" e promete fazer o melhor para continuar vivinho da silva.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/tenho-tendencia-a-me-autoflagelar-mas-estou-mais-feliz-diz-emmanuel-carrere.shtml.

O escritor francês Emmanuel Carrère - Joel Saget - 5.nov.2025 / AFP · Joel Saget - 5.nov.2025 / — Foto: Folha de S.Paulo
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