Tempos complexos pela frente
Após uma campanha pobre em ideias , mas rica em ataques a reputações, sem a apresentação de soluções para o país e com o recorde de 33,4 milhões de ausentes, houve uma vitória expressiva do bolsonarismo. Flávio Bolsonaro ( PL ), o número 2 do clã, chega ao segundo turno com grandes chances de vitória daqui a 20 dias . Leia mais (10/05/2026 - 22h00)

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Procurador de Justiça e doutor em direito pela USP, é idealizador e presidente do Instituto Não Aceito Corrupção
Após uma campanha pobre em ideias , mas rica em ataques a reputações, sem a apresentação de soluções para o país e com o recorde de 33,4 milhões de ausentes, houve uma vitória expressiva do bolsonarismo. Flávio Bolsonaro ( PL ), o número 2 do clã, chega ao segundo turno com grandes chances de vitória daqui a 20 dias .
Cabe logo a primeira pergunta: quem seria, filosoficamente, o bolsonarista —além de ostentar a pura e simples condição de seguidor do messiânico e mítico patriarca, ex-presidente, ou de seus descendentes? Acreditar que não devemos nos submeter à vacinação? Que a Terra é plana? Que as Forças Armadas seriam o quarto poder? Que não houve golpe militar em 1964? Que Brilhante Ustra não foi torturador? Lutar pelo fechamento do Congresso e do STF, como pregam muitos adeptos em manifestações pelo país?

É sintomático que o day after das eleições seja exatamente o dia do aniversário da Constituição de 1988. A mesma Carta pode vir a ser solapada, em breve, nos termos dos famosos enunciados teóricos de Ziblatt e Levitsky. Para os cientistas políticos, os autoritários acessam o poder pela via das eleições democráticas. Uma vez instalados, iniciam um progressivo e irreparável processo de deterioração das instituições democráticas. Como adverte Daron Acemoglu, Prêmio Nobel de Economia em 2024, sem instituições fortes não existe evolução nem desenvolvimento possível.
"Como as Democracias Morrem" , best-seller mundial dos mencionados professores de Harvard, relata essas experiências em diversos países, como os Estados Unidos de Donald Trump; a Hungria de Viktor Orbán; a Turquia de Recep Erdogan; a Venezuela de Hugo Chávez; o Brasil de Jair Bolsonaro . E agora poderemos viver uma nova experiência, caso Flávio vença as eleições no segundo turno.
Chama a atenção que, apesar de 82,7% dos entrevistados em pesquisa realizada pelo Inac (Instituto Não Aceito Corrupção ), em parceria com o Datafolha, se declararem muito ou extremamente preocupados com a corrupção, nenhum dos dois candidatos que foram para o segundo turno disse quais planos tem para preveni-la ou combatê-la. Parece ser um problema inexistente, assim como as emendas parlamentares, cujo montante explodiu. Mesmo à beira de um colapso fiscal , nada se fala a respeito.

O Brasil que sai das urnas deu uma guinada à direita , talvez não simplesmente porque os eleitores tenham mudado sua visão de mundo, mas muito mais como reação negativa ao lulopetismo e aos seus sinais de esgotamento. De forma arrogante, Lula ( PT )subestimou o adversário, e seu partido não conseguiu se adaptar à dinâmica dos novos tempos nas redes sociais. Já a ultradireita soube dizer o que os eleitores queriam ouvir .
Some-se a isso o "fator STF", mergulhado na maior crise de sua história, onde, após uma deplorável sessão, foi captada por um fotojornalista a imagem de ministros às gargalhadas , mesmo diante dos graves acontecimentos. Os eleitores entenderam que zombavam deles e fizeram a conexão de Lula com a crise. A resposta veio nas urnas, especialmente nas escolhas para o Senado, criando condições para o impeachment de ministros.
Tempos complexos para o cidadão, seja quem for que vença as eleições de 25 de outubro.

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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/tempos-complexos-pela-frente.shtml.

Montagem com Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) durante as respectivas votações no domingo (4) - Eduardo Anizelli/Folhapress e Amanda Perobelli/Reuters · Eduardo Anizelli/Folhapress e Amanda Perobelli/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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