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    'Tecla Deus e, depois, confirma': religião e eleições

    No cenário das disputas políticas contemporâneas, o ato de relacionar crenças religiosas ao voto não dispõe de um modelo neutro ou isento de conflitos. Logo, a busca por uma fórmula confortável que regule a interseção entre fé e escolha eleitoral revela-se uma ilusão sociológica. Leia mais (10/08/2026 - 07h00)

    Folha de S.Paulo
    8 de outubro de 2026 às 10:00
    'Tecla Deus e, depois, confirma': religião e eleições
    Urna eletrônica da Justiça Eleitoral em primeiro plano, com tela exibindo o logotipo e texto oficial. Dois homens de terno e gravata estão desfocados ao fundo, em ambiente interno. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    Deus e sua vontade não cabem nas urnas eletrônicas - Zanone Fraissat - 23.set.26/Folhapress · Zanone Fraissat - 23.set.26/Folhapress
    Deus e sua vontade não cabem nas urnas eletrônicas - Zanone Fraissat - 23.set.26/Folhapress · Zanone Fraissat - 23.set.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante

    No cenário das disputas políticas contemporâneas, o ato de relacionar crenças religiosas ao voto não dispõe de um modelo neutro ou isento de conflitos. Logo, a busca por uma fórmula confortável que regule a interseção entre fé e escolha eleitoral revela-se uma ilusão sociológica.

    Qualquer posição adotada pelas lideranças de comunidades de fé —seja o engajamento explícito, o uso de valores abstratos ou a tentativa de silêncio— gera impactos imediatos na estrutura organizacional das igrejas, na autoridade do clero e na vivência dos fiéis.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A atuação das lideranças religiosas diante do processo eleitoral pode ser sistematizada em três padrões principais de conduta pública, cada um acompanhado de tensões e consequências organizacionais específicas.

    O engajamento direto e a crise de autoridade é o primeiro tipo. A declaração pública de voto por parte de um líder espiritual coloca em risco seu próprio capital de autoridade. Quando a escolha do líder diverge da orientação dos membros, instala-se um sentimento de reprovação moral entre os discordantes.

    Os desdobramentos dessa tensão variam conforme a arquitetura institucional da comunidade religiosa. Em igrejas de estrutura hierárquica (sem processos decisórios internos via voto), os fiéis que discordam do posicionamento político da liderança tendem a se desfiliar da instituição.

    Trilili Urna Eletrônica
    Trilili Urna Eletrônica — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por outro lado, em igrejas evangélicas do campo histórico, onde a governança é democrática e os próprios pastores são eleitos pelo voto dos membros, a divergência político-ideológica produz o efeito inverso: em vez da debandada dos fiéis, é o próprio pastor que frequentemente acaba destituído ou compelido a deixar a igreja.

    O segundo tipo é o engajamento indireto. Diante do risco de cisão, muitos líderes optam por mencionar princípios e valores gerais, evitando a indicação ostensiva de partidos ou candidatos de sua preferência.

    Embora essa conduta pareça mais prudente e eticamente equilibrada, a sociologia da linguagem demonstra que os conceitos utilizados não são neutros. Expressões como a defesa da "família" ou da "soberania nacional" funcionam como sinalizadores discursivos inevitavelmente associados a determinados campos e partidos políticos, vinculando o discurso religioso a projetos específicos mesmo sem a citação direta de nomes de candidatos.

    Silêncio e neutralidade é a terceira opção. O objetivo é reduzir o atrito produzido no espaço sagrado pelas divergências eleitorais. Contudo, o silêncio não consegue isolar a comunidade das dinâmicas políticas. Em primeiro lugar, porque a própria tradição do cristianismo e os textos bíblicos abordam inevitavelmente a esfera da governança e do poder civil. Em segundo lugar, membros da comunidade religiosa que disputam cargos nas eleições podem enxergar no silêncio omissão e falta de apoio dos irmãos de fé.

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    Entretanto, a inevitabilidade de ruídos e divergências políticas no meio religioso não deve servir de justificativa para acobertar práticas ilegítimas, quer no âmbito eleitoral, quer no espiritual. Sob o aspecto eleitoral, configura-se ilícito o uso do culto público para a realização de propaganda partidária ou indicação explícita de voto aos fiéis.

    Na esfera espiritual é abuso religioso quando a liderança ou o fiel utiliza a fé para enquadrar a escolha eleitoral divergente como "pecado" ou "desobediência à vontade divina". Essa prática deslegitima o pluralismo político interno, reduzindo escolhas civis legítimas a falhas morais contra o sagrado.

    Em Atenas , berço da democracia , o apóstolo Paulo afirmou que "Deus não habita em santuários feitos por mãos humanas" (Atos 17:24). Em tempos em que as democracias e seus muros de laicidade são ameaçados sob o fervor religioso, a transcendência divina, anunciada em Atenas, pode ser traduzida na afirmação que "Deus e sua vontade não cabem nas urnas eletrônicas ".

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/10/tecla-deus-e-depois-confirma-religiao-e-eleicoes.shtml.

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    Deus e sua vontade não cabem nas urnas eletrônicas - Zanone Fraissat - 23.set.26/Folhapress · Zanone Fraissat - 23.set.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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