Teatro no Supremo expõe disfunção e impacto eleitoral
Foi pesarosa a única manifestação de Cármen Lúcia na turbulenta sessão em que seria discutida a abertura de investigação sobre a relação entre seu colega Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro . Leia mais (09/15/2026 - 19h04)

Contextualiza um acontecimento e aprofunda a compreensão de seus diversos ângulos
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Foi pesarosa a única manifestação de Cármen Lúcia na turbulenta sessão em que seria discutida a abertura de investigação sobre a relação entre seu colega Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro .
Antes de votar acerca da questão de ordem que dominou o dia, ela se desculpou à população por não evitar o teatro desfiado pelos ministros ante um cenário que, se era bastante previsível, foi franco em termo de declarações do que ela chamou de "torcidas e lados".
Teatro, pois as jogadas do dia, mesmo as menos esperadas, se encadearam de forma lógica e reveladora do "modus operandi" de Brasília.

O vazamento do envolvimento sugerido de parentes de ministros com a Vorcarosfera abateu de saída Kassio Nunes Marques , amparado numa alegação de que não poderia se meter naquele assunto enquanto presidente do Tribunal Superior Eleitoral.
Luiz Fux , de casca mais grossa, seguiu desafiador, negando quaisquer irregularidades de seu filho. Mas a baixa nas hostes associadas ao bolsonarismo foi decisiva para o empate que se desenhou na análise do pedido de Gilmar Mendes para que o caso do aliado Moraes fosse analisado com o do rival André Mendonça .
Com o cenário colocado, coube a Gilmar, que lembrou seus momentos mais inflamados em debates ao longo dos anos no STF , fazer a provocação final a Mendonça. Ele reagiu, e isso deu a deixa para que Flávio Dino pedisse vista em nome de uma decência que não havia transparecido na sessão.

A jornada foi dura, com o diferencial histórico de que dois dos presentes se acusam de práticas que podem ser criminosas. O que se viu foi um Supremo em desagregação, simbolizada de saída pelo aparato de segurança inédito sem ameaça externa.
Parece ínfima a chance de que a vista de Dino, de resto o mais loquaz do grupo pró-Moraes, vá fazer mais do que postergar a crise na corte. Ninguém imagina Gilmar e Mendonça debatendo um habeas corpus que seja no futuro visível.
Notável foi como a boiada eleitoral que passava recebeu nomes, ou quase. O evidente entrelaçamento do ritmo processual de Mendonça acerca das relações no mínimo impróprias de Moraes com Vorcaro foi desfiado várias vezes.

Em princípio, isso é pior para Lula (PT), que apostou seu terceiro mandato em uma associação tácita com Moraes, que simboliza a nêmesis de Jair Bolsonaro e os seus. Mesmo tentando se ver distante do magistrado, agora é tarde.
A questão não são os convertidos . Como mostrou o Datafolha da semana passada, 85% não mudaram de voto devido às revelações contra Moraes, e 86% se mantiveram inamovíveis após as acusações contra Mendonça.
O diabo está no impacto potencial sobre as casas decimais pendulares que parecem a caminho de decidir esta eleição. Como o ódio a Moraes injetou um ânimo antes inaudito na campanha de Flávio Bolsonaro ( PL ), resta saber se a reverberação terá o condão de captar parte desse eleitorado.

Nesse sentido, a vista de Dino não traz garantia alguma de que a crise irá amainar até o segundo turno; ao contrário, ela tenderá a ocupar todo o noticiário, obrigando mudanças de tática eleitoral que ainda não foram vistas no campo do PT.
Para Lula, há o consolo de que a manutenção da temperatura alta poderá ensejar o aparecimento de mais detalhes do relacionamento próximo de Flávio com Vorcaro, em especial do tortuoso caminho do dinheiro que teria financiado o filme "Dark Horse".
Para o Supremo, ao fim, a crise se resume no olhar cansado da ministra Cármen, que sintetiza o desgaste institucional descrito ao longo da sessão. Não parece haver caminho fácil para contornar o beco a que chegou devido à sua disfunção de base, calcada no isolamento de seus membros.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/teatro-no-supremo-expoe-disfuncao-e-impacto-eleitoral.shtml.

O ministro Alexandre de Moraes na sessão extraordinária do Supremo desta terça (15) - Rosinei Coutinho/Divulgação STF · Rosinei Coutinho/Divulgação STF — Foto: Folha de S.Paulo
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